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23/03/2017

Contra Freud: o nascimento da justiça por Peter Sloterdijk


Como nasce a noção de justiça?

Antes havia o chefe do clã, seus filhos e suas mulheres. Ele era o grande pai, só dele eram as terras, o melhor da comida e as mulheres, inclusive as que ele próprio havia gerado. Sem terra, sem a melhor parte da comida e sem mulheres, os filhos planejaram a morte do pai e assim realizaram. Após isso, veio a culpa, expiada em torno da construção do totem que, em seguida, logo representou mais que isso: que ninguém mais tenha a posse das mulheres só para si, que se proíba o incesto. Veio a proibição ou o tabu do incesto. Fez-se a lei acima de indivíduos. Criou-se uma regra moral coletiva, uma possibilidade de civilização.

Essa narrativa de Freud para o nascimento da civilização, a parir da criação do tabu do incesto, tem seu complemento no indivíduo por meio do complexo de Édipo. A disputa do filho pela posse da mãe no confronto com o pai o faz se revoltar contra este, que o amedronta com a possibilidade castração. Em determinado momento esse filho realiza, em termos individuais, o passo que o coletivo deu em torno da ida à lei moral, o tabu do incesto: o amor da mãe é de fato impossível, proibido, o que se deve fazer então é buscar outra mulher. A regra moral coletiva é, então, obedecida, tomada como “lógica”, a força do pai agora introjetada psiquicamente se faz presente. Gera-se aí algo como um eu inconsciente acima do eu, um super eu. Algo como “A lei moral em mim”, sem minha plena consciência de desejos edípicos.

Uma civilização põe assim seus termos iniciais para ser civilização, ou seja, gera um ethos, a possibilidade de uma ética, uma regra de conduta coletiva, e assim tem conjuntamente o seu indivíduo típico de posse de uma moral, ou seja, o civilizado é uma personalidade adaptada e capaz de viver sob regras, uma vez que sabe, por si, como o imperativo moral está em seu peito. Recolhe-se as garras do desejo, ganha-se em civilidade. Tudo tem seu preço. Os primórdios a justiça estão aí estabelecidos.

Nessa história não cabe a solidariedade – o elemento pelo qual dizemos, aqui e ali, que  nos faz estar juntos socialmente – senão como um algo exterior, ou como um subproduto da repressão inicial. Não à toa Freud falou, portanto, em “mal estar” da civilização. Isso não serve para a narrativa de Peter Sloterdijk. A ideia do filósofo alemão contemporâneo está centrada no fio que vai do biomecenato ao mecenato enquanto generosidade. A mãe funciona como biomecenas e depois é substituída por mecenatos semelhantes, até uma situação, vivida agora e quiçá ampliada, de um mecenato universalizado. Tudo se inicia na relação feto-útero, depois feto-mãe, depois filhos-e-mãe. Num passo posterior, então, as instituições que cuidam de filhos, e que se fazem como as mães, se erguem como necessidade social reconhecida por todos. O mimo é o elemento central dessa ressonância da díade inicial que dever perdurar, que eleva o homem da situação de mimo à de mais mimo. O espaço humano tem de ser um espaço de mimo e de imunidade, um novo útero ou um novo lugar de cuidados maternos. A justiça é isso. Essa estabilidade da ressonância contínua em situação de imunização. A injustiça é quando a mãe, em determinado momento histórico, ou melhor, pré-histórico, começa a ser sobrecarregada em vários sentidos, pela proletarização neolítica, inclusive, então, pelas melhores condições que levam à potencialização da procriação, e que a faz não conseguir mais oferecer o mesmo mimo necessário a todos. Os filhos considerados invasores, os “idade do meio”, que estiveram à beira do aborto, são os que irão sempre achar que há alguma injustiça no mundo. São também os criadores ou motivadores de utopias, os lugares ideias que se formarão como grandes úteros e braços maternos, e onde o biomecenato cederá para a arquitetura a função de cobertura dos mecenas. Nesse lugar, o que se chama espaço de imunização voltará a reinar. Nesse ambiente imunizado, como uma nave espacial ou formas de invernada, todos estarão em igual medida confortáveis ou reconfortados. Não são assim as utopias?

