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23/10/2017

Como entender o tal capitalismo?


O que é o capitalismo atual? Ele permite uma análise que o tome pelo lado do sujeito?

O capitalismo trouxe duas tendências para a sociedade que, então, se tornou a sociedade moderna: por um lado, gerou o ímpeto para o risco, a participação no jogo de sorte e azar que é requisitada a todos; por outro lado, gerou a tendência para o desarmamento geral, para a participação na requisição da paz.

Essas tendências são antagônicas, claro. Mas, ao mesmo tempo, foram uma demanda conjunta do capitalismo.

Para existir o livre mercado as pessoas precisaram deixar guerras religiosas de lado, tiveram de abandonar conflitos étnicos, e então fazer vigorar a paz. Fez-se necessário uma suavização das relações e, enfim, tornar real o que Locke chamou de “tolerância” – o requisito central do liberalismo social e político para a vigência do liberalismo econômico.

Para existir o livre mercado capitalista foi necessário que toda a sociedade viesse a pegar gosto em participar de “empreendimentos”, “empresas”. O capitalista tornou-se, claro,  sinônimo do empreendedor que corre risco, aquele que investia dinheiro em algo que deveria dar certo, mas que podia muito bem não dar. Os não-capitalistas, por sua vez, já estavam sem a terra, e também, então, foram os obrigados a fazer uma aposta que dependia da sorte: tiveram de viver por conta de sua própria inteligência, dotes, habilidades e saúde.

A modernidade capitalista é, então, o lugar em que a sorte se impõe junto com a paz. Há coadunação de linhas aí, mas só à primeira vista. Pois a competição é ferrenha, e mesmo que não leve à guerra, estabelece conflitos, enquanto que a paz, por sua vez, significa viver sob garantias de controle do azar, viver como quem pode se sentir num campo imunizado. A paz deve gerar o tédio, a competição deve gerar o entusiasmo.  O que à primeira vista pareciam ser forças harmônicas em benefício do capitalismo se mostram, então, como elementos praticamente antagônicos na regência da modernidade.

A modernidade tardia tem tentado consertar essas divergência criando uma forma de vida de risco em conjunto com segurança máxima. O risco calculado aparece no capitalismo por meio das Companhias de Seguro, que visam reintroduzir no mundo caótico a força do destino e do plano traçado. O trabalho como entretenimento e o próprio entretenimento como trabalho aparecem para reintroduzir na sociedade onde tudo é calculado para ser seguro como um canção possível da última leva de aventureiros. Posso participar de um vídeo game ou de uma loteria ou de uma gincana no trabalho. Estou entusiasmado com essa pequena aventura, com esse entretenimento, mas, é claro, não se trata da situação de verdadeira emoção de Colombo ao se lançar ao mar e nem da aventura dos quartos filhos do senhor feudal, que não podendo ser herdeiros ou guerreiros ou padres tinham de virar trabalhadores livres ou burgueses no burgo.

A sociedade capitalista de hoje é a sociedade da paz, do entretenimento, mas, sendo capitalista, precisa preservar ao menos alguma coisa do espírito de empreendimento. O próprio entretenimento pode criar tal situação. Desse modo, do lado da segurança e da paz, geramos pessoas que querem processar todos que lhes venderam algo sem garantia máxima. A moça entra no avião todo dia e então adquire um problema na coluna após vários voos, e logo processa a companhia por lhe ter produzido esse problema de coluna devido às cadeiras desconfortáveis. A companhia, aos olhos dela, teria de ser previdente! Ela exige que a vida não lhe dê surpresas. A vida precisa ser um tédio. Mas, ao mesmo tempo, essa moça sai para trabalhar toda semana do outro lado do mundo, e isso lhe soa como uma aventura, e seu trabalho é, na verdade, uma semi aventura – ela faz parte de um grupo que organiza jogos de futebol pelo mundo, e seu filho é um produtor de games de futebol. Pronto, estamos aí numa situação de uma família integrada ao jogo de segurança e paz junto com empreendimento e aventura. Mas, vemos bem, em um grau muito baixo de adrenalina, se pensarmos em Colombo e nos filhos saídos do feudo em direção ao burgo.

Essa economia de afetos e emoções de nosso tempo, e que passa por todos os poros do capitalismo atual, nos faz modernos, sem dúvida, mas completamente diferentes dos modernos dos tempos iniciais. Caso não possamos prestar atenção nessas alterações de sentimentos, e nos fixarmos sempre, na análise do capitalismo, apenas sobre o que ocorre com a produção e a circulação de mercadorias, não estaremos entendendo nada de nós mesmos e do próprio capitalismo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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3 Responses “Como entender o tal capitalismo?”

  1. Roberto
    26/05/2016 at 16:18

    Isso que você falou sobre aventura de baixíssima adrenalina, me lembrou da razão de eu andar de moto e de pretender continuar andando, mesmo após comprar um carro, pois esse último, embora seja mais confortável e seguro, proporciona mais estresse, pelo fato de a todo minuto ter de parar atrás de outro. Com moto pode “costurar”. Isso não é grande coisa, mas se tirar isso de mim, minha vida fica um completo tédio. Obs: Não ando de moto pra me aventurar e sim para me deslocar de forma barata e ágil, mesmo que “perigosa.” O seu artigo aponta o porquê do meu risco.

    • Matheus
      27/05/2016 at 00:35

      Gostei do comentário, me permite fazer uma metáfora com ele?

      O homem moderno de hoje é aquele que anda de carro todo dia, porque é mais seguro (menores riscos, maior previsibilidade, conforto, autopreservação), mas de fim de semana, passeia de moto “costurando” e acelerando, porque precisa de alguma adrenalina, mas só em lugares mais seguros e pouco movimentados.

      Esse homem ideal contemporâneo tem que ser meio riquinho porque ter moto e carro não é pra todos, rs

    • Roberto
      27/05/2016 at 19:15

      Eu poderia responder sua metáfora de diversas formas. A começar dizendo que não quis montar um modelo ideal de homem contemporâneo. Apenas me identifiquei com a noção de um patamar mínimo de adrenalina. E outra, tenho apenas uma Biz, quanto ao carro popular, este é um sonho de consumo. E mesmo que tenha os dois, não me farei rico com isso. Agora se vc me comparar com a maioria dos brasileiros, aí sim, sou riquinho, o que pra mim é um elogio.

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