Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

22/09/2017

Como lidar com anjos?


Acreditamos em anjos que são oriundos das narrativas judaico-cristãs. Ao menos à primeira vista. Esquecemos de investigar as características de nossos anjos. Deveríamos fazer isso, aprenderíamos muito sobre eles, especialmente sobre os que mais confiamos, os anjos da guarda. 

Quando lemos Apuleio, do século II, na palestra “O Deus de Sócrates” (Deus aí é daimon), vemos o saber neoplatônico sobre daimons inteiramente mais próximo de nós, quanto a anjos em geral, do que muitos dos escritos bíblicos que acreditamos seguir.

Agostinho leu Apuleio. Aliás, Apuleio era popular na terra africana sob domínio romano, ainda no tempo de Agostinho, o século V. Não à toa! Afinal, Apuleio era da mesma região do Bispo de Hipona. Agostinho modificou a terminologia de seu conterrâneo, especialmente em A cidade de Deus. Daimon grego seria demônio a partir do latim e, então, nunca boa entidade, sempre uma entidade má. Foi uma tentativa, a de Agostinho, que vingou em relação aos termos, mas não quanto às funções. Muitos do daimons de Apuleio continuaram a perambular por aí, e foram incorporados com o nome de anjos, dado que em geral só ajudavam as pessoas. Como Platão, Apuleio falava de anjos capacitados para colaborar, como advogados, em algo do tipo de um tribunal após a morte. Tais anjos eram de fato anjos da guarda, acompanhando-nos durante a vida para efetivamente nos servir depois da morte. Não podiam interferir em nossas vidas, mas, diante de um julgamento severo sobre nossa conduta, perante os deuses, podiam bem levar adiante uma boa retórica, mostrando nosso lado não nefasto. Mas não só, Apuleio falou também de daimons do lar. Que eram?

Daimons do lar eram como que anjos da casa, entidades que, de fato, se apresentam como as almas de antepassados que não seguem o caminho, mas ficam na casa para proteger o local ou mesmo as famílias dos local. Nossa crença em entidades que ficam nas casas é enorme e sólida. Quando há suicídio em uma casa, tentar vendê-la é quase impossível. Todas as casas em que ocorreram desgraças causam mais desgraça ainda às imobiliárias que as pegam. Até quem não tem nenhuma ligação com qualquer misticismo evita comprar casas assim. O melhor da casa é ter uma história boa ou nenhuma. Anjos novos para casas novas, espíritos claros para paredes brancas e assim por diante. “O ar fica pesado”, assim falam tanto os devotos quanto os não crédulos sobre lugares de desgraças. O que pesa é a presença de entidades frutos da desgraça ali ocorrida, em algum nível.

Minha avó conversava com entidades, como quem falava com algum anjo, e ela me contava que tal personagem havia sido, em vida, o pai dela. Então, não raro, psicografava. Era um tipo de anjo da casa, e não propriamente um “espírito” – ela, ao menos oficialmente, era católica. Claro que anjos assim, da casa e da família, encontramos de modo bem descritivo em Apuleio, e isso coaduna não com a tradição da Igreja, mas com a tradição pagã da família romana, que tinha pequenos altares em casa. Os cristãos não tinham tal prática. Vieram a tê-las, em Roma, a partir da herança pagã.

Os anjos que são familiares mortos que nos protegem são os mais poderosos. Como orar é sempre uma prática de volta para casa, uma recuperação das forças uterinas que reaparecem por meio das lembranças dos melhores conselhos de pai, mãe e avós que nos acalentam em derrotas, não há dúvida que anjos oriundos de familiares mortos possuem força redobrada. Há até quem dispense a mediação da figura angélica tradicional, aproveitando-se da própria figura do antepassado para torná-la mesmo anjo da guarda. Muitos de nós não oram para seus mortos como quem os quer bem encaminhados, mas oram para eles querendo que eles cumpram a função de anjos da guarda. Pedimos graças e bençãos a parentes mortos do mesmo modo que a Jesus, Deus ou santos. Às vezes não percebemos que estamos agindo assim,  mas, quando alcançamos a graça, nos damos conta do pedido e achamos estranho que a coisa só vingou quando nos dirigimos mesmo ao nome do parente morto, que fizemos posar como anjo.

Nos anos noventa houve uma explosão da literatura sobre anjos nos Estados Unidos, e ela logo veio para cá. Mais como auto-ajuda, claro. Anjo entrou na moda. Agora, não mais. Mas, ainda assim, trata-se de algo que não abrimos mão e que nem sempre nos dedicamos com afinco para identificar, entender e saber como agem conosco. Precisamos retomar nossa curiosidade pelos anjos. Principalmente agora que cachorros têm sido vistos como encarnações de anjos, o que é feito não sem razão. E cachorros, no momento, estão em alta, e tomara que continuem.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Veja mais em: Sócrates: pensador e educador. São Paulo: Cortez, 2015.guinefort-anjo

 

Tags: , , , ,

4 Responses “Como lidar com anjos?”

  1. Corrêa
    05/02/2016 at 00:20

    Absolutamente lamentável o fato de um dos pretensos grandes filósofos brasileiros e ídolo de muitos esquerdistas neste país não conseguir elaborar um texto no qual percorra sequer duas linhas sem erros e/ou uso de estruturas de concordância deploráveis e, francamente, infantis. Isto sem fazer menção à sua completa incapacidade de manter um desenvolvimento lógico razoável ao longo do texto; você não para de pular de factóide a factóide e se perder a todo instante, rapaz! Quanto ao (inexistente) conteúdo do presente texto e de suas outras produções, me nego a tecer comentários. Abraços e até nunca mais.

    • 05/02/2016 at 00:55

      Corrêa você disse tudo ao falar “ídolo de muitos esquerdistas”. Ou seja, não sabe quem eu sou e o que escrevo e inventou erros meus que não existem apenas por ódio à esquerda, dado que é de algum grupelho de direita. Felizmente apareceu, pediu atenção, e não vai voltar. Mas talvez volte, parece um caso de carência.

  2. Erick
    04/02/2016 at 00:55

    Olá, paulo, achei um ótimo texto. Mas, desculpa por mudar o foco, só que existem questões muito em voga do tipo “apropriação cultural” ou “racismo reverso” que gostaria de saber mais de você sobre isso. Se pudesse fazer um texto sobre tais termos, ficaria agradecido, obrigado.

    • 04/02/2016 at 00:58

      Não sei do que se trata, Erick, caso queira explicar, use meu facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *