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20/11/2017

Como ler Peter Sloterdijk? (*)


Não falo aqui de um simples “como ler Peter Sloterdijk”, mas também de como entender um novo modo de pensar que ele inaugura, e de como que lê-lo nos leva a ter de praticar esse novo pensamento.

O filósofo norte americano Donald Davidson desfez a distinção entre o que é metáfora e o que é literal. Ele construiu uma boa argumentação sobre como não há nenhum sentido na metáfora que, enfim, se revelaria na descoberta de sua correspondente literalidade. Nietzsche havia falado algo parecido ao chamar a verdade como sendo um batalhão de metáforas e metonímias. Por sua vez, Richard Rorty formulou uma concepção de linguagem inspirado em ambos: toda nossa expressão é metafórica, e a linguagem que usamos nas expressões ditas literais, nada são senão metáforas mortas. Quando uso uma metáfora não estou lançando um “outro sentido” do que existiria em forma literal, mas estou, sim, quebrando uma narrativa para causar uma comoção. Uma metáfora é como um beijo ou tapa na cara ou uma foto tirada do bolso em meio de uma narrativa. Cria uma disposição no outro para reformular o que pensa, sair do mesmismo, pensar diferente ou simplesmente se espantar.

De fato, uma palavra ou uma expressão podem ser lançadas e não fazer sentido, e então seu enunciador ser qualificado como aquele que “fala por metáforas”. Mas se tal expressão é agarrada e utilizada num jogo de linguagem, ela pode ganhar sentido com o tempo e então adquirir valor de verdade. Jesus dizia “perdoai uns aos outros”. Ora, qualquer antigo poderia dizer, como de fato disse: “esse homem ou é um louco ou é um sábio que fala por metáforas, não o entendemos”. Todavia, “o amor é a única lei”, uma regra do cristianismo, tem hoje valor de verdade em vários jogos de linguagem no Ocidente.

Bruno Latour disse que Peter Sloterdijk é um filósofo que lê metáforas literalmente. No meu jargão, isso é exposto da seguinte maneira: é como se Sloterdijk fosse aquele que mais teria compreendido Nietzsche, Davidson e Rorty. Sloterdijk pensa de maneira a não encontrar fronteira entre o metafórico e o literal. Quando teimamos em lê-lo sem um treinamento nessa prática, não o entendemos ou temos então um entendimento parcial e falho.

É fácil ver isso. Tomemos a palavra gravidade. A “gravidade” alude a uma situação de consideração de peso. Se temos peso, não temos leveza. Vencer a gravidade é subir. Perder gravidade, perder peso, é ficar mais leve. Um balão nos faz subir, nos leva a insurgir contra a gravidade. Uma febre de balões nos faz entrar num movimento anti-gravitação. Nietzsche chamou os espíritos livres, ou seja, os que podem não ter peso e direção predeterminada, de “aeronautas do espírito”. Ora, Sloterdijk diria apenas “aeronautas”, os que se fazem aéreos, leves. Os que sobem e voam. Sloterdijk está tomando a atmosfera, em todos os seus sentidos, como o campo esférico no qual ele faz descrições. Não cabe, para ele, considerar a gravidade “física” como o literal e a “desgravitação do espírito” como um uso metafórico. Não há preponderância de uma terminologia sobre a outra. No termos de Rorty: não há hierarquia epistemológica entre uma narrativa e outra, apenas uso.

Para Rorty e Davidson esse tipo de coisa era como que admitir um monismo ontológico e um dualismo ou pluralismo interpretativo. Ainda que, ao menos como eu o leio, Slotertijk possa considerar assim também, ele não dá bola para tais questões técnicas da filosofia da mente. Ele simplesmente utiliza já de pronto a postura de quem conversa como Rorty gostaria de ver o homem do futuro conversando.

Todas as noções de Sloterdijk são assim: bolhas, espumas, esferas, gravitação, maternidade etc. são termos que aparecem e que são alocadores de sentido no contexto do jogo de linguagem que se está criando, mas que, com isso, não desmentem os vários usos que já possuem. Atmosfera é sim o lugar do ar, sendo o lugar do ar e tendo aparecido o ar condicionado, também estamos falando de aclimatização como espaço de conforto e mimo que é mimo psicológico e social. Assim, atmosfera não é um assunto só dos físicos e climatólogos etc. Atmosfera  é atmosfera.

Esse truque na leitura de Sloterdijk é precisa ser observado e treinado. Muito da criatividade desse filósofo advém disso, dele nos deslocar para fora dessa mania de sempre achar que temos o pé no chão no literal, e que daí saltamos para a metáfora. Ora, Sloterdijk não trabalha no seu pensamento e linguagem com essa dualidade. E isso lhe é profundo. Não lhe é opcional. Por isso mesmo ele pode sacar todo tipo de narrativa para a sua maneira de, fazendo história das ideias, fazer filosofia.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

(*) Esse texto pode e deve ser modificado por uma visão em que a linearidade a indistinção entre metafórico e literal, em Sloterdijk, passe por algo que é o que  ele próprio chama de “terceira ironia”, em que pertence às suas observações sobre Luhmann.

PS: Sobre Davidson: Introdução à filosofia de Donald Davidson. Rio de Janeiro: Luminária, 2010. Sobre Rorty: Richard Rorty – a filosofia do mundo novo procurando novos mundos. Petrópolis: Vozes, 1999.

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6 Responses “Como ler Peter Sloterdijk? (*)”

  1. Ismael Assis
    18/11/2015 at 14:18

    Professor Paulo. Sou novo por aqui e no contato com a filosofia, mas me interessei pelo tema. Quando estava em uma das disciplinas na universidade, um dos comentários que nossos professores faziam era de que as palavras (língua (ou linguagem) ,seus signicantes e outras propriedades), são arbitrárias, criadas e estabelecidas, a partir da vivencia cotidiana e das relações humanas, dos meios socias. E que não existe relação lógica ou analogica natural entre significados e significantes, ou seja são arbitrária. Se me permite usar como exemplo a biblia (como o você utilizou no texto), ela (biblia) tem entre uma das suas caracteristicas, a narrativa da historia da humanidade… dito isto em muitas situações é comum (a despeito do seu valor como documento historico reconhecido, não esquecendo deste fato) o seu relato sobre esse tema tão obscuro, ser desconsiderado como “Fato” e ser classifiado como “Mito literário”, com valor simbólico, dentro da historiografia acadêmica e fora dela também. Confesso que jamais tive contato com esse autor, Peter Sloterdijk, somente conheço o seu trabalho Professor. Mas lendo seu texto penso que algo que já tinha passado por meus pensamento veio a tona novamente. O relato dito “Mítico” não difere do relato Historiografico ciêntifico, com excessão das minúcias de detalhes, e exaustiva desmenbramento dos fatos, buscando sua explicação mais verossímel, e é claro da linguagem e a sua aplicação e a momento histórico e ao meio social a quem se dirigi o relato. cabendo a este esse tipo de linguagem e àquele este outro tipo. Desde já agradeço a atenção que você presta a todos aqui Paulo.

    • 18/11/2015 at 14:23

      Ismael existe as teorias do significado, que foi por onde comecei o texto, e existe os gêneros literários e ontologias plurais, que foi por onde terminei. Esses dois campos específicos da filosofia, sendo que o do meio pertence mais à área básica de letras. Sobre o primeiro, o fim do meu texto apresenta livros para dar continuidade ao estudo. Quanto ao Sloterdijk, eu venho apresentando a coisa.

  2. 18/11/2015 at 12:29

    Obrigado pelo texto mestre Ghi.

    Percebo que o mestre vem nos preparando (em textos anteriores) para ler o livro que vem por aí…
    Quando sai o livro ?

    • 18/11/2015 at 13:05

      Raimundo não estou com pressa. O livro está pronto. Mas vou esperar.

  3. ricardo
    17/11/2015 at 23:07

    Pode-se, para uma grande classe de casos de utilização da palavra ‘significação’ – se não para todos os casos de sua utilização –, explicá-la assim: a significação de uma palavra é seu uso na linguagem. E a significação de um nome elucida-se muitas vezes apontando para o seu portador.

    • 18/11/2015 at 00:08

      Bem, há outras possibilidades, Ricardo. Mas não é essa a questão do texto. Obviamente não é um texto sobre teoria do significado. O texto é sobre como ler Sloterdijk. Você parou no meio do texto.

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