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22/10/2017

Como ficar inteligente?


Tornar-se inteligente é alguma coisa que tem sim a ver com a escola. Mas o que deve fazer a escola para tal? Que tal testar ensinar a “falsificabilidade”?

Foi Platão quem, pela primeira vez no Ocidente, pediu que se deixasse de ouvir os rapsodos, que diziam a verdade como verdade por conta da autoridade da sabedoria a respeito do passado grego. Ele também solicitou que não se ouvisse os sofistas, que não estavam interessados em saber das coisas por elas mesmas, mas apenas ter resposta pronta na língua para derrotar o outro em um debate. Platão pediu que se pensasse “pela própria cabeça”, ou seja, que cada um chegasse à verdade por si mesmo utilizando do intelecto ou da razão. Pensar por si mesmo tornou-se um lema do Iluminismo e da própria filosofia, e isso quase que se confundiu com o “ser inteligente”.

Mas, enfim, o que é “pensar pela própria cabeça” que seja se tornar apenas um maluco excêntrico? Sim, devemos pensar racionalmente! Mas o que é isso? Temos de saber como fazer isso, de modo que possamos dizer para o maluco excêntrico que ele está usando a própria cabeça, mas de maneira muito ruim. Também nesse caso, Platão esteve à frente do empreendimento, ou melhor, Sócrates.

O procedimento inventado por Sócrates, o elenkhos  ou o “método da refutação” sempre se fez contra a autoridade de outrem e contra a ideia de debate. Para Sócrates, ser filósofo, ou seja, autêntico amante do saber, ser inteligente, era uma empreitada que nada tinha a ver com o debate, e sim com a investigação. Como era a investigação socrática? Como era o elenkhos?  O procedimento básico era o seguinte. Pedia-se que o companheiro pusesse na mesa a sua crença, com toda a sinceridade, de preferência na forma de uma frase. Exigia-se a sinceridade mesmo. Posta a crença, Sócrates oferecia mais uma crença (e depois outra, se necessário), e certificava-se que seu companheiro e interlocutor pudesse dizer que também endossava esse novo enunciado. Feito isso, mostrava ao companheiro que ele não poderia aceitar ambos, tinha de ficar ou com um ou outro, que os dois juntos geravam uma sensação estranha, ou seja, uma contradição. Nessa hora, não sabendo como optar, o interlocutor então entendia que aquilo no qual acreditava era inconsistente. Essa noção ou sentimento novo, chamado de inconsistência, passou a contar entre os gregos como o que era apontado por si mesmo como o de não ter um saber verdadeiro. Sentia-se isso por si mesmo, e isso era de fato poder “pensar com a própria cabeça”. Uma vez treinados, os gregos filósofo começaram a achar muito gostoso brincar com essa … “dialética”, e às vezes até mesmo individualmente sozinhos.

Os homens de ciência fazem isso hoje, de um modo mais amplo, inclusive com apoio empírico. Trata-se do procedimento da “falsificação”, como ensinou Karl Popper. Coloca-se uma tese e, então, todo o trabalho não é no sentido de provar a tese ou defende-la, mas sim de torná-la falsa, atacá-la para vê-la ruir. Um homem de ciência ou um homem inteligente não é aquele que quer provar sua tese e, sim, ao contrário, aquele que consegue os melhores argumentos, afirmações (racionais ou empíricas) para tornar o que pensa e acredita em algo falso. Só é inteligente quem pode ser seu próprio advogado do diabo.

Tudo isso parece fácil, mas a escola cede ao senso comum e, não raro, ao procedimento da política, onde a investigação não vai adiante, só vai adiante o procedimento ou de ouvir a autoridade do rapsodo ou querer participar do debate de perdedores e vencedores, a prática dos sofistas. Definitivamente isso não é algo como “pensar pela própria cabeça” ou ser inteligente. E isso é o que mais vemos ocorrer. A democracia incentiva esse procedimento, e assim faz com a ideia de que a melhor solução é a que sai do debate. Ora, Platão não era um democrata exatamente por isso. A verdade nasce da investigação, não do debate. Sai pelos inteligentes, não pelos reis da firula, da pose. “Pensar pela própria cabeça” é pensar contra si mesmo de modo o mais radical possível. Poucos são inteligente exatamente porque isso não é tão fácil quanto parece.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo, 16/07/2016

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24 Responses “Como ficar inteligente?”

