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20/11/2017

Criança feliz é criança exposta ao marketing!


O problema “consumo & infância” possui duas grandes facetas: primeiro, é o consumo nele mesmo, em segundo, vem o modo como o marketing afeta a criança.

O consumo exagerado, ou seja, o consumo compulsivo (1) é alguma coisa que o próprio mercado tem menos responsabilidade direta do que a ele se atribui. Compulsão ao consumo é quase ou praticamente um distúrbio de ansiedade. Talvez a “sociedade de mercado” possa ser responsabilizada por tal coisa sobre adultos e desses para a crianças, mas de uma maneira indireta, da mesma forma que podemos dizer que “a modernidade” ou “o capitalismo” ou o “mundo do trabalho” o são. Não temos muito que fazer contra isso, de modo imediato, algo mais pessoal e familiar. Podemos aí, talvez, sermos relativamente críticos a tais coisas, mesmo sem sermos socialistas. Mas, nesse caso, saltamos para a esfera política.

Agora, quanto ao marketing, há uma esfera política de atuação e, no entanto, há também a relação direta da propaganda conosco e com os nossos filhos. Nesse caso, voltamos à batalha infernal entre os pais que querem ter seus filhos segundo valores do clã e a sociedade liberal que deseja ver todas as crianças mais rapidamente independentes, cidadãs e, inevitavelmente, consumidores. Há como evitar ou amenizar os efeitos desgastantes dessa batalha? Há no mundo moderno a chance de separarmos os aspectos da infância e da cidadania, e aspectos do âmbito do direito ao consumo, direito do consumidor e direito à informação? Sabemos bem que, nesse caso, a pior medida é a censura. Ou pior ainda é a histeria de ongs e organizações de “pais contra o consumismo”. Tanto quanto os adultos também as crianças, dentro de regras outras, têm o direito à informação. O marketing sabe muito bem que pode se legitimar solicitando o direito de ser visto como um veículo informativo.

Esse drama educacional e ético, que atinge a disputa “família versus sociedade” ou “família versus mercado”, é um problema real. Em democracias liberais sempre há a questão: “eu educo meus filhos, eu quero para eles o entretenimento saudável, mas a sociedade em que vivo está me impondo uma TV que não posso desligar e uma Internet que não posso interromper”. Não há mais como fazer isso, ou seja, desconectar-se do mundo. O lacre à Internet, que até pouco tempo alguns achavam que poderiam colocar, caiu por terra como todos os mais inteligentes disseram que ia cair. As conexões se tornaram acopladas ao corpo de cada um, e logo serão internas à carne. Então, a responsabilidade minha sobre meus filhos começa a implicar em minha rebeldia diante do marketing agressivo, que quer me pegar em todo lugar, e que agora efetivamente pega. Há uma luta titânica nisso.

Por que meus filhos pequenos devem receber o recado de uma revendedora de comida fast food em todo lugar, a todo minuto, de uma maneira que vence qualquer possibilidade minha de revide dizendo que tal fast food não é bom? Posso ganhar a guerra com um argumento diante do não-argumento, diante da repetição, da propaganda agressiva? Aliás, há como argumentar com a criança, diante da tática adversária, a da companhia de fast food, que não só apela para a repetição, constância, quase omnipresença e, especialmente, a proposta enganosa? Como posso vencer um coelho qualquer, com cara engraçada e boa praça, que acompanha a criança como um daimon, oferecendo-lhe um produto segundo uma ótica bem determinada, com a qual não compartilho? Tenho chances?

A maior parte dos pais de classe média, escolarizados, e que possuem algumas restrições às propagandas, tentam entrar nessa guerra. Pensam ganhar, mas são derrotados sempre. Ninguém vence uma guerra dessas. Mesmo os pais histéricos não vencem. A propaganda moderna não é algo que cai sobre a vida moderna. Ela tem força porque ela é constituidora da vida moderna. Sem ela, nem há como falar, de um ponto de vista macro, de algo como “a modernidade”. É ridículo pensar em modernidade sem Gutenberg, mas só agora com a Internet de fato entendemos Gutenberg.

Desse modo, mais uma vez, a questão volta-se para o problema do grau de informação crítica que recebemos. E nisso só há uma máquina capaz de enfrentar outra máquina. A máquina que possuímos é a escola. Mas enganam-se os que pensam que é enfiando disciplinas específicas, campanhas e professores de esquerda que vão “criticar o capitalismo” que se faz a escola boa, capaz de ser uma pedra no sapato do marketing invasivo. A informação crítica tem de vir embutida como sempre veio, na formação normal e corrente da capacidade crítica dos jovens. Cada aula é uma aula de dúvida: por que o coelho é boa praça? Por que o ratinho do refrigerante é boa praça? Será mesmo que o palhaço da companhia de comida é amigo da criança? Achar que as crianças não acreditam nos germes e bactérias desenhadas e que devoram seus dentes, caso elas não os escovem, é bobagem? Elas acreditam! Então, se há propaganda que ajuda porque indica bons produtos – mas que não fazem milagres, há de se alertar – então por que não usá-las nas escolas para compará-las com outras, que podem ser tapeação?

Se há algo que o filósofo e o filósofo da educação não podem deixar de fazer é acompanhar a mídia! Sem isso, não podem ser filósofos e não podemos ajudar nada na cultura e na escola. Mas, para o filósofo que acompanha a mídia, logo fica claro que não há milagre a fazer, a não ser desenvolver o “conhece-te a ti mesmo”.

O problema então volta para o adulto? Estão os adultos suficientemente críticos e informados para saberem o quanto a propaganda os engana? E engana mesmo? Ou informa? Os adultos sabem que compram produtos de mão de obra escrava, e que não é só da China? Os adultos sabem e se importam de que a propaganda está acoplada à indústria de crueldade contra os animais e de alta poluição de nossas vidas? Os adultos sabem que a propaganda maravilhosa que eles vêem é daquele empresário que financia o político que lhe tira direitos? Os adultos sabem que toda cura do câncer oferecida no programa de TV do domingo tem lá, junto da matéria da mídia, algum laboratório que pode (talvez) estar forçando um pouco a barra? Os adultos devem saber que muitas vezes, quando cedem às teorias da conspiração, que dizem que há sim um laboratório forçando a barra, é necessário não sair gritando feito marxóide maluco, porque pode ser que não exista nada atrás de nada! Sabem disso?

Como se vê, essas últimas questões nos fazem pensar mais sobre o quanto podemos, de modo rápido e despreparado, sermos os donos das crianças, como anjos autônomos protetores e jamais enganados. Temos de conhecer nossos limites para colocar limites para as crianças e tentar saber dos limites que podemos tentar por diante da propaganda invasiva. Nossa melhor formação intelectual é nossa única saída nisso. Nossa tara pela censura, a pior.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

(1) Evito o termos “consumismo”. Está banalizado e esticado demais. Como “machismo”, não significa mais nada.

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2 Responses “Criança feliz é criança exposta ao marketing!”

  1. Orquidéia
    23/05/2015 at 04:56

    Eu acho que a falta prolongada de acesso à propaganda é que pode levar a criança posteriormente a ficar bobona,deslumbrada com o mundo como se o visse pela primeira vez,e consumista em dobro.
    *fiz um comentário independente,mas li seu texto,e concordei com a idéia do mesmo.

    • ghiraldelli
      23/05/2015 at 10:27

      Propaganda faz algo para quem ela atinge. Mas, infelizmente para adultos pouco analíticos e felizmente para crianças isso não é levado em conta.

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