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19/09/2019

Quem tem competência para ser filósofo?


A maior dificuldade que temos é manter a mente aberta no sentido de ler o que nos faz torcer o nariz e, então, parar para aprender. Não disse parar para pensar ou refletir. Disse parar para aprender. É mais que refletir. É aprender com o que nos contraria. Quando conseguimos dar esse passo, iniciamos o que se pode chamar “uma postura filosófica”.

Há algo aí que eu não gosto, não quero ouvir e discordo veementemente. Mas, por que discordo? Eu realmente sei do que se trata, ou vou discordar apenas para satisfazer a mim mesmo, para aparecer? Estou discordando para gritar comigo mesmo e, assim, voltar a ficar seguro em crenças sem muita razão? Minha atuação melhor é esta: há algo aí que me contraria e que me dá raiva e repulsa, mas, honestamente, tenho de ver se não há algo aí, também, que é o que não sei. Posso aprender com quem me contraria?

Só se dá um passo na direção de incorporar uma postura filosófica, de ser realmente amante/amigo do saber, ao querer aprender com toda e qualquer narrativa, com todo e qualquer acontecimento. Principalmente com o que nos afasta e nos dá repulsa, nos irrita e nos magoa. Quando conseguimos ser sinceros conosco e suficientemente inteligente para aprender com tais narrativas, estamos começando no caminho filosófico. Caso contrário, não mesmo. Magoadinhos de primeira mão têm enorme dificuldade com a filosofia.

Posso ler um escravocrata moderno e aprender com ele. Não estou dizendo aprender tudo, exceto elementos da escravatura. Não, estou dizendo aprender também elementos da escravatura. Sim, aprender não é endossar definitivamente, é entrar na perspectiva do outro para saboreá-la, endossá-la por um tempo, e tirar dali o que não foi possível de experimentar na própria vida. Quando consigo olhar pelos olhos do diabo aprendo sobre a maçã, fora disso, serei sempre um comedor de maçãs, um plantador de macieiras, mas nunca saberei o que é o pecado. Não sabendo o que é o pecado, saberei pouca coisa.

Aprender com o que é aceitável é fácil. Todo mundo faz isso. Há até o aluninho mimimi que diz “não gosto da matéria porque o professor não tem didática” ou a aluninha mimimi que reclama “não gosto da matéria porque o professor é machista”. Esse tipo de gente não é nem estudante. E no caminho da filosofia não vão pisar nunca. O filósofo está sempre desafiado. E o desafio maior é cumprir intelectualmente o que o bom samaritano, elogiado por Jesus, fez no âmbito moral: atender o inimigo.

Os tolos não sabem disso, por isso não dialogam com vozes discordantes. Ou se dialogam, o fazem para se contrapor sem aprender. Ao contrário deles, eu, que sou inteligente e filósofo, nunca deixo de escrever sobre quem em um primeiro momento discordo. Não me canso de escrever e escrever sobre narrativas discordantes, seja de quem for. Reparem bem, quando escrevo em relação a quem discordo, sempre informo sobre o que leio como quem já aprendeu do outro o que não sabia antes. Aliás, minha reação raramente é para “marcar posição” e, sim, para aprender. Não dou bola se há diálogo ou não. Eu mesmo faço o diálogo. Escrevo sobre o outro para testar minha capacidade de aprender o que ele falou. Às vezes aprendo e mudo minha opinião. Às vezes não mudo minha opinião, mas, ainda assim, para não mudar, tive de aprender.

Esse exercício de aprender positivamente com quem não aceitamos é o que caracteriza, em boa medida, a vida do filósofo. Claro, não basta isso para ser filósofo, mas sem isso, podem acreditar, não há filósofo no horizonte não.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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3 Responses “Quem tem competência para ser filósofo?”

  1. João Pedro
    15/08/2014 at 17:52

    Então professores universitários nunca possuem uma má didática. Se a maioria dos alunos não o entendem, a culpa é deles e não do professor?!

    • 15/08/2014 at 17:55

      João Pedro o fato de você ter pensado isso, de forma conclusiva, a partir do meu artigo é tão fantástico que acaba me convencendo que não é a filosofia que não pode ser ministrada sem antes preparação, mas que qualquer coisa que se vá ensinar, a mera alfabetização não adianta. Sugiro que você leia o texto de novo e tente, com algum esforço, entender.

  2. Felipe Franco
    12/08/2014 at 02:19

    Filosofar é pluridirecional-se. Parabéns pelo texto.

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