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23/10/2017

Comer carne, abortar e estuprar não pertencem ao nosso futuro


Um futuro que já começou vai ter vida ainda nesse século

Nossa sociedade tem visto diminuir o número de comedores de carne, e isso de modo vertiginoso. Seguindo só pela matemática, em duzentos anos não teremos mais ninguém se alimentando de animais. Também temos feito cair o número de abortos deliberados de maneira bastante rápida e significativa. O estupro é uma prática mais antiga, arraigada, mas, olhado de uma perspectiva mais ampla, com o tempo contado de modo diferente dos dois casos anteriores, também traz estatísticas favoráveis. Ao contrário do que querem alguns jornalistas travestidos de filósofos, quanto a esses aspectos o mundo está se tornando menos bárbaro.

Levando dados desses feitos a sério, podemos dizer que caminhamos no interior do projeto da modernidade. Nossa sociedade de mercado exige paz, suavidade e uma competição que não tolera termos inimigos, pois devemo tê-los antes de tudo como adversários, competidores. Ao mesmo tempo, o que chamamos de capitalismo só é o que é, agora, pelo desenvolvimento tecnológico, um mundo no qual toda a leveza pode ser instituída. A abundância e o mimo institucionalizado nos empurra para tais mudanças. À medida que sofisticamos nossos hábitos, passamos a comer melhor e ao mesmo tempo trazemos para o interior de nossas casas alguns animais, de um modo a considerá-los como “um de nós”, e logo em seguida ampliamos nossa caridade para com eles e, depois, compaixão. Assistiremos logo, ainda nessa geração, um grupo grande, em todas as cidades do mundo, proprietários de uma mudança completa dos hábitos alimentares, o que resultará numa mudança do panorama rural, nas indústrias, no design das cozinhas e, portanto, das casas. O holocausto dos animais está com os dia contados, e nossa forma de preparar nossas refeições, também. Uma indústria nova de eletrodomésticos e produtos alimentares industriais está já no horizonte. As alterações farmacêuticas decorrentes disso também se farão sentir e novos profissionais aparecerão. Isso sem contar a indústria e a prática veterinária. Grandes hospitais veterinários muito parecidos com os nossos hospitais humanos, então já todos automatizados, surgirão em todas as grandes cidades do mundo.

O fim do aborto provocado dará também outro panorama para a constituição das famílias. O planejamento familiar se desvinculará do aborto, como hoje aparece na consciência da classe média. A sociedade da abundância, como já vem permitindo em vários lugares do mundo, dará para nós não só a queda da natalidade, mas também a opção pelo aumento temporário da natalidade, segundo desígnios de maior liberdade. A construção de famílias inteiras envolvidas com dezenas de opções para o nascimento bem sucedido e para a eliminação de doenças trará uma relação diferente entre médico, hospital e clientes, e isso gerará uma vida completamente distinta. O mundo da infância se ampliará e o mundo de relacionamento entre infância e pais e animais requisitará outro tipo de urbanização. Os shoppings não terão só áreas infantis, mas serão grandes parques de diversão para cães, pais e crianças. Os ambientes continuarão a se tornar mais “clean” ainda, e as formas de automação se ampliarão também para servir crianças e animais. Menos mentalidade adulta e menos consciência trará necessidade de mais automação para todos. O mundo para crianças e cães será o mundo dos adultos, que também estarão, em geral, a se esforçar menos mentalmente. Haverá uma estranha docilidade de trato, ainda que um grau menos sofisticado de inteligência.

A violência sexual deverá cair de modo mais veloz que até então. A casa estará meno privada, e isso não por leis estatais capazes de atravessar a soleira da porta, mas pela tendência planetária de visibilidade imposta pela nova mídia, em especial pelo modo que a Internet irá extinguir de vez o que conhecemos como intimidade moderna. Esta ganhará contornos totalmente outros. O uso da pornografia aumentará e também dos estimulantes sexuais, exatamente pela baixa libido em geral da população, mas a agressão sexual irá estar mais controlada e, de certa forma, também as possibilidade de reserva de lugares especiais para a bestialidade serão disponibilizados por meio do pagamento individual. Claro que a cultura da mágoa e do fracasso pessoal, que levam ao abuso sexual e à violência doméstica persistirão, mas a maior liberdade criada pelos dois outros fatores considerados, gerará um clima de menos crueldade em todos os lares. Essa suavização não virá pelo simples aumento da bondade, em sentido cristão, mas pela inexorável maneira de nos expormos. Nossas casas estarão monitoradas não mais só por espelhos, como crescentemente fizemos a partir do final do século XIX, mas por câmeras de todo tipo, para nós mesmos e para outros. E isso não só com o nosso consentimento, mas com o nosso desejo e incentivo. A fragilidade dos frágeis estará menos frágil assim, pela democratização do Big Brother.

Em uma sociedade assim, que será vista ainda agora, em meados do século XXI, e que já é possível de ser sentida em Tóquio, Nova York, Londres, Paris, Berlin e São Paulo, terá de desenvolver, como já vem fazendo, contrapartidas de modo a trazer novo tipo de peso. Pois uma sociedade moderna está sempre sob a regra da “insustentável leveza do ser”. Um realidade leve não é realidade, acreditamos nós todos. Então, os pesos serão de outra ordem, teremos mais tempo para falar de novos entretenimentos, novas doenças, novos cuidados com filhos cães e, enfim, com a ampla difusão de treinamentos individuais, ginásticas particulares de todo tipo e assessores para tudo, disseminados entre camadas que, apesar de terem mais tempo de sobra, estarão querendo aprender sem o ônus do esforço da aprendizagem. Esses assessores serão necessários, uma vez que estaremos todos alinhados por uma subjetividade menos profunda e menos reflexiva. Existirá uma tendência à automação da assessoria, mas, em vários casos, ela será exercida de modo padronizado por humanos. A literatura de auto-ajuda e esoterismo crescerá ainda mais. A mundo imagético dará o tom para todas as nossas relações. Essa vida não será a vida no paraíso. Continuaremos na Queda de Adão e Eva. Mas, sem dúvida, não estaremos em um mundo dos militantes de partidos políticos de hoje, muito menos dos jornalistas. Pois ninguém discutirá coisas como “socialismo” versus “capitalismo”. A divisão entre ricos e pobres não trará necessariamente uma imposição à condução da política, ainda que a ampliação da distância entre um e outro possa aumentar.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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3 Responses “Comer carne, abortar e estuprar não pertencem ao nosso futuro”

  1. Orquideia
    05/06/2016 at 13:40

    Também gosto de ser utópica,prof.Ghiraldelli,mas a urbanidade excluiu o direito dos “mais fracos” irem e virem com segurança.
    Crianças não ficam na rua nem na frente de casa mais,animais permanecem presos em quintais e garagens. [antes passeavam à vontade]
    As ruas estão inseguras mesmo para os que podem se defender.

    Oxalá o mundo descrito pelo sr. visualizado pelos filósofos,e pelos ficcionistas_ chegue depressa ao Brasil,pois estamos precisando dele com urgência.
    Gosto muito desse “futuro”.

    *Sou vegetariana há mais de uma década.

    • 06/06/2016 at 08:15

      Não é umna utopia, é algo já até está andando a passos largos. É que você nota o velho, não o novo.

  2. Valmi Pessanha Pacheco
    04/06/2016 at 11:40

    Prof. PAULO
    Alguns vaticínios, com todo o respeito, impregnados talvez por tons sociológicos influenciados pelo pragmatismo de Richard Rorty, na busca de um aprimoramento do processo civilizatório, trouxeram-me, nada obstante, por favor, à lembrança algumas passagens de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), George Orwell (1984) e Ray Bradbury (Fahrenheit 451).
    Com admiração
    Valmi Pessanha.

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