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26/09/2017

Como não ser Feliciano ou feminista tacanha diante do ENEM?


NÃO TENHO nenhuma dúvida que há componente de doutrinação nas narrativas escolares, especialmente as produzidas por quem coloca questões que versam sobre ser contra a violência à mulher.

Mas, em certos níveis do ensino, fundamental e médio, a doutrinação é a regra. A relativização vem depois, um pouco no ensino médio e, depois, na universidade. Por exemplo: ensinamos crianças a ficar na fila, não explicamos a razão, tem de obedecer fila e pronto. Depois, mais tarde, dizemos para elas que há gente importante, bem educada, que no entanto não obedece fila – então ensinamos julgar e avaliar moral e eticamente tais posturas. Mais tarde ainda, ensinamos aos jovens que fila tem razões antropológicas que não precisam ser a regra e não são próprias de todas as sociedade etc.

Assim, no caso da violência, o ensino também é assim. Podemos colocar como lei a frase “em mulher não se bate nem com uma flor”, no ensino básico, para depois, no final do ensino médio e na universidade, mostrarmos filmes, poemas, livros até clássicos onde o espancamento da mulher aparece de toda a maneira. Não entender isso é virar ou uma feminista burra ou virar um Feliciano ou Bolsonaro.

É preciso entender que o ensino é “socialização + individualização”. Primeiro criamos hábitos arraigados, por meio de ensino dogmático, depois vamos desdogmatizando e relativizando tal ensino, de modo que o aluno possa ser crítico e, no entanto, manter dentro da sua criticidade os princípios básicos de sua civilização.

Um jovem não pode ser socializado na universidade. Ali é lugar dele ser crítico, dele relativizar dogmas. Mas, se não aprendeu direito os dogmas de sua sociedade, inclusive que são dogmas (e esse jogo intermediário é feito no ensino médio), ele não entende o processo crítico universitário. Como Bolsonaros, feministas estúpidas e Felicianos não passaram direito por processos corretos de educação, não conseguem entender tal dialética entre socialização e individualização. Não faça como eles, seja melhor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: Para mais sobre o assunto veja O que você precisa saber em filosofia da educação (DPA), de minha autoria, e que contém um texto de Rorty sobre o assunto no final, traduzido por mim.

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2 Responses “Como não ser Feliciano ou feminista tacanha diante do ENEM?”

  1. Jokas
    27/10/2015 at 13:09

    Enem: machistas não passarão!!!

    • 27/10/2015 at 13:36

      Jokas, acho que o lema é “burros, talvez machistas, não passarão”.

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