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19/08/2017

Como denunciar a ideologia?


Como trabalharmos em filosofia no sentido de evitar o caminho ideológico e, além disso, denunciar a ideologia e suas artimanhas?

Ser de esquerda é estar do lado dos pobres, falar da justiça como justiça social em favor de igualdade de oportunidades e requisitá-la, além de se embrenhar por uma política que proteja os mais fracos da humilhação dos mais fortes.

Ser de direita é estar do lado dos ricos, falar da justiça como justiça criminal, tomar a liberdade individual e a liberdade de mercado como associadas e, por conta disso, ver nessa associação a chance de se ter uma sociedade mais desenvolvida e, assim, melhor para todos.

Eis aí dois conceitos a respeito de direita e esquerda. Para falar no meu jargão: eis aí duas descrições de direita e esquerda com pretensão ampla. Qual o problema dessas descrições? O problema não está nelas, mas na aceitação de uma delas por quem advoga a posição política contrária.

A primeira frase é aceita por todos. Trata-se da referência histórica (espacial), vinda da revolução francesa, e se a alteramos então as noções se esvaem desde o início. As palavra “ricos” e “pobres” aí não têm nenhum valor, devem ser tomadas unicamente como descritivas mesmo. Mas o que segue, mesmo para analistas inteligentes, às vezes é de difícil entendimento, porque eles rejeitam a atividade conceitual (segundo alguns filósofos) ou a competência descritiva (segundo filósofos como eu). Quando isso ocorre, passa-se da atividade intelectual em termos cognitivos para a atividade ideológica. A ideologia dá um passo largo quando consegue apreender de um lado o descritivo, e com isso abrir espaço para um elemento científico, e então, logo em seguida, pode ceder ao não descritivo, já no bojo da argumentação não científica. Eis um exemplo, tirado de um texto que dizem por aí que é de autoria de Frei Beto:

“Ser de esquerda é optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social, inconformizar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar aberração a desigualdade social. Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros” (Frei Beto)

É fácil ver aí o que é o truque ideológico: a esquerda é tratada conceitualmente, descritivamente, enquanto que a direita é tratada descritivamente do ponto de vista exclusivamente empírico, ou seja, não conceitual. Em outras palavras. A esquerda definida acima no cartaz é a esquerda enquanto esquerda, sem referência a qualquer grupo particular, a direita definida acima é a referência a algum grupo particular. Em uma linguagem ainda mais clara: a esquerda acima é a esquerda sem desvios conceituais, a direita abaixo é a direita fruto de todos os desvios conceituais. A esquerda acima é fruto de uma descrição, a direita abaixo é fruto de uma conotação.

Basta inverter a façanha do texto acima, e o truque é desmontado. Por exemplo: crie um falso conceito ou falsa descrição da esquerda, pegando um grupo qualquer, historicamente datado, e utilize os discursos desse grupo para montar a definição de esquerda. Não estou falando de olhar para a prática não! A distinção entre teoria e prática é um outro passo da ideologia que aqui não discuto. Estou falando da análise do que é efetivamente dito e credível. Mesmo nesse plano, a ideologia já pode ser detectada. Por exemplo: sabemos muito bem que a esquerda, na maioria das vezes, diz que ou o Estado se põe interventor para equalizar as diferenças classistas ou não há boa sociedade. Ora, sabemos bem que o estado interventor, mesmo quando intervém com a intenção de favorecer os pobres, pode muito bem não fazê-lo. O estado, temos claro, pode simplesmente alimentar a si mesmo e a uma burocracia partidária, ou então servir aliados políticos do governo que nem estão do lado dos pobres, mas que concordam que o governo possa, com pequenas políticas sociais, manter os pobres calados. Isso não é um desvio do estado, isso é a própria atividade do estado. Queiramos ou não, ele faz isso – os teóricos do estado, quase todos eles, nunca desmentiram isso. E Max Weber foi um que analisou bem esse caráter de auto-alimentação de todas as instituições enquanto necessariamente montadas sobre e com burocracias.

Quando fazemos esse tipo de descrição, estamos falando do discurso de um partido de esquerda que defende o estatismo como o que beneficia os pobres. Já saímos da descrição universal ou do conceito. Estamos falando de um tipo de discurso de esquerda. Esse discurso pode ser majoritário, pode até representar o todo empírico, e assim mesmo não é o todo universal, não cabe como descrição universal ou conceitual. Essa é a cunha da ideologia, ela põe a parte como todo e, para se sair bem, coloca uma parte que parece efetivamente o todo, mas não é. Nessa operação há, para falar em termos técnicos, a operação de ideologização.

É isso! Espero que tenha conseguido ser útil. Penso que este meu texto vale tanto para os filósofos que falam que a filosofia tem a ver com a criação de conceitos quanto aos filósofos que trabalham com descrições e redescrições, como é o meu caso. Em ambos os casos, a filosofia tem como função não agir ideologicamente, claro, e, ao mesmo tempo, fazer isso que fiz, que é a denúncia da ideologização.

Pegaram?

Paulo Ghiraldelli

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22 Responses “Como denunciar a ideologia?”

  1. RAMBO
    19/07/2014 at 18:54

    Aproveitando, gostaria de perguntar se tu chegou a ver aquela entrevista épica do Tuma Jr. no programa Roda Viva. Ali tem muita informação.
    Agora, veja essa denúncia-bomba que saiu recentemente no canal do Silas Malafaia. Eita! ! !

    http://www.youtube.com/watch?v=ECUXcCoyy9U#t=144

    • 19/07/2014 at 18:56

      Rambo eu sou um cara inteligente, eu não vou escutar Tuma Jr. meu caro. Tenho mais o que fazer. Agora se você está preocupado com Silas Malafaia, então eu aconselho a voltar para Tuma Jr. Depois de um tempo, por favor, se mate com um tiro na boca.

    • RAMBO
      19/07/2014 at 19:26

      O que tem de errado neles? Mentiram? A denúncia é sim grave. Assista, não vá pelos outros.

    • 19/07/2014 at 21:50

      Rambo você vem aqui me encher o saco com Malafaia e outros débeis mentais? Porra, tem dó cara.

    • MARCELO
      22/07/2014 at 10:57

      Viu,Paulo?Era aquele
      mesmo Rambo que
      dizia sobre as tais seis
      famílias que faz lavagem
      cerebral em massa
      no povo,etc,etc,etc,
      naquele teu artigo
      Sete a Um!
      Esse Rambo tá
      mais pra Vera
      Verão.

  2. Bigas
    17/07/2014 at 10:39

    Muito bom texto, professor, Me esclareceu e previniu de algumas coisas. Irei utilizá-lo como referência em um artigo.
    Abrçs

  3. Cavalcante
    16/07/2014 at 23:06

    Professor, se considero, conforme Bakhtin, que a linguagem é sempre revestida ideologicamente, que todo signo é ideológico, ao descrever algo, que é a linguagem em uso, eu não estaria agindo também ideologicamente? Pode ser que eu não tenha entendido bem (talvez seja isso), mas parece-me que aqui há o implícito de que se pode escapar da ideologia, ser não ideológico. É isso mesmo?

    • 17/07/2014 at 01:33

      Cavalcante minha noção de ideologia aí e a tradicional de Marx, também aceita de um modo geral por outros filósofos. Veja, você está sempre na terra respirando o ar que o envolve e não pode sair disso, isto é, deixar de respirar o ar e ver como é. Mas isso não o faz ignorante quanto à existência do ar.

    • Usp10
      17/07/2014 at 13:08

      Ótimo texto professor! O senhor tem como indicar algum livro que aborda essa questão da ideologização?

    • 17/07/2014 at 13:47

      Uso10, este modo que fiz é o da velha guarda, nós que somos filósofos vindos dos anos setenta e oitenta, preocupados com aspectos técnicos da ideologia, que hoje caíram de moda. Mas há algo prático que você pode ver no meu livro “A filosofia como crítica da cultura” (Cortez)

  4. MARCELO
    16/07/2014 at 11:14

    “Pequenas políticas sociais
    manter os pobres calados”.
    Isso se refere as cotas
    raciais,por exemplo?
    Não vejo nenhum desses
    candidatos que estão
    aí falando em melhorar
    a educação.Só estão
    pensando em segurança,
    economia,etc.

  5. lukas
    16/07/2014 at 10:03

    http://www.youtube.com/watch?v=5zdV05zeZqE

    Bacana o texto, sempre penso nas pegadinhas que são armadas.

    No vídeo acima;
    poderíamos pensar em redescrição ou
    ainda seria ideologização?

  6. elie Cohen-Gewerc
    16/07/2014 at 03:55

    dear Paulo
    I agree with your arguments and your clarification of the deep difference between Philosophy and Ideology.
    I wanted only add a small aspect dealing with the seeking for unbiased knowledge: the analysis and understanding of personal and collective responsability.
    To consider facts without the processes which led to, is to serve narrow minded ideology and superficial slogans. We have an abyss between a poorman who did all his best but is exploited by wild economy and one who lost his house and belongings because he “played” his destiny and the future of his family in any casino …

    • 16/07/2014 at 12:49

      Elie, quando eu substituo o todo universal pela parte que parece um todo, tenho ideologia. Mas essa é uma das formas da ideologia. Não todas. Há dezenas de outros mecanismos. E a não-historicidade é um deles, certamente, como você diz.

  7. 15/07/2014 at 22:02

    Professor acho entendi bem seu seu texto. Grosso modo: o inferno continua a ser “os outros” no processo de ideologização. Peço-lhe que produza um vídeo sobre essa abordagem. Interessante a forma como você aborda temas filosóficos oralmente.

    • 16/07/2014 at 12:49

      André, acho que a fórmula de Sartre não cabe nesse caso. Tudo depende dos “outros”.

  8. Wagner
    15/07/2014 at 18:28

    A denúncia da ideologização acaba por ensinar a quem denuncia um pouco mais sobre as sutilezas da censura. Imagino que você não seja bem vindo em veículos muito populares.

    • 15/07/2014 at 19:48

      Wagner nenhum filósofo autêntico é bem visto em veículos populares, se o cara começa a ser bem vindo, ele pode acreditar, está longe da filosofia.

  9. Aílton Nunes
    15/07/2014 at 17:30

    Bem interessante, pelo que entendi(?) é o problema da ideologização que gera a seletividade nas descrições na hora de expôr ideias e opiniões.

    • 15/07/2014 at 19:49

      Aíton, essa é uma forma, a de substituição do todo por uma das partes que parece ser o todo. Há outras técnicas de ideologizaçao.

    • Aílton Nunes
      15/07/2014 at 21:18

      Só conheço essas, infelizmente. Pode-se dizer que tbm são falácias ou estaria resumindo muito?

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