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16/11/2018

Como ler Marx de maneira inteligente, ou seja, normal?


[Artigo para o leitor acadêmico]

Marx é o filósofo que fez uma terrível e contundente crítica ao liberalismo. Essa crítica nunca foi anti-liberal. Era uma crítica pós-liberal, motivada pois claros desejos: primeiro, o de tentar dizer que o liberalismo não havia cumprido o prometido, em especial quanto à liberdade e à igualdade das pessoas, dos indivíduos enquanto indivíduos e cidadãos; segundo, o de mostrar que o prometido do liberalismo não era algo a ser descartado, mas, ao contrário, realizado e ampliado. Peter Sloterdijk, lá da terra de Marx, recentemente escreveu: “o liberalismo é importante demais para ser deixado nas mãos de liberais”. Nada mais adepto do espírito de Marx que esta frase.

Marx foi, também, o filósofo que disse que o regime político associado ao liberalismo, a democracia liberal assentada na “infraestrutura” genericamente chamada de “capitalismo”, não era propriamente uma democracia. Tratava-se, em certo sentido, de uma ditadura dos setores proprietários dos meios de produção sobre os setores despossuídos de tais meios. Então, para se conseguir  sair dessa situação, ao menos como transição, haveria uma ditadura contrária – a ditadura dos sem posse dos meios de produção. Essa ditadura terminaria com as classes sociais, libertaria tanto a “burguesia” quanto o “proletariado”, e prepararia a sociedade para viver livre, tendo como objetivo o fim do estado. Os homens em liberdade e igualdade organizariam a produção coletivamente. Nasceria aí um novo homem, com sentimentos transmutados e capaz de usar seu tempo, então cada vez mais livre do trabalho, para a fruição das bonanças do trabalho que, enfim, sob novas regras, iria render mais e ampliar a liberdade humana.

Acreditar que Marx era um tolinho que não sabia que esses dois pontos (o apreço pelo liberalismo e a crítica do capitalismo tendo como caminho a “ditadura do proletariado”), postos claramente nos dois parágrafos acima, estavam em um tipo de oposição um ao outro, é realmente não saber ler Marx e, enfim, não saber ler filósofo algum. Ler Marx, como ler qualquer filósofo, sempre implica na obrigação de não deixar a inteligência de lado. É saber se os pontos díspares dos escritos possuem alguma conciliação nos próprios textos ou se possuem uma conciliação no espírito da obra. E estar preparado, também, para perceber que eles possam ser de difícil conciliação. Um bom filósofo ou um professor treinado para ser filósofo deve seguir esse conselho sempre, para a leitura de Marx e de outros filósofos.

Infelizmente, quem não estuda ou quem estuda fora da escola tem uma dificuldade enorme de entender esse procedimento. É o procedimento que diz que há um “contexto”, ou seja, que a obra percorre um contexto que é texto, por isso, em parte, ela é respeitada como a obra de um bom filósofo. E Marx foi um dos maiores. Sua obra é rica em diversos aspectos, inclusive além das questões de ordem econômica, sociológica e política. É uma obra de profunda reflexão metafísica, em especial sobre o “fetichismo da mercadoria”.

O problema é que Marx, diferente de tantos outros filósofos, teve a sua teoria apropriada pela política de modo muito direto. Os acontecimentos de seu século e do início do vinte o atropelaram. Lênin fez isso: a ligação direta com o projeto revolucionário político. E então as arestas entre essas descrições díspares citadas foram aparadas a canivete, e não com lápis, computador e cérebro.

Na solução dada por Lênin, o canivete funcionou na prioridade do segundo objetivo: destruir a democracia liberal em favor da transição da “ditadura do proletariado” para a “sociedade sem classes”. O canivete de Lenin simplesmente cortou algumas passagens da crítica de Marx ao liberalismo. Transformou tal crítica de pós-liberal em anti-liberal. De modo que a transição para a “sociedade sem classes” se fez com os olhos cegos em relação ao quanto Marx queria que todos os ganhos do liberalismo em termos de liberdade individual e igualdade fossem preservados e ampliados. Por isso a Revolução de 17 (e as que a imitaram) trouxe a censura a todos, a estatização forçada, a transformação do crítico em inimigo anti-revolucionário e, enfim, a perdição total que os tais “processos de Moscou” logo revelaram. Ao final, o objetivo da sociedade sem estado acabou se confundindo com o da sociedade estatizada.

A partir daí, ou seja, desde os “Processos de Moscou”, os que, na América, sentiam-se atraídos pelo marxismo leninista, o abandonaram. Depois, abandonaram Marx de uma vez. Os americanos de esquerda logo viram que seria melhor contar com John Dewey, alguém menos entusiasta quanto ao aparar arestas com canivete. O liberalismo americano se tornou liberalismo social, um tipo de social democracia, mas diferente da européia, sem Marx. Se Obama caminha neste lado, pode-se ver que Sanders é herdeiro ressurgido de 68, que é o outro lado – a esquerda que só nos anos 60 voltou a namorar com o marxismo. Mas a grande corrente de esquerda na América continua sendo liberal. É como se Dewey tivesse servido aos americanos como o Marx crítico pós liberal, e não anti-liberal.

Quando algum partidário de Marx diz que ele foi mal interpretado, isso é um erro. Marx foi selecionado pelo corte não de tesoura, mas de canivete (como a irmã de Nietzsche fez com suas obras). Então, uma vez que só um lado dos objetivos de Marx se fixaram na doutrina leninista, as coisas se complicaram. Até por uma razão simples: o sucesso de Lênin em 1917 “provava” a verdade de sua teoria, e tudo seguiu como seguiu, e o marxismo político de Lênin, um dia, chegou ao fim. Quando da derrocada da URSS o marxismo de Lênin já não seduzia mais os intelectuais bem pensantes do campo marxista. Hoje em dia, nem há mais um “campo marxista”. Felizmente. Se não ficamos livres como Marx queria, ao menos ele próprio ficou. Pode ser lido sem o Partido! (embora não sem a universidade).

Mas, ainda hoje está aí o canivete, passando de mão em mão. A direita moderada, que se diz liberal conservadora, o apanha e faz o mesmo corte de Lênin. Diz então que o comunismo não respeita o indivíduo. A esquerda que se diz marxista, ou às vezes até sem Marx, continua com o leninismo, e diz que o indivíduo não é tão importante quanto a humanidade liberta prometida para o futuro. Nós filósofos dizemos outra coisa. Nós existimos antes da divisão da vida política em direita e esquerda. Somos mais velhos. Nós nos mantemos na hermenêutica contínua de ler e reler os textos. Nós nunca achamos que “abandonar a interpretação para transformar o mundo” foi dito como tarefa política revolucionária. Essa frase sempre foi anti-hegeliana. Hegel via a história, ela própria, como o desdobrar do Espírito e, portanto, a história seria o próprio ato do Espírito que, como Espírito, ao andar faz o ator de interpretar, de se interpretar. Foi nesse sentido que Marx criticou a tarefa de “interpretação do mundo”. Mas, também aí é mais um dado a ser estudado, que depende de formação acadêmica, de entender Hegel etc., caso contrário funciona o canivete cego.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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17 Responses “Como ler Marx de maneira inteligente, ou seja, normal?”

  1. Jose Carlos Mendes
    05/11/2018 at 15:49

    Gostei do seu artigo. Mas lhe pergunto: até quando continuaremos apenas na leitura dos textos sem os colocar em
    prática?

    • 06/11/2018 at 01:13

      Quem lhe disse que faço isso? Que fico só lendo?

  2. 05/09/2018 at 08:19

    Adorei o seu erros “craços” ha ha ha. Cara, primeiro alfabetize-se, só depois tente abrir essa boca de religioso tolo.

  3. Guilherme Hajduk
    03/09/2018 at 14:04

    Então foi bom que eu já tenha me inscrito no Enem e na Fuvest deste ano para ver se consigo estudar filosofia em alguma Universidade pública em São Paulo… E aprender essas coisas que me faltam. Boa tarde.

    • 03/09/2018 at 18:59

      Tomara! A melhor coisa que alguém com coragem faz é isso que você fez. Lembre-se, os bolsonaristas olavetes não possuem essa coragem.

  4. Guilherme Hajduk
    03/09/2018 at 13:05

    Paulo, eu assisti agora o seu vídeo sobre neoliberalismo e as utopias dentro da literatura filosofia e não pude deixar de te perguntar: essas filosofias não passam de uma espécie de masturbação mental dentro de um livro? É bom ficarmos só na teoria das coisas sem aplicá-las, mesmo que aos poucos? Os filósofos pensam realmente assim (escrever livros para divertir outros tontos — digo, tantos — filósofos e afins que só vão ler e ficar pensando no assunto depois por algum tempo até ter outra distração para tomar o lugar desta)? Você fez toda uma carreira em filosofia apenas para se tornar alguém capaz de participar de uma brincadeira, de uma turma, de uma “rodinha” em que um diverte o outro — e não passa disso, afinal ninguém está muito afim de sair da teoria utópica, do joguinho, para ir de fato para o mundo real –? Nisso tudo, o que eu acertei, o que eu errei?

