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22/09/2017

Cota para os ricos e outros


Na redação escolar de um colega de escola primária havia a seguinte questão: “Por que existe pobres mamãe?” E também havia uma resposta: “para que os ricos também possam ir para o Céu, minha filha, pois podem dar esmolas e então se redimir”.

Éramos todos alunos da escola pública. Nela estavam os ricos e a classe média. Havia um só pobre, era mulato, mas não negro, e acho que estava ali porque seu pai era servente. Era o aluno “ajudado pela Caixa Escolar”. O resto de nós eram filhos de médicos, professores, delegados, juízes, pequenos e grandes proprietários, pequenos empresários, alguns poucos filhos de trabalhadores braçais brancos e alguns filhos de gente que havia empobrecido, mas que tinha lá de herança ao menos um nome conhecido. Percorrendo a foto nossa, de todo juntos, para vermos o que somos hoje, meio século depois, é possível notar que quase todos fizeram universidade e alguns se destacaram para além do sucesso profissional circunscrito. Uma boa parte ficou até mais rica do que já era.

Na época, achei um absurdo aquela redação, lida em sala de aula. Mas a professora nada falou. Mais tarde vim saber que aquilo pertencia a uma doutrina, que era ensinada desde os tempos pré-modernos nas Igrejas e nas Cortes. Creio que meu amigo, por tudo que estudou, deve também ter ficado sabendo do quanto ele compactuou com uma doutrina meio que hipócrita, digamos assim. Será que corou ao ficar sabendo? Não sei.

Esse meu colega, hoje meu amigo, é uma pessoa boa, honesta, excelente profissional e, garanto, com nenhum preconceito visível. Aliás, nunca foi um snobe. Todavia, se ele fosse criança hoje e viesse a ler uma redação desse tipo na escola pública, supondo não essa nossa escola básica atual, mas uma intelectualmente equivalente àquela nossa, como seria a reação dos professores e colegas?

Mesmo que não houvesse nenhuma mudança do perfil social e econômico do alunado, certamente a sensibilidade não seria a mesma. A ideia de que o pobre existe para salvar o rico, apesar de não contrariar logicamente o cristianismo, seria difícil de engolir. Somos mais laicos hoje, ainda que existam mais jovens em templos, usando uma linguagem mais religiosa. Então, associar classes sociais a funções predeterminadas e causais no plano divino não é uma boa narrativa. Além disso, aceitar que o pobre pode fazer algum bem ao rico é algo que pouquíssimos podem endossar hoje. Uns por considerarem os pobres um estorvo, um grupo social nascido da vagabundagem, outros por considerarem que os pobres são a fonte de onde ainda podemos tirar alguma reserva moral, e que tal reserva passa pela melhoria desse grupo social por meio da distribuição de renda, o que implica em tirar dos ricos por meio de impostos etc. Enfim, os pobres hoje são ou futuro ou desgraça sociais, mas não são alavancas de salvação individual, para a tal dificuldade do rico entrar no Céu, já que a Bíblia diz que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha.

Essa sensibilidade alterada em relação aos pobres também é algo visível em relação a outros setores sociais que são menos europeus que americanos: as ditas minorias. Negros eram negros, mulheres eram mulheres, crianças eram crianças e gays nem eram para serem vistos! Hoje esses nomes revelam antes grupos que indivíduos, e fornecem identidade de grupo. Criaram a duras penas uma sensibilidade nova para com eles, como o que ocorreu com os pobres. Os animais estão nesse caminho, com o cachorro à frente. Virão logo os robôs. Até cenouras e, quem sabe, árabes e baratas virarão gente daqui uns tempos no Ocidente – nunca se sabe se o islamofobismo irá crescer ou não. O problema não é a chegada desse dia, mas a maneira que vamos fazer essa travessia, na velocidade imposta a nós pelos meios de comunicação e pela nossa organização social.

Os sistemas de cotas servirão, não raro com justiça e propriedade, para integrar cada vez mais e mais pessoas num todo social homogêneo por um lado, mas, de outro, capaz de manter a diversidade identitária. Mas nem sempre as cotas serão para os pobres e minorias. Deveremos logo pensar em cotas para ricos e não ligados a nenhuma minoria sociológica.

Atualmente hoje tais coisas são feitas por ONGs. Mas não! Amanhã terão de serem feitas segundo incentivos estatais. Por exemplo, uma cota para que pessoas que nunca trabalharam manualmente experimentem uma tal coisa. Não por vingança, o que seria uma desgraça, mas no sentido educativo, de desenvolvimento de tal pessoa. Por exemplo, seria interessante ver o meu amigo Pondé, por exemplo, lavando privada junto com o Leonardo Boff na PUC-SP. Uma cota para rico de direita e esquerda conviverem por meio do trabalho manual. Eu mesmo receberia uma cota: teria de ouvir música! Uma cota para estudantes de humanas conviverem durante meses com gente que sabe matemática e que pensa logicamente. Poderíamos pensar em inúmeras cotas educativas nesse sentido. Cotas para indivíduos, embutidas em grandes programas sociais, mas não como pena, não como um pagamento de cesta básica ou como quem faz “trabalho social” por determinação judicial. Nada disso, seria uma política social mesmo. Algo como o serviço militar em Israel, que pega todo mundo e cria uma cidadania ampliada. Isso ampliaria assustadoramente nossa sensibilidade nova, e logo entenderíamos que os japoneses que vieram ver a Copa e depois limparam o estádio não fizeram aquilo por ser “um povo disciplinado”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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13 Responses “Cota para os ricos e outros”

