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30/05/2017

Qual parte do nosso corpo que não tocamos?


Até onde conseguimos tocar?

A maior mentira que contamos para nós mesmos na modernidade tardia é a de que não há lugares inacessíveis. Como assim?

Viagens a outros planetas não causam nenhum espanto. Viagens às profundezas marítimas, menos ainda. O mundo macro ainda têm muitos mistérios, mas a ideia de Max Weber para caracterizar a modernidade mantém-se válida: vivemos na época em que nada é encantado, nada é mágico. Vivemos o “desencantamento do mundo”. O que não sabemos não nos espanta, pois acreditamos que um dia saberemos. A sensação de progresso da ciência está correndo em nosso sangue.

Caso nos voltemos para nós mesmos, algo parecido ocorre. Dissecamos cadáveres, cuidamos de hemorroidas, vasculhamos terrenos ginecológicos e vamos mais longe ainda, nas intervenções da engenharia genética. Cada vez mais temos a sensação que poderemos, então, dispensar a folk psychology em favor de descrições puramente de estados cerebrais. Nada é indevassável. Tudo é tocado é claro.

O mundo pode receber próteses e nosso corpo também. Até nosso pensamento pode ganhar próteses – eis os computadores e a Internet que não nos deixa mentir sobre isso. São simplesmente grandes próteses para nossas sinapses e, no limite, são apêndices como é o silicone de seios tipo Cinderela (com duração de uma noite). O monstruoso nos domina, ou seja, somos o artificial misturado ao natural, diz Sloterdijk. Tudo parece tocável, profanável, observável. Tudo parece bem acessível. Transformável. E essa é nossa mentira.

Um dos setores nossos mais importantes, é de difícil acesso. Talvez de acesso impossível – para muitos. Trata-se do pensamento moral sobre nós mesmos. Achamos que temos acesso imediato a ele. Pode até ser! Ou, para alguns filósofos: é o que temos de imediato. Todavia, essa sensação de imediatidade, de acesso pleno, é a nossa armadilha. Mais difícil do que tocar o ânus em público, o nosso ou o de outro – como alguns do senso comum pensam – é tocar no nosso pensamento e atingir nossos próprios preconceitos. Sabemos que os tocamos se temos como movê-los, ou seja, sabemos que eles foram atingidos quando se não podemos removê-los ao menos os deslocarmos. Para muitos de nós, isso é impossível. Para uma boa parte de nós, isso é impossível em relação a muito mais crenças do que se pode confessar.

Vamos ao espelho e tentamos uma redescrição nossa sobre nós. No grau máximo de nossa observação acurada e no grau máximo de nossa honestidade, ainda assim, se dermos uma segunda olhada, vemos bem que não pudemos tocar em alguns preconceitos. Não há como. Sabemos deles. Não estamos falando de nada do campo psicanalítico, de questões do inconsciente. Não! O pensamento sobre nós mesmos não nos acessa, e isso não no sentido da célebre questão da inexistência da ‘linguagem privada’ (Wittgenstein), mas na questão mais simples: a moral. Nossa descrição ou redescrição honesta de nós mesmos para nós mesmos é tão ou mais vergonhosa do que nosso toque corporal, na frente de outros, de nossas partes pudendas.

Muitos dizem que a coisa mais horrorosa que poderiam ver é alguém, no teatro, colocando a mão no ânus do outro, enfiando o dedo no ânus do outro. O ânus seria intocável. Essas pessoas são como a evangélica que, instruída pelo pastor, não toca a vulva no banho. O corpo, tão próximo, é o inacessível. Mas o inacessível não é isso. O inacessível, principalmente para tais pessoas, de certo modo todos nós, é o retrato moral que possa nos contar como somos. O inacessível são os preconceitos que, para tocá-los, precisamos move-los, e claro que não fazemos isso de modo algum. Tocar o ânus do outro em público é bem mais fácil que voltar-se para si mesmo e dizer: não tenho nenhum pré-conceito em relação ao ânus do outro, é apenas uma parte do corpo, posso vê-lo como parte do corpo e tocá-lo. Esse é o problema: a capa moral protege o preconceito de modo que ele se torna inacessível. Isto é o inacessível. A mentira nossa para nós mesmos na modernidade tardia é que tudo é acessível. Ora, os nossos preconceitos são raramente acessíveis.

Tão perto, tão longe. Não é verdade?

Somos os nazistas que, se olhando no espelho, jamais se viam como torturadores. Afinal, eles não tinham o conceito do que é um homem torturador se ele é um alemão. Havia só o pré-conceito. Ora, pré-conceitos viram preconceitos. E este, o preconceito, era intocável, irremovível. Foi essa constatação que chocou o mundo no Tribunal de Nuremberg. Nesse Tribunal o que vimos não eram alemães nazistas, mas nós mesmos.

Quando nos chamam de pessoas más após matarmos um animal, temos o conceito de que matar pode e, então, se por um breve momento duvidamos disso, nos apegamos a esse conceito de modo a não expandir a noção do que é assassinato. Nessa hora, já estamos no preconceito, e não vamos alterá-lo. Nós mesmos nos tornamos então inacessíveis ao nosso pensamento moral sobre nós.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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2 Responses “Qual parte do nosso corpo que não tocamos?”

  1. roberto quintas
    26/11/2015 at 12:33

    a parte do corpo que não é tocada é essa onde se aloja o “eu”…

  2. Maximiliano Paim
    25/11/2015 at 07:16

    Assim como muitas pessoas concordam que existe o racismo no Brasil, mas não assumem o seu próprio se realmente são racistas, ou mesmo não se dão conta pela situação social, segundo uma matéria da TV local aqui. Talvez este seja o ponto onde há a maior sofisticação da ideologia da humildade: ainda que ela seja anunciada, o homem blinda a sua moral pois ela o autoriza em sua natural supremacia na vida.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo