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20/10/2018

“Crime sexual” – uma expressão ideológica


Um homem aproxima sua boca da boca de uma mulher. As bocas se encostam. Acontece então um apertar de dentes de um nos lábios de outro. O que ocorreu? Uma mordida ou um beijo? Só um tolo diria que foi um beijo.

Um homem aproxima o pênis ereto da vagina de uma mulher. O pênis penetra a vagina; esta, completamente fechada, é aberta pela força do pênis, e começa a sangrar ou ao menos ficar bem esfolada. O que ocorreu? Sexo ou violência? Aqueles que disserem que ocorreu sexo com violência terão de dizer que, no caso acima, o que ocorreu foi beijo com mordida. Dizendo isso, a primeira situação ganha uma descrição ridícula, mentirosa. Pensada de modo melhor, a segunda situação, então, é descrita mais corretamente se falarmos em violência, não em sexo.

Mas se é assim, por que na segunda situação alguns baterão o pé e insistirão que ocorreu sexo? Por que a teimosia em dizer que foi sexo? Ou por que a sensação de que se deve falar em sexo nesse caso?

Analisando essas duas situações mais friamente, não é difícil perceber que, no segundo caso, só dizemos que se trata de violência sexual por que, antes de tudo, temos uma visão já deturpada e negativa do sexo. Toma-se o sexo exclusivamente como penetração e, assim fazendo, devolve-se para o caso que envolve a penetração com mais força, “não consensual”, o nome de sexo , e tendo uma dose de violência, então eis aí a “violência sexual”, o “crime sexual”, o “estupro”.

Caso possamos ver o sexo como alguma coisa não reduzida à penetração, ou seja, algo que não é a relação de um que goza com outro que apenas suporta a situação, duvido tomarmos como correto dizer que o estupro é um crime sexual. Diríamos que é um crime de penetração, uma violência, não um crime sexual. Não admitiríamos colocar o nome de “sexual” na prática da violência. Fazemos isso exatamente porque antes de tudo o pênis já é visto como o que serve apenas para a procriação ou para o gozo masculino, no limite, de qualquer forma um tipo de violência. Só quem vê o sexo assim fica tranquilo em dizer que a penetração sem consenso é algo sexual. Uma pessoa com menos repugnância pelo pênis e com facilidade de gozo, não diria que o estupro é sexual, diria que é uma violência – exclusivamente uma violência.

Mulheres bem amadas e com capacidade de orgasmos não chamam nenhum estupro de crime sexual. Chamam de crime. Uma vez estupradas, não acham que fizeram sexo com violência, acham que não fizeram sexo algum, e que foram vítimas de uma tremenda violência. Ao invés de levarem uma agressão no braço ou na barriga ou nos olhos, ganharam uma agressão na vagina. Homens mais sensíveis, que compreendem o sexo, falariam o mesmo: isso não  tem nada a ver com sexo, mas com dominação e violência.

O “crime sexual” é uma criação de uma fantasia de quem não tem muita ideia do que é sexo. Mulheres infantilizadas pela anorgasmia tendem a acreditar que a penetração é que é o sexo e, então, tudo que vier a penetrar na vagina, terá conotação sexual. O grande culpado de tudo, então, é o pênis, ou coisas parecidas com ele.

A partir do momento que inventamos o “crime sexual do estupro”, tudo fica mais fácil de lidar, ainda que mais difícil de conhecer. Para os homens, desaparece a palavra “violência”. E então as coisas ficam mais fáceis mesmo. Para a mulher, aparece a palavra “sexual”, que, na cabeça de muitas, já substitui a palavra “violência”. Para ambos, homens e mulheres, torna-se atraente então sumir com as duas palavras, “violência” e “sexo”, criando a expressão “crime hediondo”. Todo esse arranjo semântico nos faz saber pouco e suportar mais. São formas de desconhecimento. São estratégias de ampliação de erros.

Enquanto houver “crime sexual” para confundir nossa linguagem não vamos jamais entender a violência contra a mulher. Não a entendendo, não conseguiremos combate-la. E é realmente onde estamos hoje em dia.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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13 Responses ““Crime sexual” – uma expressão ideológica”

  1. Adriano
    13/04/2014 at 23:18

    Excelente texto para reflexão professor Paulo Ghiraldelli, pois trabalhando questões de preconceitos com alunos da EJA levantei o problema do estupro como uma forma bárbara de preconceito herdada de uma cultura machista de que o homem pode tudo e a mulher é apenas um objeto a ser usada pelo egoísmo justificado por esse tipo de mentalidade que persiste em continuar em nossa sociedade. Até citei aos alunos a célebre e clássica reflexão de Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” E no meu ponto vista, comentei que esse “torna-se” é justamente a luta consciente das mulheres de quebra de paradigma dessa bárbara forma de preconceito anômica da sociedade historicamente construída culturalmente ao suposto sexo forte em detrimento do suposto frágil. Irei usar seu texto como material de apoio aos alunos da EJA, já que estamos num projeto escolar sobre as diferentes faces do preconceito.

    • 14/04/2014 at 00:19

      Adriano, minha perspectiva não inclui a palavra “preconceito” e “machismo”. Não há “violência sexual” para mim.

    • 14/04/2014 at 19:11

      Adriano, veja isso: PARA REINALDO DE AZEVEDO E OUTROS DA VEJA LEREM NAS FÉRIAS, se souberem ler. “Ser homem já significa filosofar (…) Como o ser homem tem, contudo, diversas possibilidades, múltiplos graus de lucidez, o homem pode encontrar-se de diversas maneiras na filosofia. De modo correspondente, a filosofia como tal pode permanecer velada ou manifestar-se no mito, na religião, na poesia, nas ciências, sem que seja reconhecida como filosofia” (Heidegger)

  2. Diego Michel
    08/04/2014 at 19:27

    Paulo, penso que a questão do entrelaçamento dos conceitos sexo, penetração e conjunção carnal (que, penso eu, adquire uma acepção pecaminosa não desproposital), resulta nesta dubiedade dos termos, dificultando ainda mais a comunicação e a compreensão do tema.

    • 08/04/2014 at 20:19

      É por aí. Diego, a filosofia tem muito o que fazer se toma a linguagem a sério.

  3. José Pedro
    08/04/2014 at 18:04

    Paulo, vc acha que vivemos numa sociedade muito sexualizada, e daí portanto temos a sexualização como central nesses tipos de crimes? Talvez se as pessoas não tivesse uma visão conservadora do sexo, as vezes de repulsa, não teríamos toda essa preocupação. Já encontrei feministas que pareciam tinha nojo de homens, tudo delas era centrado numa crítica muita exagerada ao que elas chamam de sociedade falocêntrica. Talvez elas lerem demais Freud.

    • 08/04/2014 at 18:28

      Pedro, a sociedade ocidental é sexualizada desde que os gregos perderam o seu momento, pois eles haviam criado uma sociedade erotizada. Isso não quer dizer que Eros era um deus melhor que outros. Sabe-se que Sloterdijk, por exemplo, prefere antes um elogio ao thymos que ao deus Eros.

  4. Valdério
    08/04/2014 at 13:54

    Paulo,

    Às vezes, para o leitor não filósofo, você parece escrever de modo mais claro, às vezes não. Foi só isso que eu disse.
    Ressaltei que não é nem um problema do seu modo de escrever e sim de acompanharmos o seu raciocínio, pois nem todos são filósofos.
    Quando disse que devemos nos ater à motivação (3º parágrafo), já fica claro que concordo com seu ponto de vista. Está claro pra mim, mas acho que não pra muita gente que o lê. O que propus era apenas para, caso você achasse relevante, escrever com bons exemplos as diferenças. Se você não acha interessante, ok. O blog é seu, quem sou eu pra reclamar, foi só uma sugestão e sei que às vezes é massante explicar o que você acha óbvio.
    Só pra você entender o que quero dizer (sem te dar nenhuma obrigação de repetir, ok?). Quando você fez críticas às abordagens da historiografia da ditadura, citou exemplos de abordagens que não eram feitas. Aquilo foi uma bordoada! Fiz link com um monte de coisas. Reli outros textos que você escreveu sobre o tema e entendi o que você quis dizer em todos.
    Não preciso de um texto daquele para este caso, mas talvez outros precisem e você já se desdobrou outras vezes. Foi só isso.

    Com relação ao acréscimo que fiz do homem que pratica, mas sabe pouco do sexo. Coloquei-o junto às feministas que você falou. A ignorância os leva ao mesmo ponto de vista.

    Abraço

    • 08/04/2014 at 18:30

      Valdério, a forma como você escreveu, pareceu pessoal, mas se era ou não uma terceira figura, a minha resposta não muda, embora exista ainda um número grande de exigências para que essa análise que fiz vire um ensaio sobre o tema. Mas não vou escreve-lo.

    • Valdério
      08/04/2014 at 20:04

      Paulo,

      Não precisa publicar.

      Nunca é pessoal, se houve tal entendimento, vou melhorando minha forma de me expressar. O link é exatamente com a sua conclusão das “anorgásmicas”. O que quis dizer é que para aqueles homens que, por diversas razões, fazem pouco sexo, a conclusão é a mesma das anorgásmicas: para a mulher, o sexo não é prazeroso.
      Sei que posso estar errado. É só um chute.

      Já defendi você em alguns compartilhamentos idiotas de colegas no Facebook que lhe atribuem idéias que sei não serem suas, pois o leio com frequência.
      Em todas as vezes, foi fácil pois as críticas eram toscas, como machista, racista, ou acusação de incitação ao estupro. Eram pessoas que não conseguem ler nada. Desse pessoal, tudo bem querer certa distância, mas achei que você poderia ampliar um pouco o alcance de leitores neste texto e sugeri as reflexões. Sei que fui atrevido e que sugerir pros outros é refresco (não resisti o trocadilho). Se você fosse um cara grosseiro já mandaria “faz você então mané!”
      Espero que não se ofenda no meu atrevimento em sugerir. Afinal, você já reclamou de alunos que não tiravam nada do seu conhecimento. De minha parte, nunca vou me ofender de uma sugestão não ser acatada.
      Abç

    • 08/04/2014 at 20:18

      Não li com desconfiança. Nem minha resposta, eu acho, deixou de se objetiva. Eu não me preocupo muito em saber o que as pessoas pensam de mim, eu me preocupo em ver se as pessoas que querem aprender aprendam. É só isso. Se eu não agisse assim, eu não teria tempo para nada.

  5. Valdério
    08/04/2014 at 08:43

    Paulo,

    Deixo um ponto pra você pensar um pouco melhor e esclarecer diferenças, caso se interesse é claro.
    A sua proposta de tratar estupro como violência e não crime sexual lembra, involuntariamente, o argumento das pessoas que são contra a criminalização da homofobia, que querem que tais casos sejam tratados apenas como violência.
    Sei o que você quis dizer e sei que em ambos os casos, temos que nos ater à motivação, sendo na homofobia o ódio preconceituoso e no caso do estupro a dominação sobre o outro (pra falar a verdade, acho que também se trata do ódio preconceituoso). Porém, você apresenta conceitos um tanto avançados. Difíceis para leitores não iniciados neste tema.
    Em tempo, acho que homens que experimentaram pouco sexo também contribuem para a falta de entendimento neste assunto, pois deram poucos orgasmos à parceira e, acham que o pênis só serve para dar prazer a si, sendo a vagina, ou o corpo feminino, mera concessão do amor conservador.
    Por fim, adorei este texto, mas recomendo aos leitores, lerem seus textos anteriores destas últimas semanas antes de chegar nele.
    Abraço.

    • 08/04/2014 at 12:56

      Valdério, homofobia como crime não tem a ver com sexo, tem a ver com “identidade”. O homossexual é uma minoria, não um fazedor de sexo. A mulher é minoria, e daí tem identidade também, não uma fazedora de sexo. Por isso é legítimo tratar a violência contra a mulher por meio de “violência contra a mulher”, do mesmo modo que é legítimo tratar a violência contra o homossexual como “violência contra homossexuais (ou casos de homofobia)”. Parece que você mesmo não consegue tirar o problema do sexo da cabeça, age como as feministas que falo aqui. Eu sei que essas nuances são difíceis de explicar, mas estou convencido que consegui explicar. O que eu fiz não foi “uma proposta”. Eu não proponho nada. Eu apenas funciono filosoficamente, no caso, desbanalizando o banal e fazendo terapia da linguagem. O banal é achar que mulher e homossexual são pessoas assim, como mulher e como homossexual, porque fazem sexo diferente. Ora, quem faz sexo diferente é o homem hétero. Os outros são normais. O sexo tem a ver com identidade, mas ele não é o todo de uma identidade, para nenhuma minoria. Sacou agora?

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