  1. Rony
    13/03/2015 at 19:59

    Excepcional, finalmente consigo perceber claramente a finalidade do sistema de cotas – o convívio social.

    “Os sistemas de cotas servirão, não raro com justiça e propriedade, para integrar cada vez mais e mais pessoas num todo social homogêneo por um lado, mas, de outro, capaz de manter a diversidade identitária.”

    Professor, este mês começarei a pegar seus livros. Estou pretendendo começar pelos “A Aventura da Filosofia”.
    Assim que eu terminar minha pós graduação, começarei o curso de Filosofia (Licenciatura).
    Seus artigos e o Hora da Coruja foram preponderantes para eu tomar a decisão de cursar outra graduação.

  2. Cesar Marques - RJ
    10/03/2015 at 22:51

    “LOCKE É O PAI DO LIBERALISMO, essa doutrina que nos ajudou muito, mas que se tornou ideologia. Locke conseguiu acomodar escravismo e liberalismo na América, sabiam? Isso o Pondé, que é negro, não gosta de explicar.”

    Sei que foge um pouco do tema, mas algo me intrigou nesse aforismo: O senhor tem mesmo certeza de que o Pondé é negro???

    Ele não é negro nem fenotipicamente falando (pela clara, olhos claros e seus cabelos não são crespos), e muito menos, ele se afirma como negro (inclusive, nas poucas vezes que vi o Pondé comentando sobre as cotas étnicas, ele se colocou contra elas, dizendo que isso era coitadismo e que o ideal seria o governo brasileiro investir e recuperar a educação pública do país). Se o senhor puder me explicar porque acha que ele é negro, ficarei grato.

    • 10/03/2015 at 23:15

      Cesar Marques se você não quer que ele, com aqueles traços de branquinho, seja branco, tudo bem.

    • Cesar Marques - RJ
      10/03/2015 at 23:53

      Professor, acho que você leu apressadamente, então vou explicar: Peguei um aforismo SEU, onde o senhor AFIRMA que o Pondé é NEGRO. Eu não acho ele nada, apenas queria entender sob qual critério o senhor o enquadrada como negro, pois para mim, nem esteticamente e nem culturalmente, ele é negro.

      Abraços.

      P.S.: Não curti a entrevista com a professora Elaine Robert. O senhor e a Fran tentaram tirar leite de pedra, mas ele parecia com aquele ar blasé estar com uma má vontade da porra. Só curti aquela sacada dela, quando ela refletiu sobre “o que é fazer sexo?”.

    • 11/03/2015 at 01:47

      Cesar já disse se você acha que o Pondé tem traços brancos, não tem problema; as cores do Arco Íris vai da sua paixão pelo pote de ouro no final. Pode amá-lo. (Meu Deus, eu atirei pedra na Cruz, com certeza, em outra encarnação!).

  3. João Pedro
    10/03/2015 at 13:50

    Isso foge um pouco do texto mas eu queria mostra pro senhor:
    https://www.facebook.com/vamossobrepolitica/photos/a.644850655601290.1073741829.601549369931419/777518449001176/?type=1

    Parece que a direita analfabeta se espalhou pela universidade, antes dominada só pelos militontos de esquerda!

    • 10/03/2015 at 17:42

      João Pedro, que nada, esses grupos se alternam na burrice.

  4. Roberto William
    10/03/2015 at 01:27

    Eu li bem? “Eu mesmo receberia uma cota: teria de ouvir música!” Você se considera uma pessoa que pouco ou nada aprecia de música?

    • 10/03/2015 at 08:17

      Minha paciência para a música, como a de Rorty, só não é zero porque a Fran insiste, e acho que Mary Rorty insistia com ele.

    • Wagner
      10/03/2015 at 17:45

      Por que isso Paulo? A musicalidade de poemas também o incomoda?

    • 10/03/2015 at 17:48

      Wagner por que ler as coisas sem lê-las? O brasileiro está com problemas no PISA exatamente por isso: não lê, “interpreta”. É um tipo de analfabetismo.

    • Wagner
      10/03/2015 at 19:04

      Sim, justamente. A sua resposta ao meu post comprova!

    • 10/03/2015 at 19:08

      Wagner está cada vez mais difícil conversar com gente que não sabe ler, é seu caso, reparou? Não viu que enfiou palavras na minha boca e por isso não consegue obter nada e agora se perdeu de vez?

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