  1. Alexandre
    31/07/2016 at 09:28

    Ler clássicos é uma boa ferramenta neste sentido, pois os clássicos nos dão uma noção mais clara do passado e consequentemente do presente. Ler livros em geral. Estudar sobre o passado, as atrocidades que foram cometidas, as crenças absurdas e os eventos que nos levaram a ser o que somos hoje.

    • 31/07/2016 at 10:11

      Os clássicos não representam o passado, não são história.

  2. Leonardo
    18/07/2016 at 18:00

    Olá, Paulo. Gostaria de saber sua opinião acerca do trabalho do filósofo Edgar Morin, que – parece-me – tem uma obra bastante voltada para os temas da educação e da inteligência no mundo contemporâneo.

    Grato.

    • 18/07/2016 at 18:39

      Particularmente eu prefiro os filósofos que trabalham no estilo de Rorty, Sloterdijk, Derrida, ou seja, mais afinados com os instrumentos das narrativas da história da filosofia.

  3. 17/07/2016 at 01:25

    Paulo, como a ironia aparece neste contexto?

    • 17/07/2016 at 02:11

      Às vezes ela é mais clara do que não caso do julgamento, mas que ela já cabe em algumas perguntas, isso cabe. Ter de acreditar na existência dos homens para por falar em ações humanas já soa meio irônico. Agora, quando Sócrates encontra alguns sofistas (no filme) aí a ironia aparece aos borbotões.

  4. 16/07/2016 at 23:04

    Parece então que estou no caminho certo, não por conta da dialética, mas por conta da oposição ao entusiamo causado pelo desejo de aplausos e de conquistar ao agrado pela maioria.
    Acontece que a verdade não é tão doce como imaginamos, ela é amarga, pois desfaz as nossas ilusões causadas pelos sentidos, é como estar vendo um show de mágicas e todos acreditam no que os sentidos dizem, no entanto o mágico sabe muito bem como criar ilusões e assim como um Mister M. que desfaz em pleno palco aquelas ilusões todos saem entristecidos e calados por saberem que agora não terá mais graça cortar a verdade ao meio!

    • 17/07/2016 at 01:19

      Há algo de correto na humildade de Santo Agostinho. Não que se tenha de segui-la, pois historicamente ela matou o orgulho. Mas, na questão do aplauso, ela tem sim o que dizer.

  5. Marcio Issler
    16/07/2016 at 12:45

    Joao Pedro Dorigam só falta você dizer que é professor….. Daqueles com a cabeça fechada…..

    • Edson
      16/07/2016 at 20:53

      Socrates era mais inteligente que os sofistas? Socrates venceu Gorgias e Protagoras .Quem refutava mais radicalmente?

    • 17/07/2016 at 01:20

      Edson essas perguntas são completamente irrelevantes para a filosofia, para a história da filosofia e, no caso de “vencer” completamente irrelevantes para Sócrates. Você não entendeu uma vírgula do texto. Leia de novo.

  6. Thiago
    16/07/2016 at 11:24

    E para quem já saiu da escola a muito tempo, há uma forma de se praticar essa dialética? Realmente é o caminho mais correto a se seguir.

    • 16/07/2016 at 11:54

      Claro, não é assim que fazemos, depois da escola, para adotar uma posição, uma saída? Não temos que caprichar no advogado do diabo?

  7. José Ildon
    16/07/2016 at 11:17

    Pedro, o texto é fácil. Depende de conhecimentos que não cabe em um texto “deste tamanho”. Você tenta desmontar um texto que não necessita de desmontagens. As suas observações são interessantes. Sugiro que reescreva estas observações criando um texto, mas considerando o que a comunidade filosófica considera a respeito dos envolvidos no texto do Paulo. Um cuidado com Sloterdijk.

  8. Adam Pinto
    16/07/2016 at 10:47

    “O maior ato de coragem é ainda pensar com a própria cabeça”. Essa frase de uma estilista famosa corre as redes sociais em tom motivacional e no melhor estilo autoajuda! Creio que você se opõe exatamente a isso. Não é sair por aí falando tudo que penso, até porque as burrices ditas serão confrontadas. Tento ser fiel aos meus sentimentos. Querer ter razão sempre parece ser a prova da mediocridade. Se acho um homem bonito ou se tenho tesão na inteligência do Ghiraldelli por que não dizer isso?

    • 16/07/2016 at 11:00

      Adam Pênis, tentei mostrar como é “pensar pela própria cabeça”, recorri ao cara que inventou isso.

  9. Joao Pedro Dorigam
    16/07/2016 at 09:12

    Paulo , gostamos de você. Entenda nossa ignorância. O réu deve se ajudar.

    Veja só. Você começa o texto dizendo que a escola ajuda a ser inteligente , mas depois não esclarece como.

    Não me xingue ainda é continue lendo.

    Depois fala em pensar “racional” (usar a razão). Bom, a racionalidade é coisa criada muito depois de Plantão.

    Outra coisa estranha é não falar de Aristóteles quando se tenta mostrar a origem da atividade científica. O pai da metodologia e quem trouxe a dialética para a análise do geral e individual e não a visão abstrata de Plantão.

    Depois faz pouco caso dos sofistas, como se não fosse eles quem permitiu estabelecer todo a base para uma discussão dialética.

    Contudo, o erro mais evidente é dar entender que o que se capta pelas possibilidades poéticas (da sociedade da época) não é bom e não faz parte necessária do processo de depuração científica.

    Outro ponto que causa perpexidadade é colocar que é possível pensar com a cabeça própria. Ora, se estramos pisando em um chão lingüístico, é impossível pensar com a cabeça própria. Nunca seremos Adão.

    Por fim, você não dá nome aos bois e não diz que tudo o que está tentando dizer nada mais é que o procedimento dialético simples que torna o mundo possível dentro da condição de possibilidades. E olha que você mesmo mesmo disse que seu guru (sloterdijk) disse que não somos individuais.

    Guenta aí. Só leia esse final.

    Gostamos de você. Mas, de duas uma: ou você não sabe nada e ironicamente não pensa com a cabeça própria cabeça (acho muito difícil isso); ou tem um texto tão rebuscado que nós, simples utentes, não conseguimos captar onde está o verdadeiro enigma filosófico posto.

    Sei que também pode ser seu filho que escreve esses textos rasos e sua luta para manter o leitor por trabalhar sozinho, pois é notória a qualidade de um texto em face de outro.

    Contudo, mesmo que seja o Júnior, peça a ele para esclarecer o que quer colocar. Diga a ele que não tenha medo de explicitar o caminho que está seguindo.

    Sei que as narrativas textuais às vezes não permite isso, mas , insisto: um mero apontamento bibliográfico já basta para os mortais (não somos imortais como os doutos filosófico) possa pesquisar sobre o assunto.

    Enfim, o texto deve permitir uma dialética e, para isso, o chão lingüístico usado (muitas vezes temporal ao próprio texto em si) precisa ser esclarecido, mesmo que seja breves “ensaios”.

    Não é simplificar, pelo amor de Deus. É dificultar, mas com esclarecimentos.

    Isso é o mínimo que se exige de um educador e pesquisador.

    Abraços.

    • 16/07/2016 at 10:35

      Pedro o texto é fácil e didático. Leia-o mais vezes. Vá tentando. Se depois de três vezes não der, eis minha sugestão: tente trabalhos manuais, não tente nada que exija leitura e uso do cérebro. Há pessoas que podem ficar inteligentes, outra não. Seu caso pode ser o segundo.

    • Lívio
      16/07/2016 at 10:52

      João bem que podia aprender um pouco de concordância primeiro né??

    • 16/07/2016 at 10:59

      Lívio, é dureza né?

    • WILLIAM EUCLIDES
      16/07/2016 at 12:13

      Ótimo texto! Obrigado pela perseverança na luta contra a burrice, Paulo.

    • 16/07/2016 at 13:31

      William, é duro né?

    • Franklin Mariano
      16/07/2016 at 17:11

      João Pedro, teu cérebro parece que tenta acertar em algo mas não consegue. Voçê tenta captar algo.Lê e acha que entendeu. Chega perto de Aristóteles e repete clichês. Chama Platão de Plantão .

      Seu lugar é na Pós-graduação e na psicopedagogia. Voçê será um bom objeto de estudo para um psiquiatra e para um psicopedagogo que quisesse entender alfabetização incompleta.

      Como se chega a isso ? voçê é uma promessa da Medicina , joão Pedro. Continue escrevendo.

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