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01/05/2017

Como se produz aquele que diz “alienado”


José é um homem de 35 anos, escolarizado, mas sem o ensino universitário. Ele tem o ensino médio completo. Mas quer fazer a universidade. 

Convive em um lugar onde o que não falta é gay, de todos os tipos e práticas, com lantejoulas ou não. Ele não é um homossexual e muito menos homofóbico violento, simbólica ou fisicamente. Aliás, ele está alheio às questões sexuais e nem nota muito se as pessoas são homossexuais ou não. Ele trabalha na boa, no seu dia-a-dia. Quando perguntado pela razão de haver homossexuais, ele diz que é porque quem tem de nascer assim, nasce mesmo, mas que a maioria, agora, vem de uma moda que cresce por conta da “propaganda da Rede Globo”.

Ou seja, mesmo que o seu cotidiano aponte para mil e outros elementos que podem contribuir para que as novelas e a TV em geral espelhem a vida, para José a vida não existe senão como cópia da tela. Ou melhor, há uma coisa mágica aí chamada “mídia”, e ela é que produz a vida, senão totalmente, em uma medida surpreendentemente grande. A tela ficcional produz o que se entende por real. A ideia dele é esta: intencionalmente, sabe-se lá por qual razão, a Rede Globo resolveu criar um mundo cheio de gays, e então, pela novela, tornou moda isso (talvez para ampliar o consumo de coisas que gays gostam, vender mais etc.). E a moda pegou.

O mundo de José não pode ter complexidade. Trata-se de um mundo tomado como a cópia de uma falsa cópia, a cópia de uma ficção. A vida é quase nada. É uma tabula rasa na qual a Rede Globo escreve o que bem entende. Todos somos então fantoches, ou mesmo desenhos, gravuras inventadas pela TV. Somos símios que mimetizam a tela. Nossos pais, escolas e tudo o mais não importam diante do Deus que cria e recria o mundo, a Globo.

Este desenho tem duas ou mais vias de leitura. Uma delas pode estar de acordo com o meu texto.

Este desenho tem duas ou mais vias de leitura. Uma delas pode estar de acordo com o meu texto.

Uma pessoa assim, José, é capaz de, uma vez na universidade, não ter essa interpretação revista, mas batizada de correta, aprendendo então que a rede Globo nos faz acreditar em tudo, nos impõe modas, e isso é a ideologia. Uma vez na universidade, José fica feliz em saber que aquilo que ele sempre soube tem um nome em ciências sociais, a ideologia. Claro que ele está aprendendo errado o que os seus professores também sabem errado. E todos nesse erro, acabam por dar a José o título de sociólogo. Ele deverá falar com autoridade o que já dizia, erradamente, quando só tinha o ensino médio. Mas agora, terá o charme de dizer que esses fantoches produzidos pela Rede Globo, que somos todos nós, estão “alienados”. Pronunciando essa palavra, José então sentirá de fato estar diplomado, integrando então um outro mundo. É sonoro pronunciar “alienação”. José chega até a requebrar ao fala-la.

José era um homem comum, com erros comuns. Na universidade, torna-se uma besta comum. José será seu professor, caro jovem leitor.  E você sairá dizendo “alienado” para todo lado, tão imbecil quanto José.

Paulo Ghiraldelli

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9 Responses “Como se produz aquele que diz “alienado””

  1. Wender de Oliveira Silva
    01/04/2015 at 21:53

    Quer dizer que José fica no senso comum e não busca as verdadeiras causas do fato ocorrido, mas em vez disso diz que é culpa da globo ou gay globo que quer que as pessoas sejam gays segundo José. Esquecendo de todas as outras motivações que levaram as pessoas a serem gays. Talvez José ache que a lava jato seja uma novela global fruto da globo em conchavo com os EUA que estão com os marines na costa brasileira para derrubar a Dilma a inflação e o desemprego também devem ser fruto da imaginação dos roteiristas da novela da globo seguindo o raciocínio de José.

    • 01/04/2015 at 22:00

      Wender o grande problema seu é o ensino médio. Nesse nível de ensino ensinava-se a compreender gêneros literários. Então, os textos faziam sentido dentro dos planos propostos. Você pulou essa etapa do ensino ou o fez em escola vagabunda. Deu nisso.

  2. MARCELO CIOTI
    22/04/2014 at 11:58

    Por quê será que todo jornalista que
    sai da Globo,fica criticando a
    emissora onde trabalhou?Por
    coincidência ou não,brincam
    de Carta Capital na internet.
    ARGH!

  3. Danilo Henrique
    22/04/2014 at 11:56

    O pior é que ele aprende na faculdade que o nome disso que ele faz é “crítica”

    Mesmo que um bom professor tente ensinar ao “mané” que esse pensamento linear é justamente o oposto do pensamento crítico.

    Isso deve ser culpa da globo…kkkkkkk

  4. Guilherme Gouvêa
    21/04/2014 at 10:07

    Creio que no passado, a Globo até teve um papel determinante na condução de alguns rumos políticos do país, v.g. na eleição do Collor em 1989, recentemente admitido pelos próprios Marinhos, Boni e cia.
    Daí a pegarem este fato e o transformarem numa hipérbole (os perdedores da época) foi um segundo.

    • 21/04/2014 at 10:26

      Gôuvea, não é sobre isso meu artigo. Não é sobre “influência”.

  5. Pedro Andrade
    20/04/2014 at 23:10

    Conheço alguns Josés tal qual você descreveu Paulo.

  6. Mario Luis
    20/04/2014 at 22:57

    O grande problema na conceituação da alienação é que ela deve girar em torno da questão do conceito de homem. Tanto na questão relativa ao alhear-se de si, não se reconhecendo, no que se refere à autoconsciência, quanto na forma de produzir – na qual o homem não se reconhece – são apenas exemplos do referencial que passa necessariamente pelo problema da coisificação do homem.
    José de antemão já não se reconhecia como alguém que poderia se questionar a respeito da possibilidade de ser que ele é. O conceito de alienação se tornou uma referência vazia para algo que escapa a sua compreensão toda vez que pensa nela.

    • 21/04/2014 at 00:27

      Mário, tente pensar o texto, não além ou aquém, como sempre faz

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Filósofo