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19/08/2018

A conversação e a sociedade democrática americana


[Artigo preferencialmente indicado para o público acadêmico]

A doutrina liberal tem um sucesso enorme nos Estados Unidos. Sabemos bem disso. Mas nem sempre nos lembramos de algumas peculiaridades dos americanos na adoção do termo “liberal”, e do como o ideário de John Locke acabou nas mãos de filósofos como John Dewey, John Rawls e Richard Rorty, avessos a um liberalismo individualista que, enfim, se tornou estranhamente um inimigo do comunitarismo.

O sentido da palavra “liberal”, nos Estados Unidos, é bem especial e peculiar. Não raro, se associa ao que chamamos aqui no Brasil, por influência europeia, de tendência à esquerda. Nós temos o hábito de ver o liberal como um conservador, enquanto que isso não é o caso dos americanos. De fato, o liberal americano busca viver o direito à liberdade individual clássica – direito à livre expressão e, também, direito à propriedade –, mas está sempre atento às leis de proteção ou promoção de de minorias e, na maior parte das ações, busca preservar um sentido de comunidade capaz de não deixar o ideal de igualdade se degenerar.

A esquerda americana não-marxista, talvez o grosso dos que votaram em Clinton e Obama por motivos doutrinários mais amplos, podem ser vistos como os que adotam conscientemente, para si mesmos, o qualificativo “liberal”. É gente que pode até conviver com Bernie Sanders, mas prefere, realmente, o liberalismo que lembra o ideário de John Dewey, que se explicita mais no ideário do casal Obama.

É nesse contexto que os dramas comunicacionais modernos apresentam suas vísceras descobertas. O palco estadunidense é um grande laboratório para tal assunto. Liberdade de expressão é um direito individual, mas também é o direito à privacidade – e não é à toa que vivemos, hoje, mais uma polêmica sobre o assunto, agora com proporções jamais vistas, que se exemplifica na ida do proprietário do Facebook ao parlamento americano para se explicitar sobre vazamento de dados pessoais de usuários de sua rede social.

Os americanos precisam de estar sempre se comunicando livremente, pois não acreditam em outro modo de manter a conciliação entre igualdade e liberdade, que é algo que colocaram como um ideal para toda a nação, especialmente a partir de quando se desvincularam da mãe inglesa, optando por uma forma de bastardia. Mas de nada serve gostar da conversação livre se esta, de fato, não tiver um conteúdo racional, com fins e meios bem delimitados, que não seja um blá-blá-blá. Os americanos sempre acharam o blá-blá-blá algo europeu demais, um tanto aristocrático.

Os americanos não se tornaram um povo conversacional par excellence e os reis do marketing em tudo por gostarem de blá-blá-blá. Ao contrário, foi por não gostarem da conversação vazia e enganadora que se fizeram os reis da propaganda. O marketing americano pode ter a fama de “mero marketing” como em qualquer outro lugar, mas, na prática, ele está longe de ser algo que, aqui no Brasil, serviria como a bruxa preferida do PROCOM. A propaganda americana é cheia de psicologia social na sua base, mas isso não quer dizer que ela visa enganar. É justamente o oposto, ela visa satisfazer. A demanda induzida e a obsolecência programada existem, claro. Depois do fordismo, isso se tornou uma regra, e toda a comunicação comercial, que impregna a conversação americana de um modo geral, se faz levando em conta tais elementos. Mas ela, a conversação americana, é feita a partir de um princípio que Tocqueville notou muito bem: a “doutrina do interesse bem compreendido”. Esse modo de atuação comunicacional também se explicita no diálogo entre grupos e governo, e na política em geral americana.  Do que se trata?

Em A democracia na América, de 1835, Tocqueville notou a “doutrina do interesse bem compreendido” como uma forma de defesa do útil ao modo de Montaigne. Eu diria: de certo modo, nasceu nos Estados Unidos uma versão do utilitarismo diferente do hedonismo calculista do utilitarismo inglês. Em outras palavras: os americanos não colocaram, contra Kant e a doutrina do dever e da moral desinteressada, uma doutrina do utilitarismo, como a de Mill, que qualifica uma ação como moralmente correta à medida que causa o bem para o maior número. A “doutrina do interesse bem compreendido” é diferente disso tudo. No meu modo de entender ela pode ser tomada como uma pré-versão do que, depois, acabou se refinando na filosofia do pragmatismo americano.

Essa minha tese pode ser explicada a partir da citação de Tocqueville:  “Faz muito tempo que Montaigne disse: ‘se, por sua retidão, eu não conseguisse o caminho reto, segui-lo-ia por ter descoberto, por experiência, que no final das contas é comument o mais feliz e o mais útil’”.[1]

Os americanos, diz Tocqueville, “não negam pois que cada homem possa seguir seu interesse, mas desdobram-se para provar que o interesse de cada um é ser honesto”. Os americanos, continua ele, “gostam de explicar, com a ajuda do interesse bem compreendido, quase todos os atos de sua vida”. Nunca falam que estão altruisticamente ajudando outros. “Preferem honrar a sua filosofia a honrar a si mesmos”. Sempre querem mostrar que foi por interesse pessoal que fizeram o bem para a coletividade ou para outro, e que essa utilidade é muito mais louvável que a louvável bondade altruísta ou o dever desinteressado dos moralistas europeus. [2]

Assim, a “doutrina do interesse bem compreendido”, como Tocquevile a vê na América e como ele a toma enquanto princípio filosófico dos estadunidenses, é diferente do sentido geral requisitado por meio do liberalismo dos séculos XVII e XVIII (na Europa, claro). Não se trata da realização do bem por meio do destino, como nas fábula de Mandeville, nem é a mão invisível de Adam Smith, fazendo o correto através do aparente caos do mercado. Nada disso. Há bem menos teologia hegeliana da “astúcia da razão” no modo de Tocqueville pensar. Trata-se, sim, de invocar que o útil é bom se alguém atua para fazer o bem. A entrada do homem no cenário, com o seu interesse e sua decisão, é fundamental para o andamento da história. O homem sabe que irá levar vantagem ao agir corretamente. Dois séculos depois, ouvimos isso ressoar oficialmente no pragmatismo de Richard Rorty, quando ele diz que se os negros se identificam como “afro” e não como “afro-americanos” só tem a perder, não ganhar, pois perdem as bases legais da democracia que lhes são uteis.[3]

Ora, essa sugestão é a mesma que aparece no filme American History X (Tony Kaye, escrito por David McKenna, estrelando Eduard Norton. Estados Unidos, 1998), quando o professor negro visita o jovem neonazista na prisão. O professor pergunta ao jovem: o que você ganhou endossando essa ideologia? Ou seja, mostra ao jovem que ele não havia tido nenhuma vantagem com a adoção daquela ideologia, que nada de útil lhe ocorreu, que ele havia sido preso, que sua mãe estava em dificuldades, que seu irmão agora estava na mira de gangs de negros etc. O professor negro não fala ao jovem apelando a princípios, mas põe na jogada, sim, motivos pragmáticos; e isso no sentido do pragmatismo filosófico de Rorty, ou no sentido da “doutrina do interessem bem compreendido” de Tocqueville. Trata-se de lembrar ao jovem: a América é terra de oportunidades, mas não para quem não sabe utilizar do que lhe é útil.

Claro que, o sentido pragmatista de fazer o bem porque o bem é útil depende de um entendimento específico do bem e, no caso, não se aproxima da doutrina socrática de que é melhor sofrer injustiça que praticá-la. Não! O sentido pragmatista é outro: trata-se de seguir a democracia porque ela facilita os Direitos Humanos, e isso é um bem, e fazemos o útil seguindo as leis democráticas se estamos num país democrata e livre. Isso é necessário deixar bem claro, antes que alguém queira transformar o pragmatismo, uma doutrina historicista, em um código universal de procedimento.

É difícil não ver hoje essa doutrina sendo utilizada em ambos os campos, tanto no plano da filosofia pragmatista quanto no plano da moral comum dos americanos. Aliás, historicamente, entre Tocqueville e Rorty, temos de lembrar de um dos fundadores do pragmatismo, William James, que transformou a “doutrina do interesse bem compreendido” em uma espécie de teoria da verdade.