Por essa narrativa, nenhuma morte do pai ou questões incestuais ou edípicas são as de ligação com justiça e injustiça. O desejo de justiça aparece como uma função própria de uma situação de carência que, por destino e indicação, tinha de não ter ocorrido, as mães não deveriam ter entrado em colapso.  “O colapso das mães neolíticas” (Esferas III) não deveria ter ocorrido, mas a estrutura da ‘revolução neolítica’, a forma agrária de vida, impôs certa riqueza-e-carência, e certa sede pelo ajustamento, pela justiça. Assim se fez a ideia de justiça para além de vingança, como em sentido moderno, e contendo internamente os elementos antes da solidariedade que da opressão.

A narrativa de Slotedijk não é mais rósea que a de Freud, é apenas menos composta de buracos. Organiza melhor o que sabemos de nós mesmos. Evita o “realismo” que, não raro, precisa nos fazer todos criminosos para nos fazer humanos merecedores de descrição em teorias. Aliás, o realismo acha que é uma teoria porque que é realismo!  Ora, trazendo a justiça para a questão da suficiência do mimo, Sloterdijk não deixa de incorporar também a noção de thymos, o lugar psicológico antigo no qual repousa a fúria pela auto-estima. Sabemos o quanto a injustiça diz respeito à imagem do orgulho ferido, do desprezo.

Sloterdijk não deixa de lembrar que a narrativa de Freud, se por um lado pode se basear em certos conhecimentos antropológicos válidos, acaba por jogar fora uma das narrativas antigas mais significativas sobre o nascimento da civilização, a de Caim e Abel. É o segundo episódio do Genesis. Nele não há pai a ser morto, claro. Menos ainda posse de mãe. Nesse episódio o grande crime não é o da inveja, como em geral se fala, mas o do sentimento de se ter de combater contra a injustiça, o buraco que se abre entre irmãos pelo mimo do mais poderoso. E poderoso, nesse caso, pode ser uma figura paterna, a de Deus, mas antropologicamente, sabemos, ninguém é mais poderoso perante a criança do neolítico que a mãe (1) – como até hoje sabemos bem. Nenhum juiz humano quebra laços entre mãe e filho, como se soubesse bem, sempre, onde nasce a injustiça.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 31/07/2016

(1) de como passamos de deuses maternos para a figura paterna e, portanto, saímos da verdade imanente (dado pelo local chamado útero) para o transcendente (caso do pai), para o metafísico tradicional, judaico-cristão, há também uma outra história.

Gravura: Cornelia (1785) pela pintora austríaca/suíça Maria Anna Angelica Catharina Kauffmann.

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4 Responses “Contra Freud: o nascimento da justiça por Peter Sloterdijk”

  1. Alexandre
    17/08/2016 at 11:05

    Estou pensando em utilizar o tema do livro A Luta pelo Direito, de Rudolf von Ihering, como tema da minha monografia; um livro que fala sobre a importância da luta pela justiça, não sei se você conhece, mas é um livro que me remete ao Kant.
    Gostaria de saber se você escreveu algum livro que se relacione com esse tema, por exemplo, algum livro que fale sobre a cidade ideal de Platão, ou sobre o thymós, ou ainda, sobre como o senso de justiça de um povo afeta a nação. Enfim, algum livro que fale sobre como é importante para uma nação, que o seu povo lute pelos seus direitos.
    Gostaria muito de utilizar algum livro seu como referência. Se possível, gostaria que você me indicasse algum livro de algum outro filósofo que trate sobre o tema.

    • 17/08/2016 at 11:31

      Tá para sair algo sobre Sloterdijk meu, pela Via Verita e outro pela Vozes. Sobre Platão, há coisas que fiz sim. Veja o meu livro Sócrates: pensador e educador (Cortez)

    • Alexandre
      06/10/2016 at 21:18

      Acabei comprando o livro sobre o Sócrates e A Filosofia Como Crítica da Cultura. Os aforismos são interessantes, alguns são bem engraçados.

  2. Rodrigo Guedes
    09/08/2016 at 22:57

    o primeiro parágrafo do texto fez me vir a cabeça o conto do Murilo Rubião “A casa do girassol vermelho”.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo