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20/11/2017

Como surgem os terroristas de hoje?


A pedra é sem mundo, o animal é pobre de mundo e o homem é construtor de mundos. A essa sabedoria de Heidegger pode-se acrescentar a de Sloterdijk, de que vivemos no mundo da abundância, e de que não poderia deixar de ser diferente, pois somos seres, ontologicamente falando, da riqueza, do mimo e o do luxo. Afinal, somos seres da leveza, os que foram produzidos no vaivém gostoso do útero. Somos os seres dos vários úteros que, depois, reconstruímos. Exo-úteros. O homem é um designer de interiores, diz Sloterdijk.

A essa versão onto-antropológica podemos agrupar a visão do homem como ser rico também a partir de uma sociologia, caso esta já tenha abandonado de vez a tese onto-teológica do homem como homo pauper, o ser de carências que vive na miséria, em todos os sentidos.  Se não se opta por essa ótica da miserabilidade, pode-se notar que nossa sociedade diminuiu as horas de trabalho para a maioria, aumentou a infância e a juventude para a maioria e, enfim, tornou o divertimento, especialmente o sexo descompromissado como uma forma de entretenimento como direito da maioria. Assim, se o mundo tem problemas – e ele tem mesmo, é evidente -, estes não são mais aqueles nos quais a esquerda e a direita, vindas com ideias do século XIX ou de antes de 1945, dizia que eram. “O trabalho liberta”, escrito no portão de Auschwitz, e a “sociedade do proletariado” ou do “homem novo”, títulos que a URSS deu para suas conquistas, não representam nada que se possa chamar como “coisa do nosso mundo”. Nosso mundo é o da diversão ao léu. Nosso mundo tem muito mais a ver com as filas para se comprar o celular novo, com o trabalho se confundindo com a gincana e vice versa, com a fugacidade que tornou o filme Bling Ring, gang de Hollywood  insuportável até para um psicanalista. Contardo Calligaris saiu desolado e meio enraivecido do filme.

Nossa sociedade é tão leve que gerou a “insustentável leveza do ser”. Devemos criar pesos, gerar gravidade, uma vez que vencemos a gravidade não só por balões, mas por meio de foguetes e tecnologias diversas capazes de nos fazer estudar mais, aprender mais a administrar nossa riqueza de seres ricos que precisam adquirir todo tipo de informação para triarem mais informações. Somos leves e nos criamos para um mundo de leveza, mimo e luxo, do qual já viemos quando de hominídeos nos fizemos sapiens, pelos incríveis mistérios da neotecnia – a incorporação como característica da espécie traços infanto-juvenis. Afinal, somos os que dizem o cliché “não viemos prontos”, mas é importante ver que e essa fragilidade é nossa força e riqueza. Mas isso, para muitos, essa condição de leveza é insuportável. É como ser a mulher que tem quinhentos pares de sapato e, portanto, um sofrimento para ir ao baile. Muitas mulheres de classe média possuem quinhentos pares de sapato em uso!

Quanto ao terrorismo, também é útil o notarmos pela ótica de uma filosofia social que leve em consideração a aflluent society. A sociedade da super abundância vale ser analisada por uma ótica que seja afinada com ela mesma.

Todos os grupos dissidentes que se formaram no âmbito da sociedade mundial nascida a partir de 1871 (Comuna de Paris) e desenvolvida até 1945, com sobrevida até 1968 e tempos automaticamente derivados, tinham um objetivo de transformação do espaço em que viviam. Assim, o terrorismo de esquerda desenvolvido nos anos setenta, mesmo na acepção árabe, então voltado só contra Israel, tinha como objetivo levar-nos todos a uma radical transformação dos lugares próprios nossos e desses que optavam pela política extremista. Ora, não é o caso do terrorismo atual. Ele tem como horizonte atemporal o fim do espaço do pecado. É um luta milenar, talvez mesmo atemporal.

