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26/03/2017

Crise da representação


“Fulano de tal não me representa”. Temos visto esse tipo de manifestação, na Internet e nas ruas. Não só no Brasil. Os analistas da vida política falam em “crise de representação”. As pessoas delegam poderes para quem as pode representar na democracia liberal representativa, e logo se sentem traídas. Então, começam a desconfiar de que os representantes estão só representando a eles mesmos, na busca da sobrevivência enquanto animais partidários. Bem, essa é uma explicação para o nosso momento – inclusive para os votos brancos e nulos em várias eleições. Essa explicação é jornalística e cai bem no campo da ciência política. Na filosofia, exigimos mais.

Tendo a colocar antes a tese da crise da representação que a de crise de representação. A questão, portanto, é mais profunda. Mas nos termos de um artigo simples, que é o que desejo aqui fixar, evitarei os argumentos técnicos.

Começo pela ideia de sujeito em moldes básicos, mais ou menos como Foucault estabeleceu. Para o pensador francês o sujeito tem dupla face, uma no campo da investigação ético-moral e outro no campo das narrativas jurídico-políticas. No primeiro campo há o falar de si, onde reina a reflexão, consciência e autoconsciência. Alguns diriam:  a interioridade é que sustenta a definição de sujeito como aquele que é consciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos. Reside aí, então, a liberdade. No segundo campo há o falar com os outros. É onde reina os relacionamentos e reconhecimentos mútuos da vida coletiva, terreno das normas, leis e regras que se põe de modo institucional. Aqui o sujeito se faz por sujeição. O sujeito é, nesse caso, o que se sujeita.

Tanto o primeiro campo quanto o segundo campo tem a ver, na nossa vida, com o mundo moderno, e especial com as formjulações originárias do cristianismo. A religião cristã é subjetiva. O “homem interior” é tematizado por Agostinho. Ele entende certas leis como presentes em diversos povos, e fala da universalidade delas por conta de estarem no coração do homem, postas por Deus. Ele investiga a si mesmo, acha Deus e suas regras no seu próprio interior, confessa a Deus seus infortúnios. Mas o cristianismo – e nesse caso a Igreja Católica faz sua parte – também ensina que “reinar é servir”, algo que está presente principalmente no Evangelho de Mateus, e que hoje pertence aos frutos da Igreja de João XXIII e Paulo VI. Esse elemento também colabora na composição do sujeito, no referente ao sujeitar-se. Então, para governo e auto governo, para que o sujeito possa ser sujeito se mostrando autônomo, soberano, ele deve aprender a servir de modo tão perfeito que se torne insubstituível e, assim, o que realmente governa. A união do homem interior com o sujeito que se sujeita se faz exatamente nesse ponto: aquele que serve se torna o consultor de si mesmo e dos outros, se desinibe para a ação e desinibe outros fazendo o papel de conselheiro, depois ideólogo e, hoje em dia, consultor. Faz o que faz com razões possíveis de serem exibidas, narrativas que dão justificativa e ampliam o poder da ação. Torna-se o que os jesuítas foram – como nos ensina Sloterdijk – e, nesse sentido, o que depois também foram os empresários. Homens que se automotivam, que passam da teoria para a prática e que se tornam necessários – eis aí o sujeito.

Assim, é sujeito quem se prepara para tal. Nos nossos tempos, aparece aí o imperativo do designer de si mesmo. “Mude sua vida”, faça-se sujeito, protagonista de sua própria história. Programe-se e reprograme-se. Sob essas ordens da modernidade, e que são retomadas de quando em vez, o sujeito enquanto homem se torna palco de representação, avaliando outros que querem ser sujeitos, e também se mostrando para outros, de modo a testar seu design ou redesign. Ora, se estou me preparando para ser sujeito, dentro desses parâmetros, é bom que eu tenha logo a imagem do meu redesign. Devo garantir uma ontologia na qual eu, reconstruído, realmente exista. Onde está o palco para minha atuação e, então, existência? O palco é o homem, mas na sua extensão, a mídia. No caso atual, especialmente a Internet. Meu novo design pode ser então testado nesse palco. Escolho mil e um estilos em meu redesign, para ver com qual fico. Mas o diabo está solto e me dá uma fórmula mais rápida: logo descubro que é mais fácil eu simplesmente apresentar mil desenhos, e não um design. Este, certamente que exigiria uma oneração ético moral e uma carga jurídica. Não! Quero o mimo da desoneração. Prolifero então imagens, fakes, perfis, fotos de todo tipo, caretas, fotos de outras coisas, ou seja, o que consumo. Fixo na rede social um domínio. Tenho então um sujeito mostrável para cada ocasião, ou seja, mil e um protossujeitos, ou melhor, pseudo-sujeitos.

Não é difícil perceber que essa inflação de imagens de um eu que busca fazer seu trabalho de eu e ao mesmo tempo ser desonerado, leva a uma questão de dúvida a respeito da autenticidade. O que é o autêntico e o que não é, no mundo da inflação da imagens de eus que, enfim, não são efetivamente eus? Como parar isso? Não há parada, pois a pressão para o redesign continua e nem todos podem se redescrever como sujeitos autênticos, ou ao menos usar de consultores para tal. Eis que o redesenho ganha do redesign. Ou cem mil caricaturas ganham do desenho sóbrio. E assim a crise de autenticidade entra numa espiral ascendente na proporção das proliferação das imagens que crio para mim. O questão da filosofia, o dilema  clássico moderno entre apresentação e representação, se dissolve diante do fogaréu de um novo dilema: qual representação que seria legítima e qual a ser qualificada como não-legítima. Desse modo, tudo que é representação fica sob berlinda. Há então uma crise da representação. A crise de representação é apenas parte pequena disso. Num mundo onde o real é o representado, uma crise da representação é de fato um crise séria.

Não à toa, hoje em dia, muitos podem dizer “fulano de tal não me representa” e ao mesmo tempo não saber dizer qual seria de fato o seu representante. Temos duvida de quem é o representante nosso, pois temos dúvida sobre a própria representação em geral. Afinal, o meu representante representa qual dos meus desenhos de eu? Qual dos meus pseudo-sujeitos serão atendidos. Ora, e por que algum representante iria levar a sério a tarefa de representar um pseudo-sujeito? A crise de representação está no interior da grande crise da representação.

Filosoficamente: entramos num jogo de espelhos onde perdemos o rumo de quem é o vidro polido e quem é o original.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 23/12/2016

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2 Responses “Crise da representação”

  1. Daniel
    24/12/2016 at 01:46

    E se pudermos falar que a representação moderna é ela própria uma crise ou um rompimento com a apresentação, de estilo antigo e medieval? Penso que os nossos avatares (nossos perfis na Internet) indicam um agravamento nesse processo.

    • 24/12/2016 at 02:42

      Daniel, esse é outro assunto. O assunto abordado por Heidegger, para ele seria sim um problema.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo