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24/06/2017

Contra Byung-Chul Han. Notas sobre o conceito de imunização


Não creio que seja um bom caminho criticar um assunto tomando-o por alguns autores em detrimento daquele que é o principal. O conceito de imunização, no âmbito da filosofia social, tem em Peter Sloterdijk o seu grande utilizador. O filósofo coreano Byung-Chul Han diz que esse conceito não vale mais para descrever os nossos tempos, mas na argumentação dessa tese, estranhamente, prefere atingir Roberto Espósito e Baudrillard, fazendo referências em nota de rodapé a Heidegger e Sartre. Estaria ele preservando Sloterdijk por achar que o conceito de imunização, neste filósofo, é diferente e não contém os problemas que ele apresenta? É difícil acreditar nisso. Tudo indica que ele resolveu pegar Sloterdijk pelas laterais. Péssimo negócio.

Quando mais jovem, Sloterdijk foi fustigado injustamente pelos mais velhos, com Habermas à frente. Agora, aos setenta anos, Sloterdijk vai ter de aguentar nova injustiça dos afoitos que estão chegando?

No seu interessante ensaio de 2010, com o título Müdigkeitsgesellschaft, publicado no Brasil como A sociedade do cansaço (Vozes, 2015), Byung-Chul Han defende a tese de que não vivemos mais uma “época viral”, mas uma fase de doenças neuronais. Para ele, estamos na época dos “infartos de positividade” causadas por estresse, o que resulta na proliferação de coisas como a Síndrome de Hiperatividade (Tdah), o Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) e a Síndrome de Burnout (SB). São esses males que “determinam a paisagem patológica do começo do século XXI”, contra os quais não cabe imunização. Assim, a sociedade da imunização, na qual as metáforas eram guerreiras, ou seja, a de defesa do organismo diante de inimigos externos e estrangeiros, ficou para trás, lá no século XX. As ciências humanas em geral não poderiam mais se utilizar desse vocabulário da biologia emprestado pelo vocabulário militar. Estaríamos vivendo uma época de cansaço por excesso de desempenho, e seríamos vítimas não mais da negatividade, mas da alta positividade. Até seria interessante, ´pensa ele, reintroduzir alguma negatividade em nossa sociedade. Teríamos de reconstruir o repouso, não como passividade, mas como capacidade de sair do esquema emburrecido de vida ativa nos moldes da vida computadorizada, para uma retomada da capacidade de contemplação, a exigência da verdadeira filosofia. Esta é a mensagem geral do seu livro.

Sloterdijk não falaria em passividade ou contemplação, mas certamente defendeu a capacidade de reflexão sem necessárias decisões de ação em uma grande palestra publicada em 2010 com o título de Scheintod im Denken, livro que, em português de Portugal, saiu como Morte aparente no pensamento (Relógio D’Água, 2014). Fez isso louvando a “suspensão do juízo” da fenomenologia de Husserl. Todavia, se aí há um dos pontos em comum (um outro é a utilização da ira, o campo timótico) entre o coreano e o alemão, o que apanho aqui é a divergência. A questão é a da imunização, e pego o tema por duas vias.

A primeira via diz respeito ao contexto em que a imunização aparece em Sloterdijk, e que não é, ao menos conceitualmente, de modo algum algo completamente estranho a Baudrillard ou Espósito. Imunização em Sloterdijk não é uma simples metáfora biológica para situações de narrativas em ciências humanas e filosofia. Sloterdijk não trabalha dessa maneira. Arrisco dizer que ele concordaria em muito com a noção de Davidson e Rorty de que a metáfora não tem um sentido literal que a explique, ela é a instituição pura e simples de uma provocação linguística. Pois o filósofo alemão trabalha em um registro parecido ao de Bruno Latour com o seu “parlamento das coisas”. As antropotécnicas de Sloterdijk são isso: narrativas em que não faz sentido o estabelecimento de um campo cultural em separado de um campo biológico. Antropotécnicas são procedimentos de várias ordens que mostram que a divisão cultura versus biologia antes atrapalha que ajuda entendermos as coisas. Assim, imunização é imunização. Não se trata de metáfora. É um conceito no contexto das narrativas das antropotécnicas.

A segunda via que pego para discordar do filósofo coreano é a do próprio entendimento do conceito de imunização. Ele toma a imunização como um processo no qual a questão básica é a expulsão do estranho, que hoje não valeria mais, pois hoje em dia as fronteiras teriam acabado, o estranho não seria mais O Outro uma vez que a própria figura da alteridade teria desaparecido. A positividade da performance e o mundo “neoliberal” teriam trazido antes a diferença que estranheza causada pelo outro. Seria o fim da alteridade e, portanto, o fim da imunização que precisa do outro, exatamente para expulsá-lo, para negá-lo, para se livrar dele. Ora, há um erro aí: a imunização é de fato um regime de consideração do outro, mas, de modo algum, como o que deve ser expulso e eliminado. Na imunização são criados caminhos e fronteiras móveis para a incorporação do outro e, por um processo de simbiose qualificada, ocorre a absorção do outro no contexto da produção de elementos que energizam o interior e o fazem não ter o outro como inimigo. Não há propriamente a anulação totalitária do outro, mas uma ressonância entre elementos distintos que gera fortalecimento do sistema interno, do organismo. A linguagem militar do campo médico não deveria enganar o filósofo coreano. Notemos: a brincadeira da criança com o cachorro, no ambiente de “aquisição de anticorpos”; o processo de aquisição de resistência no contexto da vacinação. Trata-se de formação não de fronteiras com negação eliminatória, mas a absorção, convívio e aproveitamento de forças. A imunização é como a arte de certas lutas marciais em que não há o choque de força contra força, mas o aproveitamento da força do outro para fazer o que se quer fazer com o movimento. Essa explicação continua valendo para a sociedade atual, como não? Ao entendermos o conceito de imunidade, que aparece equivocado no texto do filósofo coreano, fica fácil perceber que tal conceito não se tornou obsoleto.

Cito um trecho do ensaio do filósofo coreano:

“Também o assim chamado “imigrante”, hoje em dia, já não é mais imunologicamente um outro; não é um estrangeiro, em sentido enfático, que representaria um perigo real ou alguém que nos causasse medo. Imigrantes são vistos mais como um peso do que como uma ameaça. Também o problema do vírus de computador já não tem mais tanto impacto social. (…) O paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização. A alteridade, que provocaria uma imunorreação atuaria contrapondo-se ao processo de suspensão de barreiras. O mundo organizado imunologicamente possui uma topologia específica. É marcado por barreiras, passagens e soleiras, por cercas, trincheiras e muros. Essas impedem o processo de troca e intercâmbio. A promiscuidade geral que hoje em dia toma conta de todos os âmbitos da vida, e a falta da alteridade imunologicamente ativa, condicionam-se mutuamente.” (capítulo I de A sociedade do cansaço).

Não creio que o que estamos vendo com Trump e com o problema dos imigrantes na Europa seja apenas uma questão de “peso”, no sentido que o filósofo coreano diz. Creio que há sim o componente de medo, em vários sentidos. As fronteiras não estão tão abertas quanto a tal globalização gostaria. Nem há tanto “promiscuidade”. Por outro lado, a imunização não forma barreiras intransponíveis, ela faz o contrário, ele cria barreiras que são perfeitamente seguras por conta de serem transponíveis. Um vírus volta sim a penetrar alguém após a vacina, e pode sim causar um mal, mas os sintomas desse mal se revelam não mais preocupantes, por que o próprio vírus foi incorporado para ajudar o corpo a conviver com ele. Isso é a imunização. Domesticação do vírus, aculturação do vírus, capacidade de interagir com o corpo estranho tornando-o parte do sistema. Ela não é a eliminação do outro ou a busca de alteridade para a sua eliminação. E, por outro lado, não é verdade que estejamos hoje no reino da diferença sem alteridade. A globalização é perfeitamente coadunável com uma narrativa que a explique por meio de imunização, se levarmos em conta o conceito correto de imunização.

Que hoje em dia temos uma má relação com o outro, isso é uma verdade, mas me parece ser algo novo, para além de problemas já vistos na modernidade. Não se trata de uma questão exclusivamente contemporânea, algo próprio do século XXI. Creio que a não consideração problemática do outro, é algo de toda a modernidade. Mas isso não se deve à imunização, e sim a um tipo de higienização exclusivamente moderna. Aqui ponho, então, minhas próprias cartas na mesa, sloterdijkianamente.

A imunização incorpora o outro na sua consideração. Assim é com a relação placenta-feto. A higienização moderna, ao contrário, tem a ver com a eliminação da placenta como apenas um pedaço de carne inútil. É daí que nasce uma simbologia, que podemos estar por meio da antropologia, literatura e história das religiões e da filosofia, em que surge o indivíduo, o que nasce já com nome único e é pensado não como dois, mas como solitário. Um solitário não pensa. É na troca de Descartes por Rousseau, em que o “penso logo existo” sai de cena para entrar “o não penso e então existo” lá do lago Biel, que podemos notar o movimento moderno. É aí que alteridade fica chamuscada. Mas não pelo processo de imunização que é sempre um processo maior, que se explicita nas antropotécnicas, e que inclui a noção de ressonância.

A alteridade fica chamuscada porque a modernidade tem um componente, sim, de escapar do outro sem incorporá-lo, eliminando-o. Mas faz parte do higienismo da modernidade que não anula qualquer narrativa que tentar nos descrever como quem trabalha com a imunização.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 21/02/2017

 

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8 Responses “Contra Byung-Chul Han. Notas sobre o conceito de imunização”

  1. Matheus Tudor
    23/02/2017 at 03:15

    Paulo, tive um excelente professor de imunologia e ele foi enfático em dizer que a forma usual de se ver imunologia como uma defesa do corpo era absolutamente errada. Isso em ciência, claro. Ele deu início a uma discussão muito informativa sobre a centralidade da função do Sistema Imune: manutenção da homeostase. O sistema imune É um enorme sistema com computação e memória, que evolui dentro do organismo de forma relativamente autônoma com indução de mutações somáticas para a geracao da diversidade das moléculas de anticorpo e processo de seleção gerada pelo próprio corpo com o uso e parricipacao do proprio antígeno por meio do epitopo e tal – nas chamadas repostas imunológicas secundárias – o que já vai ao encontro do que expôs em seu texto, assim como o fato de que é mantido um equilíbrio dinâmico da população invasora(uma resposta imune agressiva cronicamente é fortemente deletéria e perigosa, meu professor gostava de dizer que o sistema imune é uma bomba-relógio e por isso contava com inúmeros mecanismos de controle e regulação pra abaixar a bola e sempre atrasae o tempo do relogio). A reposta secundária é a grande responsável pela visão policialesca do sistema. Porém este é composto de inúmeros subsistemas articulados no quais se nota a sobreposiçao e derivaçao de um em relacao ao outro respeitando a filogênese, i. e., alguns subsistemas são mais basair(primitivos) e outros mais derivados(mais recentes) e isso deixa marcas em suas funções que podem ser rastreados por um olhar sutil para gerar uma boa interpretação. Os sistemas mais basais são fortemente relativos a limpeza e controle de danos gerais que alterem a homeostase e só posteriormente há uma associação muito genérica com eliminação de antígenos no que se entende com resposta primária. Em verdade, se você cai e bate a perna em numa quina de um móvel a reação INFLAMATÓRIA É uma típica reação imunológic com suas características de dor, enrijecimento, dilatação dos vasos e forte presença de macrófagos que vão limpar a área ingerindo muitas células mortas e seus matérias liberados no tecido(ondepodem ser tóxicos) a fim de reestabelecer a homeostase local. Não há nenhum antígeno. Nem anticorpo e linfócito. De fato, a resposta imunológica em que hálinfócitos e anticorpos surgiram mui posteriormente na filogênese e, se bem pensada, é muito especializada. Ainda assim segue a mesma lógica de manter o lar interno como deve estar, arrumado e confortável, funcional, e para tanto em homeostase. Por fim, ele de maneira perspicaz apontava para a forte regulação imunodepressora que o organismo fazia no trato digestivo, pois tanto a microbiota intestinal fundamental para a existência do organismo vivo em sua homeostase( e por isso alguns teóricos da biologia propõem reformular a conceituação de indivíduos para indivíduos simbiontes: definir indivíduo É muito difícil em biologia) assim como não ter refeição do alimento e suas inúmeras moléculas que precisam ser integradas ao corpo como parte dele. Sim, alimentos são antigênicos a priori, porém o sistema funciona de tal modo que operacionalmente não é. Alguns possuem problemas nisso e o sistema ataca NUTRIENTES!!! Daí inúmeras alergias alimentares.
    Enfim, estou comentando isso pois sei que apesar de não avançar na discussão filósofica amplia o repertório científico de base para reflexão.

    • Matheus Tudor
      23/02/2017 at 03:19

      Há uma absoluta falta de concordância de número no que escrevi e palavras alienígenas. Escrevi pelo celular e o corretor me fundeu. Por falar nisso, enrijecimento era pra ser entumecimento.

    • Matheus Tudor
      23/02/2017 at 03:29

      Refeiçao=rejeição
      Só mais um exemplo:muitos remédios não.possuem atuação imunodepressora e, ainda assim, não há uma atuação de rejeição imunológica apesar de serem antígeno. Normalmente se deve ao tamanho da molécula. Mas é um exemplo do fato de que nunca foi uma questao apenas de ser um corpo estranho dentro do corpo.
      Enfim… não sei se isso lhe foi útil.
      Espero que sim.

    • 23/02/2017 at 16:33

      Sim, foi sobre esse tipo de informação que tenho, da minha formação de ensino médio, que dei o troco no coreano. A palavra homeostase ajuda muito, ainda que ela não tenha sito absorvida por Sloterdijk, mas aí por razões outras, internas à conversa alemã sobre teoria de sistemas.

  2. João Neto
    22/02/2017 at 09:04

    Otimo texto. Continuas afiado, Paulo. Parabens.
    Cumprimentos e beba agua.
    Joao Batista

  3. Eduardo Rocha
    22/02/2017 at 03:06

    Nossos sistemas imunitários teriam comportas de evasão, transporte e integração. É um modelo do próprio homem. O começo de tudo uma microesfera (útero-placenta-feto). Teríamos relação da díade, mãe-filho, ressonância, vibrações, sons, sinestesia e depois o surgimento do esforço e reconstituições de mais esferas. Para posterior macroesferas, abordando a tentativa de recriar o conforto do útero materno (a esfera original). Não vejo como o paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização. Muito pelo contrário. As bolhas de sabão flutuantes no espaço podem sim se integrar. E formarem um campo único. Temos antropotécnicas, intimidade e subjetividade. O outro é eu quase que em uma experimentação-absorção-fusão. A imunização não pode ser uma barreira. Ela é porosa ou menos. Na verdade, o “corpo estranho” serve para estabilização das funções imunitárias do próprio sistema. Estamos todos conectados antes mesmo de nascermos. O processo de troca e intercâmbio começa – sangue, cordão umbilical, alimento, etc. A própria ideia de sistema permite a conectividade seja ela qual for, pois, ele tem especificidade e função.

  4. Gustavo
    21/02/2017 at 21:25

    Caro, Ghiraldelli. Nassar não recebeu dinheiro do Temer, nem do PMDB. Ele não recebeu prêmio de partido ou de um politico específico. Recebeu o valor dos Estados brasileiros e português que estão acima de qualquer sigla partidária. Ele poderia falar o que quisesse ou não falar nada, afinal filiação partidária hoje é pré-requisito só pra ser Ministro do STF. Se o Temer tirou dinheiro do salário dele de presidente pra premiação bem, senão seu post é inócuo. Não tinha nenhum centavo do Temer ali. Assim como muitos estavam de saco-cheio com a Dilma, ninguém é obrigado a aturar qualquer outro político.

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