Diferentemente do correspondentismo e do coerentismo, James elaborou não propriamente uma teoria da verdade, mas uma espécie de procedimento para a verdade. Se quero saber se um enunciado é verdadeiro ou falso, o que faço é perguntar para as pessoas o que acham, devo testar a razoabilidade delas e, então, tomando como mais útil acreditar na maioria, posso colocar as fichas de verdadeiro no enunciado que for tido como verdadeiro por tal maioria. À primeira vista isso poder parecer banal, mas, no fundo, é isso que fazemos quando fazemos ciência: ficamos temporariamente com as teses mais úteis, ou seja, aquelas que nos parecem terem o aval da maioria (dos envolvidos; ou dos experts envolvidos); seria inútil desprezar todos e ficar com as teses menos votadas, menos úteis, digamos assim. [4]

Os americanos não reduzem o belo, o verdadeiro e o bom ao útil. Eles apenas dizem, pelo pragmatismo ou pela “doutrina do interesse bem compreendido”, que possuem grandes chances de, fazendo o útil, deslizarem para o encontro com o belo, para a descoberta do verdadeiro e para a confecção do bom. Se fazemos essa diferença, então podemos voltar à ideia da comunicação e da propaganda americana. Quando esta não aposta no útil, ela irá fugir do verdadeiro, do belo e do bom; e se toda a nação só prospera com essa tríade, não alcançá-la é criar na propaganda, na comunicaçao e no marketing um elemento livre e, no entanto, contraproducente. Essa regra permeia a América liberal.

*  *  *

Tocqueville morreu em 1859, ano do nascimento de John Dewey que, por sua vez, só faleceu em 1952. O pensador francês percebeu como ninguém como que as instituições e o pensamento americano evoluiriam. Também acertou que o grande legado para o mundo, posto pela América, seria a democracia. Não à toa John Dewey ficou conhecido, para fora do campo propriamente técnico da filosofia, não só como “o filósofo da América”, mas também como o “filósofo da democracia”. Foi visto como a consciência dos tempos modernos diante da educação. Dewey inaugurou métodos pedagógicos novos, traçou incríveis estudos em filosofia da educação. Para ele, toda a democracia dependia da educação. Não poderia haver “doutrina do interesse bem compreendido”, na sua semelhança com a atuação do pragmatismo, se não houvesse uma expansão da educação pública em termos mundiais.  Os ecos de seus estudos, nesse campo, chegaram ao Brasil por meio de Anísio Teixeira e se fizeram presentes num discípulo de Anísio, Paulo Freire.

De fato, se a América pode ver a filosofia como um “dar e pedir razões” (Robert Brandom), é justamente porque trata-se de um lugar que coloca 98% de seus jovens no ensino médio e mais de 50% da sua população no ensino superior. Nenhum país com o tamanho geográfico e populacional, e sob democracia, conseguiu tal feito.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo, 15/04/2018 Vila Jaguaré.

[1] Tocqueville, A. A democracia na América – volume II. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p. 148.

[2] Idem, ibidem, cap. VII.

[3] Ver: Ghiraldelli Jr., P. Richard Rorty – a filosofia do Novo Mundo em busca de mundos novos. Petrópolis: Vozes, 1999.

[4] Sobre esse assunto o leitor pode consultar várias publicações. Teorias de Verdade <https://www.academia.edu/36059776/Teorias_sobre_a_Verdade>. E ainda: Ghiraldelli Jr., P. A aventura da filosofia. Barueri: Editora Manole, vol. II. Ver também: Ghiraldelli Jr., P. Dez lições sobre Sloterdijk. Petrópolis: Vozes, 2018. De modo mais específico: Ghiraldelli Jr., P. Introdução à filosofia de Donald Davidson. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010.

Gravura: Washington Crossing the Delaware -(1851) by  Emanuel Gottlieb Leutze. New York Metropolitan Museum of Art – USA

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3 Responses “A conversação e a sociedade democrática americana”

  1. Eduardo Rocha
    16/04/2018 at 21:07

    Muito bom. Sempre quis saber mais sobre Tocqueville. Paulo o que Badiou quis dizer com a “paixão pelo real”?

    • 16/04/2018 at 21:25

      Fiz texto sobre o livro dele, dê uma procurada

  2. Matheus
    16/04/2018 at 09:20

    Sonhando com o dia que perderemos o anti-americanismo no Brasil para podermos nos espelhar em tudo aquilo que o faz ser uma nação “bem sucedida”, especialmente esse último parágrafo!

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