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27/06/2017

Como funciona a mente tosca do fanático?


A direita tem produzido algumas figuras esquisitíssimas. Gente tosca, mas com uma articulação discursiva aparentemente de alfabetizado. São adultos tipicamente infantis, ainda que pronunciem frases caracteristicamente de adultos e falem sobre assuntos de adultos. 

A tese dessas que aparecem na Internet criando grupos de extrema direita e, não raro, em manifestações de panelaços por aí, é a seguinte: não se pode conversar de nada que o Chefe não queira, pois significa que há aí uma tentativa de ir se falando devagarinho e de mansinho de coisas bárbaras, que “destroem a família”, e que então, depois de um tempo, pimba! – servirão para deteriorar  a moral de todos, pois terão feito as pessoas se acostumarem com barbáries. Então, a família já estará deteriorada, e eis que ocorrerá o nosso fim e o fim de toda a sociedade. Todos estarão acostumados com qualquer barbárie e então cairão desguarnecidos diante do “golpe comunista” (!), uma vez que “os comunistas se baseiam no fim da família para instaurar um regime odioso, sem Deus”.

É ridículo isso, claro. Não só pelo conteúdo, mas pela lógica: no limite, não se poderia falar de nada, nadinha, pois tudo viria no sentido de preparar a mudança do status quo. Tudo teria de ser antes avalizado ou não pelo Chefe, para saber se se trata ou não de uma fala mansinha que visa deteriorar a família. Ou seja, o adepto dessa tese maluca pega um elemento que a longo prazo pode ser verdadeiro (por exemplo, as mudanças que o cristianismo causaram no mundo, pois efetivamente falaram de outra coisa, pediram o amor ao invés de justiça), transforma numa teoria da conspiração, e envolve um fantasma da cabeça dele, o comunismo, para dizer que uma tal mudança, nesse sentido, está em vigência. 

Então surgem os ridículos elevados ao quadrado. Olha só o que sai da boca de gente assim, da extrema direita: “vejam como a Rede Globo vem colocando gays nas novelas, e então, aos poucos, logo a família não terá mais nada contra os gays e estarão aceitando filhos e filhas querendo ser homossexuais e lésbicas, exatamente pela influência das novelas”. Viram como funciona a coisa na cabeça do fanático? É um pensamento infantil, mas o que o torna engraçado é que está na boca de marmanjos.

Esse modo infantil de entender as mudanças é próprio de um certo tipo de pessoa que passou pela má escolarização ou desescolarização. Trata-se do indivíduo que tem lá suas perturbações, mas que sai da escola alfabetizado, todavia, sai muito cedo e então começa a ler coisas acima do seu entendimento. E eis que fica desse modo: fala palavras de adulto, mas a compreensão é ingênua, tosca, e então, como é adulto e não criança, aparece como um tipo meio débil mental, meio esquisito. Esse tipo prevalece na nossa extrema direita atual e, não raro, é alimentado pela direita dita culta e normal (não raro, encontramos em sentido inversos coisas parecidas, na esquerda, também pedindo censura, pela via do “politicamente correto” – repare com esses extremos de fanatismo se encontram.)

É difícil para esse tipo de pessoa, principalmente depois de mais velho, conseguir absorver uma exposição mais complexa, a de que os movimentos históricos e os movimentos de ideias possuem muito mais mediações que podemos prever e imaginar, e que nenhuma pessoa ou grupo tem o poder de fazer vingar ideias determinadamente, e por isso mesmo é ridículo tentar interromper a dinâmica da cultura por temor ao futuro. Não, o dono do tipo de pensamento é mágico, infantil, não consegue compreender essa dinâmica histórica complexa. Ele age mais ou menos como aquelas pessoas antigas da zona rural, que diziam para as crianças não falarem a palavra “demônio”, pois ele apareceria, ou coisa do tipo.

É impossível reverter uma pessoa adepta desse modo de pensar para o modo de pensar correto, normal. O estrago é feito na infância, e é um dos estragos que tem se mostrado, em todos os estudos que conheço (na Europa e nos Estados Unidos há pesquisa sobre fanáticos, que pensam assim), como praticamente irreversíveis. A estimativa americana sobre isso indica que 15% de uma população de uma país industrial moderno pode ser vitima de tal coisa, em um grau bem acentuado, e mais 15% em um grau menos acentuado.

Temos de conviver com gente assim. E não são poucos. 30% de uma população eleitoral pode eleger um presidente. No Brasil, gente desse tipo diz que essa forma de falar devagarinho para um dia deixar a família a descoberto tem mais uma pérola: isso seria uma invenção de Antonio Gramsci, um deputado comunista italiano, morto em 1937, que teria milhões de adeptos aqui no Brasil. Pois É!

O mais engraçado disso tudo é a auto-proteção mental desse pessoal. Eles podem ler esse meu texto e então ficarem mais convencidos ainda do ponto de vista deles, pois dirão: “vejam que esse filósofo aí, o Paulo Ghiraldelli, está tentando dizer que não existe essa conspiração que os gramscistas estão preparando”. Caso se diga para eles que ninguém mais é comunista, então mais ainda eles se convencerão que o Chefe está certo, pois o Chefe já avisou que nós estaríamos sempre mentindo! E assim rodam em círculos, impenetráveis.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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4 Responses “Como funciona a mente tosca do fanático?”

  1. claudio dionisi
    21/05/2015 at 16:14

    Para estes até o movimento negro é conspiração comunista!!!

  2. Lilian
    21/05/2015 at 09:35

    Ótimo texto Paulo .

    • ghiraldelli
      21/05/2015 at 10:15

      Conseguiu pegar as figuras né Lilian?!

  3. Tiago
    20/05/2015 at 19:33

    Belo texto. Vai de encontro com o que discutia com meu aluno na aula de filosofia sobre a teoria da conspiração que esse meu aluno vê em tudo e que as principais culpadas pela inversão dos valores familiares são as novelas da Globo.
    Partilho do mesmo análise que a sua.

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