    • 03/09/2018 at 13:33

      Tá piorando Hajduk, e muito: A utopia virou “masturbação mental”. Quando você lê o conto do Machado de Assis, o Espelho, que é nitidamente filosófico, é masturbação mental? Quando você lê a República, de Platão, é isso? E quando você lê a Bíblia cristã do novo testamento, quando Jesus prega o reino do amor, é masturbação mental. Você não leu o que indiquei, o Rorty, no texto que falei. Mas o mais estranho é que você é bem alfabetizado. Mas seu professor de português esqueceu o principal, de lhe ensinar gêneros literários.

  5. Guilherme Hajduk
    01/09/2018 at 13:59

    Aprendendo Marx na universidade, em casa ou no banheiro enquanto caga: você, Paulo, a pessoa, não o professor da USP, acredita que depois da ditadura do proletariado tudo se encaminharia maravilhosamente — já que não teria mais classes sociais — rumo à “liberdade” (que liberdade é essa, afinal?), que as pessoas iriam fazer tudo pensando coletivamente e organizando a produção por altruísmo, que não haveria discordâncias entre os diferentes grupos que estariam pensando nos seus iguais antes dos “outros iguais”… enfim, coisas desse tipo?

    • 01/09/2018 at 21:43

      Hajduk sua pergunta não tem sentido. Se perceber que não tem sentido, então estará apto a começar a ler filosofia. É incrível que leitor meu ainda esteja nessa! Bem, como sou professor, tenho a obrigação de continuar a saga. Se quiser sair dessa situação em que está, leia com atenção, para pegar o espírito de como se lê a literatura chamada filosofia, o Duas Utopias, de Rorty. PS: não há diferença entre Paulo e o professor Paulo e o filósofo Paulo.

  6. Guilherme Hajduk
    31/08/2018 at 18:35

    “Essa ditadura terminaria com as classes sociais, libertaria tanto a “burguesia” quanto o “proletariado”, e prepararia a sociedade para viver livre, tendo como objetivo o fim do estado. Os homens em liberdade e igualdade organizariam a produção coletivamente. Nasceria aí um novo homem, com sentimentos transmutados e capaz de usar seu tempo, então cada vez mais livre do trabalho, para a fruição das bonanças do trabalho que, enfim, sob novas regras, iria render mais e ampliar a liberdade humana.” — Quanta ingenuidade! — Ta certo, entendi que fizeram cortes na filosofia do Marx, comeram etapas, agiram apressadamente, alguns até criticam sem nem o entender e tudo mais; mas você não acredita nesse desfecho político milagroso, acredita?

    • 01/09/2018 at 09:36

      Sinto lhe informar Guilherme que o único ingênuo e, nesse caso, me desculpe, despreparado para ler filosofia, é você. Apague isso para não passar vergonha. A filosofia precisa ser aprendida na universidade, com bons mestres. Só então se entende que tipo de literatura ela é.

  7. Luiz
    31/08/2018 at 12:17

    Ótimo artigo, esclarecedor. Marx era filho do iluminismo, o estereótipo de um filósofo ortodoxo não combina com ele.

  8. Gilberto Mucio
    31/08/2018 at 11:37

    Texto muito ruim. Nunca estudou a revolução russa, a guerra civil, e a contra-revolução — processo de burocratização do partido, e a posterior ditadura de Stalin. Reduz Lenin ao stalinismo, quando na verdade são o oposto.

    Faça o dever de casa.

    • 01/09/2018 at 09:41

      Mucio, toda vez que escrevo alguma coisa que ofende a Seita, os que receberam Marx ou Nietzsche por psicografia, surge um cara como você aqui. Mas veja, o seu dever de casa é mais básico, deve antes terminar o ensino fundamental. Achar que Stalin nasceu sozinho, sem o leninismo já ter matado os anarquistas é ser burro e desinformado.

  9. Eduardo Lima
    30/08/2018 at 23:59

    Você conhece algum autor que também faz essa leitura do Marx como pós-liberal e não anti-liberal? Ou você mesmo já escreveu outros artigos/livros com essa tese? Porque é muito interessante e tão diferente do que a gente encontra por aí… adoraria ler mais!

    • 31/08/2018 at 11:26

      Isso é banal para a minha geração. Dezenas escreveram sobre isso.

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