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18/11/2017

Como usar do trágico para a filosofia – sem estupidez


Há uma modinha entre conservadores: vou ser trágico! Em termos historicamente mais amplos, isso acontece não só entre conservadores, mas também na esquerda há momentos do tragicismo. Quando seus representantes nunca conseguem comandar o que você imagina que eles deveriam comandar, então o mundo fica com destino traçado, de desgraça, e então aparecem esses trágicos. Eles fazem o que chamo de “auto-ajuda negativa”. 

A auto-ajuda negativa é uma forma de dizer: não estou nem aí pelo fato de ser um perdedor, afinal, todos somos perdedores, o mundo sempre termina em tragédia. Mesmo uma vida de sorte é trágica, ao menos ao final. Essa auto-ajuda negativa faz com que esse tipo de intelectual, que se diz trágico, possa posar de intelectual, de crítico e até de inteligente. Admitir a desgraça do mundo é uma forma de inteligência, ao menos no mundo blasé dos perdedores.

Mas tudo isso é o que há de oco e de peça de tecido barato no mercado livreiro ou na imprensa em geral. Isso nada tem a ver com os autores clássicos trágicos. O filósofo que quer se aproveitar do pensamento trágico, não é nunca conservador, nunca é autoritário, jamais apresenta sua versão como a do Olho de Deus (Tomas Nagel). Ao contrário, a missão do pensamento trágico é inerentemente perspectivista. Há um perspectivismo irônico na tragédia.

Os grandes filósofos trágicos aprenderam o tragicismo a partir da  tragédia, a original tragédia grega. Não se tornaram trágicos por conta da origem, ou seja, a de grupos sociais perdedores, muito menos optaram pelo tragicismo por conta de frustrações sexuais pessoais e incapacidades amorosas. A tragédia grega tem uma estrutura, que se tornou clássica, e que dá o roteiro para toda e qualquer narrativa trágica que queira alguma coisa séria no mundo intelectual. Qual? Ela é sempre uma história com várias possibilidades, todavia, seja lá qual for, nenhuma delas consegue inverter o destino que, ao fim da narrativa, parece ser o que deveria ocorrer mesmo, a desgraça e, então, aquilo que “já estava traçado”. O personagem passa a desdobrar do enredo criando mil histórias, para escapar do trágico que, ao final, ficamos sabendo qual é, e que ocorre. Essa fórmula nada tem a ver com a apologia do destino fechado. Ao contrário: ela é a ideia grega de que são os deuses que detém o destino, não o homem, ao homem cabe a liberdade de fazer o enredo. Um dos melhores exemplos de ser brincar com essa ideia, colocando-a em um traçado pós-moderno, é o filme alemão Lola, corre Lola.

A tragédia não aparece como uma história cujo destino está traçado. A tragédia aparece com inúmeras histórias, num conjunto de perspectivas, que celebra a liberdade humana, mas que não vinga segundo a vontade humana, mas divina. Por conta dessa liberdade perspectivismo no narrativa, a tragédia pode ser uma menina dos olhos de Nietzsche, um autor tipicamente perspectivista.

Assim, na tragédia o homem não é impotente e predestinado de modo a ver valer somente uma versão, de modo a não conseguir fazer sua história. Ele é livre. Se o final lhe escapa, isso é uma forma típica do mundo helênico (que atingiu em cheio Roma) de fazer com que o mortal se assuma como um não deus. Eis a voz: veja, caro mortal, entenda seus limites, você faz sua história de mil modos, mas o final não é seu. Ou seja: o destino não é seu, mas ele não está predeterminado. Ele se põe como predeterminado exatamente por conta da estrutura narrativa da tragédia poder aparecer de maneira a mostrar como o homem sempre irá fazer sua história, sua interpretação, seu caminho. Assim, a tragédia é um convite para a celebração da múltipla visão, da ideia mesma de versão, da noção de perspectiva e pluralismo, e desse modo não serve jamais ao pensador conservador e muito menos ao pensador de esquerda com traços autoritários e dogmáticos.

É engraçado ver intelectuais que se dizem trágicos sem compreender o tragicismo. O tragicismo é um parente próximo do ironismo, tanto o de Sócrates quanto o de Rorty. Ele faz pensarmos sempre em mais de uma alternativa, e não tem sentido algum na boca do conservador (a não ser como erro de interpretação) que está sempre acreditando que devemos cortar as iniciativas que querem realizar um mundo melhor.

Ler Cioran ou Horkheimer ou Schopenhauer ou Nietzsche ou mesmo Hegel, ver algo de trágico nisso, ou mesmo pegar como livro de cabeceira um Unamuno, é antes de tudo um exercício de ironia e construção de vários caminhos. Suas filosofias são, antes de tudo, alheias à política, ainda que, todos eles, tenham contribuições para a filosofia política. A política prática conservadora não lhes serve, ela odeia vários caminhos. Ela se apresenta com o único caminho, e vive fazendo o “caça às bruxas” para os que dizem, “vamos tentar outra coisa”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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9 Responses “Como usar do trágico para a filosofia – sem estupidez”

  1. helô
    29/10/2015 at 21:39

    Paulo, o q o senhor acha do filósofo Mário Ferreira dos Santos? Sei que ele é lido em círculos “conservadores” nada relevantes, mas queria saber se há algo interessante nele, se seu estudo de Platão, do pitagorismo, fundamentos apodíticos é aproveitável.

    • 30/10/2015 at 01:45

      Mário era um curioso em filosofia. Nenhum conservador que fez a universidade o leva a sério. Ele não é de círculo conservadores, ele é apenas um nome a mais para os que nunca conseguiram pertencer à academia, no campo da filosofia, ficarem exibindo por aí. A mágoa de sempre desse pessoal é não conseguir ser ao menos professor de filosofia. Mário não conseguiu.

  2. Claudio
    29/10/2015 at 12:56

    Penso que este “tragicismo” nos conservadores formadores de opinião seja também uma intenção de criar uma subjetividade para servir a seus interesses. Será que estou equivocado, professor?

    • 29/10/2015 at 21:01

      Claudio! Tudo é vendável, principalmente a auto-ajuda. E esse tragicismo de boteco é um tipo de auto-ajuda, faz o cara que compra se sentir blasé e, na cabeça dele, inteligente.

    • Maximiliano Paim
      30/10/2015 at 07:11

      Olá, professor. Aliás, o que pode ser colocado no oposto do blasé, como na linha de uma desmedida ou imprudência que os gregos opuseram ao Bem?

    • 30/10/2015 at 12:43

      Paim, os gregos não puseram NADA contra o Bem, a excelência máxima sempre foi um virtude.

    • Maximiliano Paim
      01/11/2015 at 15:06

      Coloquei errado. Pergunto se é possível ver o blasé em uma categoria das doenças da alma e qual seria o seu remédio?

    • 01/11/2015 at 15:25

      O blasé é momentâneo, se é permanente, pode ser apatia. Se for uma apatia do tipo daquela dos alemães na II Guerra Mundial, pode ser um tipo de “patologia” só curável pela derrota em bombas. Os nazistas diziam isso! Mas o blasé fingido do Pondé, aí não é patologia, é desonestidade e um pouco de esperteza do burro.

    • Maximiliano Paim
      01/11/2015 at 16:03

      Gracias!

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