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24/04/2017

A covardia de Bolsonaro e a coragem de Janaína


A ideia de coragem, nos termos tradicionais, não cabe no mundo moderno, especialmente na sociedade da abundância ou sociedade da leveza ou sociedade do entretenimento ou sociedade pós-histórica. Por uma razão simples: nossa sociedade moderna, de mercado, é devedora de tempos de paz, e não cabe nela o tipo guerreiro, que tem sua identidade para além de paixão e razão, mas recortada pelo thymos.

A psicologia que descreve o homem moderno é mais pobre que a psicologia antiga. Não tendo lugar na alma humana, que é reduzida a razão e paixão, a coragem, que é tipicamente timótica, esta acaba então perambulando como um fantasma e pode, inclusive ser completamente desfigurada. Na falta de uma hospedagem, de uma casa própria, ela pode perder seu rosto.

Dito isso, fica fácil entendermos como podemos qualificar Janaína Paschoal. Mas também fica fácil compreendermos a confusão sobre o adjetivo coragem, que deve ser posto para ela.

Ela é uma professora universitária igual a vários de nós, inclusive como eu, apenas bem mais jovem, e que inventou de entrar nessa façanha do Impeachment, enfrentando forças poderosas. Ora, isso é coragem. Temos de reaprender o conceito? Mesmo os que se opõe a ela, se forem de bom senso e tiverem honestidade intelectual, podem saber facilmente que, no Brasil, enfrentar o governo federal não é para qualquer um. Um deslize e sua vida é reduzida a pó e seu emprego e marido e filhos se desgraçam. Sabemos bem disso. Não há como não qualificá-la como mulher de coragem. É necessário muita cegueira ideológica para não vê-la assim.

Bolsonaro e seus parceiros são corajosos assim ó, fazendo isso com mulheres.

Bolsonaro e seus parceiros são corajosos assim ó, fazendo isso com mulheres.

Mas, dos que apoiaram o Impeachment, uma parte não vê assim. Há uma parte que prefere ver Bolsonaro como um indivíduo de coragem. Só que Bolsonaro não enfrentou governo algum. É deputado, tem salvaguardas e salário alto. E, sendo adversário do PT, teve sossego para fazer o que quis, como quis e onde quis. Sabemos bem, agora, o que foi o PT, cheio de bravatas, mas negociando por debaixo do pano até ser engolido pelas forças para quem  cedeu. O PT se enrolou de tal modo em acordos e corrupções – próprias e de outros – que deixou Bolsonaro ter força até em comissões em que ele não poderia jamais ter estado, uma vez que era inimigo declarado dos objetivos de tais comissões. Ora, e para piorar, como que Bolsonaro pode ser um “cara machão”, se ele tem como ídolo os torturadores do regime 1964-1985? Ninguém, em qualquer exército do mundo, acha o torturador um cara de coragem. Um soldado americano ou russo ou francês ganha sua desonra perante os mais ferozes e sanguinários parceiros quando bate em gente amarrada ou quando abusa de mulheres e tortura crianças. É uma regra universal entre os valentões reais não fugir desse conceito de covardia. Para qualquer soldado no mundo, gente como Bolsonaro é covarde. Gente que o apoia, tem um pé na covardia. Por que no Brasil há gente que, procurando uma pessoa de coragem, cai na fossa eleitoral do maior covarde brasileiro?

Qual a razão disso tudo? Qual o motivo pelo qual, no dilema entre a noção de covarde e de corajoso, existem os que estão assim, tão confusos? Não há mais como as pessoas poderem discernir? De fato, estamos vivendo uma situação de confusão, há mesmo quem não saiba que há a coragem de Janaína e a covardia de Bolsonaro. Sim: é falta do thymos na nossa psicologia que ajuda uma tal confusão. Sem lugar, o a ira, a coragem, a identidade circunscrita pelo orgulho do ímpeto corajoso perde a referência para deixar suas asas  pousar na pessoa certa.

Mas, isso, o thymos, não é algo que possamos reintroduzir na nossa descrição psicológica assim, sem mais. Nossa descrição não é assim, hoje, à toa. Há estudos em história e filosofia, que não posso repetir aqui, que explicam isso. O que temos que saber, pelo momento, é que pode estar além da nossa vontade a reconstrução da descrição da alma. Por isso, vamos ter de conviver com essa confusão, e re-esclarecer aos poucos o conceito de coragem e o conceito de covardia.

Talvez por isso mesmo seja interessante essa manifestação mundial contra Bolsonaro, para que os jovens se questionem sobre o seu líder falso, sobre o “mito” fajuto, sobre o cara que gosta de gente que mantinha mulheres presas para enfiar coisas nas vaginas delas, como foi o caso de Brilhante Ulstra e outros ídolos covardes do covarde chamado Bolsonaro. Muitos contaram as histórias desses torturadores: quando desamarravam as vítimas na prisão, mesmo quando estas estavam sem condições de reagir, os primeiros a saírem da cela eram esses torturadores. Medo e vergonha se apoderava deles facilmente. Aliás, não à toa, na célebre foto de Dilma sendo julgada pelo tribunal militar, vemos os militares ali, de testemunha, escondendo o rosto. Bem significativo. A covardia corre as veias de Bolsonaro como correu nas veias dos torturadores que, enfim, nunca deixaram de se esconder da justiça como ratos. Eram ratos. São ratos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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24 Responses “A covardia de Bolsonaro e a coragem de Janaína”

  1. fabio
    23/06/2016 at 06:16

    O comunismo teria sido melhor do que a ditadura?
    Faço essa pergunta humildemente desejo conhecer a resposta.
    Nesse jogo de meias vdd em quem acreditamos nos que dizem que a ditadura foi terrível ou nos que sonham em ver o Brasil transformado em uma Venezuela?

    • 23/06/2016 at 09:12

      A Venezuela não é comunista. Nenhum país é comunista e nenhum país do mundo tem isso como perspectiva. Se há ainda algo de comunismo é a Coreia, mas ninguém diz comunismo, apenas ditadura mesmo. O comunismo implica o fim da propriedade privada dos meios de produção. Nem mesmo os partidos comunistas, quando eram fortes, pregavam isso. Isso ficou restrito ao leninismo e ao campo da URSS. Sobre comunismo no Brasil, não havia nenhum plano para tal. A ditadura militar (1964-1985) usou disso como bode expiatório: “o comunismo, o comunismo”. Ora, ninguém sério dá bola para tal gritaria da direita ou de um energúmeno como Bolsonaro. Na época da guerra fria servia como bode expiatório, “o comunismo”, agora, nem isso. Só cabe na boca de idiotas como Pondé ou Olavo de Carvalho.

  2. Luís Gustavo
    03/05/2016 at 10:15

    Caro Paulo, olhe esse livro antigo da antropóloga Janes Jacobs, uma obra nada conhecida no Brasil: Systems of Survival.

  3. Samuel Silva
    02/05/2016 at 06:39

    Por que o senhor não marca um debate com o idiota do Olavo de Carvalho? Ele é o cabeça dos ideais fascistas que cada vez mais crescem no Brasil, o mais grave é que ultimamente ele tem expressado publicamente apoio ao Bolsonaro.
    Na minha opinião seria interessante se ele fosse desmascarado por um filósofo de esquerda, isso faria com que aquele ar de superioridade que ele tem acabasse. É preciso derrotá-lo e depois divulgar para todos o desmascaramento daque embusteiro fascista.

    • 02/05/2016 at 07:04

      Samuel, eu sou filósofo, não vou perder meu tempo para escutar bobagem de um cara que não conseguiu passar do terceiro ano primário, um cara que foi reprovado tantas vezes que acabou tendo de sair da escola. Depois, tentou fazer supletivo, mas também não conseguiu nada.

  4. Beto
    01/05/2016 at 19:01

    Ghiraldeli, acho que a tortura é considerada crime de guerra. Mesmo em guerras temos regras. Acho uma covardia e para mim o Congresso Nacional brasileiro mostra ao mundo um nível dos mais baixos que temos no mundo.

    • 02/05/2016 at 07:06

      Beto o Congresso é eleito por nós, meu caro. E sobre tortura, é até crime de guerra. Você está certo. Ainda que estivéssemos em uma guerra, como quer falar a direita, ainda assim seria crime.

  5. Leonard
    01/05/2016 at 11:48

    Muito bom o texto. Eu fui do exército brasileiro e digo de alto e bom tom. Bolsanaro não representa o ideia do verdadeiro soldado. E é por causa de gente como ele, e esse lixo que comandou o Exército no período da ditadura, que o Exército, a defesa do país, é descreditada por muitas pessoas hoje. Faz-se apagar a coragem e o verdadeiro valor e honra do soldado em qualquer sociedade. Como desconfiar de quem dá a vida para te defender? Bolsanaro não representa os verdadeiros soldados.

  6. William Robson Teodoro
    01/05/2016 at 10:17

    Se ser deputado é fácil porque Paulo Ghiraldelli não é?

    Para Bolsonaro se manter no cargo depende de eleitores e é preciso ter coragem para manter certas posições que vão contra a percepção da maioria.

    A esquerda nunca lutou pela Democracia.
    Pena de morte deveria ser considerada.
    Redução da maioridade penal tem que ser considerada.

    São coisa que só Bolsonaro fala sem medo.

    Gosto da Janaina, mas ela fez o que pelo menos 48% dos brasileiros queriam fazer.
    Não estamos em uma Cuba, mesmo que não desse certo não vejo ela sendo muito prejudicada.
    No mínimo ela ganhou holofotes e pode pensar em uma carreira política.

    Porque Paulo Ghiraldelli não usa sua fama para se candidatar e fazer alguma diferença?
    Se o “incompetente” Bolsonaro conseguiu deve ser fácil para o “grande” filosofo…

    • 01/05/2016 at 10:34

      William você gosta de torturador, de covarde, pode casar com ele e ficar de bundinha pra cima, esperando. Vai esperar muito, Bolsonaro é passivo meu caro.

    • 01/05/2016 at 10:35

      BASTA EU CONTRARIAR UM TONTO e ele aspa o meu título de filósofo e, então, me consagra mais ainda. Filósofo é para contrariar, caro tonto.

    • Orquideia
      01/05/2016 at 15:32

      Ele é o meu melhor amigo e ótima pessoa,mas deixarei de compartilhar seus textos com ele,para não ver mais ânimos exaltados por aqui.

      [que cena chata,coitados de vocês…]

    • LMC
      02/05/2016 at 11:42

      E querem eleição pra Presidente
      em 2016 pra quê?Pro gênio da
      raça Bolsonaro falar as merdas
      que ele fala na internet nos
      debates da TV.Só a Dilma que
      quer antecipar as eleições.Vão
      parir um monstro.

    • Bruno
      04/05/2016 at 12:31

      ta mal de amizade heim!

    • 04/05/2016 at 12:57

      Bruno, estou bem, pois não tenho amizade com você. Sua mãe chama, mas não faço zoofilia.

  7. Orquideia
    01/05/2016 at 08:37

    Prof.Ghiraldelli,compartilhei seu artigo em meu perfil para ser visto por alguns amigos meus que são fãs do Bolsonaro. [argh…]

    • 01/05/2016 at 08:43

      Diga para seus amigos que se eles gostam de enfiar coisas na vagina de mulheres amarradas que eles deveriam mudar ou deixar de ser amigos. Gente assim não a mínima ideia do que é amizade.

    • Orquideia
      01/05/2016 at 08:59

      São pessoas excelentes[que eu conheço há muito],mas tb são ingênuos, prof.

      Abs,bom domingo.

    • Orquideia
      01/05/2016 at 09:04

      É, depois vou tentar te adicionar como amigo,prof.,pois personalizei o público para a postagem.

    • 01/05/2016 at 09:23

      Orquídea, então mostre para elas o filme do Reginaldo Farias, mostre as fotos, lembre-as que Bolsonaro queria colocar bomba por aí.

  8. cristine
    01/05/2016 at 08:12

    Mais uma vez, fico engrandecida de conhecimento com seus textos, contudo, afirmar que se é ignorante é o primeiro passo para se conseguir um conhecimento e eu sou ignorante. Pena que a maioria não encherga isso, é mais fácil julgar do que compreender assim como é mais fácil admirar do que questionar. Obrigada por tudo Professor,

  9. Alexandre
    01/05/2016 at 02:43

    Essas pessoas que pensam como o Bolsonaro acreditam ou fingem acreditar que o Brasil é um país que privilegia determinadas minorias sociológicas em detrimento da dita maioria; é um tipo de pessoa incapaz de compreender o conceito de minoria.
    Bolsonaro, na visão desses eternos adolescentes idiotas, seria corajoso por “se rebelar” contra “o sistema”.
    Essa gente acredita que o status quo privilegia as minorias, o que obviamente seria um paradoxo. Não percebem que um indivíduo que pertence a uma minoria não pode se dar ao luxo de errar, não pode se dar ao luxo de ser burro.
    Um hétero que vive em uma cidade pequena, por exemplo, pode se dar ao luxo de viver livremente, sem medo e com poucas limitações sexuais (arrisco dizer que o incesto é a única limitação); um gay precisa ficar se policiando o tempo todo, qualquer deslize pode destruir sua reputação na cidade (e no limite causar a sua morte), quem já morou em uma cidade pequena sabe que cuidar da reputação é uma questão de sobrevivência. Em uma cidade grande e minimamente civilizada esse drama é mais leve, mas ainda assim pode causar bastante sofrimento.
    Eu vejo o Bolsonaro como uma espécie de Hitler com pouco poder. É uma espécie de Iago, possui a capacidade de influenciar as pessoas despertando o que estas possuem de pior.
    Pertencer a uma minoria não torna ninguém santo, um santo poderia até perdoar todas essas humilhações corriqueiras, uma pessoa comum acaba desenvolvendo o desejo de vingança, mesmo que não admita.

    • 01/05/2016 at 08:25

      Alexandre, o pertencente a uma minoria tem que se policia diariamente para não tomar Bolsonaro como espelho.

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Filósofo