Os dissidentes da sociedade atual são recrutados ou se auto-recrutam a partir de dois grupos interligados que, enfim, não têm raízes espirituais no espaço em que vivemos. Quem são os grupos dissidentes atuais?

Primeiro: são os que estão entre os que querem viver na sociedade da super abundância e estão batendo às portas do grande útero, pedindo para entrar nessa sociedade. Querem participar do mimo que é destino contado para nós pelo evangelho do útero. Não querem mais ficar no horizonte de super abundância que essa sociedade põe na sua periferia. São os imigrantes. Eles miram a Europa, os Estados Unidos, mas podem aceitar vir para o Brasil ou a Austrália. Eles querem esse mundo, mas eles não são desse mundo, e eles não vão abrir mão, claro, do que são, muito menos de suas religiões. Algumas dessas pessoas podem ser aproveitadas pelo terror, na medida que não possam se capazes de suportar a leveza. Podem inclusive arrebanhar gente jovem do núcleo da sociedade da abundância, os que já não suportam a leveza e querem algo pesado para além da academia, esporte competitivo, esporte radical, política ativista, competição sexual e cocaína. Algo pesado como Alá.

Segundo: são os grupos de estudantes ricos ou bolsistas ou amigos de gente do poder que entram livremente no núcleo da sociedade da super-abundância. São os que frequentam as grandes universidades americanas e europeias, se educam, gastam seus anos de juventude como playboys ou coisa parecida. Alguns deles podem servir ao terror por inúmeras ligações. Os mais ricos, um dia, são chamados de volta para suas terras de origem, para administrar bens e lugares políticos que um dia renegaram. Assumem e se tornam chefes não só locais, mas líderes do Terror. Pois logo percebem que só manterão suas tribos e comunidades unidas se encontrarem o inimigo externo poderoso, alguém que seja inimigo do próprio Alá. O “capitalismo pecaminoso” ocidental, do qual fizeram parte, é este o melhor inimigo. Funcionam às vezes como pecadores arrependidos. A presença desse dado entre tais dissidentes é visível: toda quinquilharia ocidental, inclusive a droga e o sexo para divertimento, é um costume desses chefes terroristas. Quando conseguem se abster de tudo, por conta do número de mulheres que possuem, ainda assim não abrem mão de Diet Coke e de ter no celular o jogo eletrônico de última geração.

Não é necessário que a CIA organize nenhum desses grupos. Mas ela os ajuda quando é o caso de tentar estabilizar situações geopolíticas. É quando estas parecem poder fazer interesses americanos de diversos tipos se complicarem. Sendo a CIA o que é, não há outra maneira de agir. Ela nasceu do militarismo e este, na modernidade, tem escola. Todo o colonialismo inglês, francês, português e espanhol se fez na base de dar armas a um grupo para que este ajudasse o invasor ou colonizador a vencer em alguma luta aqui e ali. Foi assim que portugueses e espanhóis fizeram com os nossos indígenas. A URSS e Cuba também agiram assim, ainda que, em outro contexto, fomentando guerrilhas de esquerda. Sempre o colonizador se apresenta como “libertador do povo”, quando na verdade é apenas o que arma um dos grupos (ou todos!) para que ocorram as “primeiras limpezas”. A escravidão na África e o mercado de escravos africanos vingou assim. Tribos com armas massacravam tribos sem armas, e então vendiam os prisioneiros como escravos. Não houve índio americano que não tenha conhecido isso. Não houve soldado da West Point que não tenha visto o mercado negro de armas para índios, às vezes feito por oficiais. Todavia, no caso do terrorismo atual, não é essa velha prática que o cria e o sustenta. Ainda que ela exista, ela é secundária. O terrorismo atual existiria sem ela e de fato lhe é independente. Nenhum chefe terrorista é rico ou milionário, é sim multi-milionário, e tem parentes de todos os lados, numa rede imensa de dinheiro que serve para corromper, comprar armas e gerar sistemas de fundos para combate. Fechar as contas dessas pessoas é possível, mas têm limites. O sistema bancário do mundo todo não gosta de tanta intervenção. O banco que não protege seu cliente do que ele faz de ilegal não é um bom banco nem para o honesto. Obama sabe que pegar gente pela conta bancária não é coisa que o mundo goste de fazer sem um limite. Os políticos e os grandes industriais começam a chiar: “êpa, daqui a pouco vão intervir na minha conta também!”

Em suma, como Richard Rorty disse logo após o September Eleven: a grande mentira dos governos hoje é que eles podem nos manter em segurança. Não podem. Mas também não podem desmentir tal coisa. Aliás, nem nós queremos que eles parem de mentir.

Desse modo, ao analisarmos o surgimento do terrorismo novo,  a melhor forma é a de olharmos para o modo como ele é gerado nas duas possibilidades das dissidência da sociedade da super abundância, e olhar menos para a geopolítica. E menos ainda para qualquer teoria ligada às análises da sociologia viciada em contrapor capitalismo e socialismo e fazer os problemas do mundo girarem em torno de pobreza. Essas coisas não têm mais nada ver.

A geopolítica serve para o comentário do jornalismo ou dos bilhões de cientistas políticos do Facebook. O mundo da mídia hoje tornou jornalistas e colunistas gente que faz piada, já que os humoristas se transformaram todos em gente sem graça militando em partidos de direita ou esquerda, e pagos por estes.

Para a filosofia, que navega em mares profundos, a conversa é outra.

Paulo Ghiraldelli, 58, filosofia.

 

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10 Responses “Como surgem os terroristas de hoje?”

  1. Kênio
    20/11/2015 at 03:33

    Olá.

    Também achei muito esclarecedor e interessante o seu texto.

    Aliás, ontem eu vi um desses vídeos macabros do ISIS, com terroristas cortando gargantas e ameaçando fazer e acontecer desgraças em Moscou.

    Logo, o seu texto veio a calhar pois eu estava pensando sobre um terrorista como aquele sujeito com caráter necrófilo (amor à morte), em oposição ao caráter orientado à vida (biofilia), para usar expressões do Erich Fromm ,que li num livro dele.

    Mas, se pensarmos bem, não foi o que vc disse, só que com outras palavras? Por exemplo, “leveza” como “biofilia” e etc.

    Abraços. 🙂

  2. John Neto
    18/11/2015 at 21:14

    Então não tem nada a ver com interesses políticos? Tá serto!
    Isso que eu chamo de tentativa de despistar o problema( religião e política )… My Goodness.

  3. Luh
    18/11/2015 at 20:15

    Esse texto ajudou-me a entender melhor a discussão do programa, muito bom!!!
    E é incrível a sintonia que vc e a Fran tem, o programa fica muito gostoso de assistir.

  4. 16/11/2015 at 19:20

    Em cada época, existe os privilegiados e os não privilegiados, que fazem de tudo para conseguir o que não têm o que os outros têm. Como tinha dito, os que ficam no horizonte batem na porta para viver também na luxúria dos que conseguiram privilégio.

    • 16/11/2015 at 19:36

      Se as coisas fossem assim, tão simples, não precisaríamos de escola.

    • 18/11/2015 at 13:09

      Professor, obrigado pelo feedback. Reconheci o meu erro neste comentário, mas continuarei vendo seus textos. Abraços.

  5. Igor
    16/11/2015 at 18:32

    Os ataques em Paris endossam a perspectiva do texto, ocorreram em espaços de “leveza”, de “elevação do espírito” através do lazer. Além disso, cabe a questão sobre o Estado de Exceção, apontada como tendência na “sociedade da leveza” por Agambe. Vi algo assim na recente entrevista da judith butler na Fórum

    • joao santos
      18/11/2015 at 16:39

      Em que fórum Igor?

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