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20/09/2019

O que é um clássico? O ENEM errou?


O que podemos dizer do exame do ENEM, quanto às reclamações surgidas na Internet?

Em todas as provas, sempre há alguma reclamação. O caso do ENEM não difere de outras provas. Todavia, mais que nos outros exames passados, desta vez alguns grupos se insurgiram contra o exame não pela qualidade das questões ou por causa de serem menos ou mais interpretativas. O questionamento se deu de modo exagerado e por causa do que seriam “questões doutrinárias”.

Ora, como ficamos? Afinal, o que deve ser matéria de uma prova do ENEM? O critério dos examinadores, durante anos, tem se mantido mais ou menos o mesmo. O que um aluno do ensino médio deve saber para cursar a universidade, no mundo todo, é o saber clássico dentro de um determinado nível. Tudo indica que a reclamação vem do fato de que há grupos em nossa sociedade que perderam a noção do que é um clássico.

Platão escreveu a República, e esta é um clássico. Ou seja, ela universaliza o particular. Esse é o feito mágico do clássico. Os grandes autores, os geniais, fazem isso. É assim em todas as esferas. A República fala da Cidade Justa, em moldes antigos (história) e gregos (geográfico-político), mas perfeitamente compreensível e admirável por um japonês do século XXI ou um árabe do século XII (e Kant diria: e qualquer ser galáctico racional). Todos os intelectuais de todas as eras procuraram traduzir e preservar a República. Viram logo que se tratava de um clássico. Platão como um todo se tornou um clássico. Assim, nos vestibulares que lidam com Humanidades, no mundo todo, algum saber que depende da República aparece, direta ou indiretamente.

O clássico é aceito por todos, mas todos, nesse caso, são todos os cultos, ou seja, os que reconhecem criticamente o trabalho do livro em questão no sentido de elevar o particular ao universal. O clássico não pode ser confundido com o popular, que é aquilo que é divulgado e “pega todo mundo” em uma só época, ainda que em diversos locais. Dessa maneira, “Garota de Ipanema” disputa lugar entre os clássicos. Trata-se de algo popular, sabemos, pois agarrou o gosto e a admiração de muitos povos diferentes. Mas será que sobreviverá fazendo isso? Ou terá sido, olhando mais tarde, em larga escala de tempo, algo que acabará sendo tomado como uma moda de um determinado tempo? Uma boa moda, não uma “modinha”, mas ainda assim, uma moda – será? Essa questão expõe bem como que uma obra disputa lugar entre o popular e o erudito para poder entrar como clássico.

O ensino médio é feito de versões doutrinárias, tomadas como verdades eternas, e só em parte tem conteúdos que mostram a luta entre versões. Mas, cá entre nós, nesse nível de ensino, até mesmo a luta é mostrada dogmaticamente. Isso assim é feito por que a ênfase do ensino médio é no saber enciclopédico, geral e básico, que permite ao jovem se transformar em um adulto culto e “de princípios”.

Lidamos com as crianças de modo mais dogmático, procurando socializá-las, enquanto que tratamos os jovens quase adultos de modo a deixá-los caminhar por um maior individualismo, solicitando que sejam capazes de se tornarem críticos. Mas, de fato, é na universidade o lugar da relativização do saber, das perdas de certeza que a duras penas adquirimos nos ensino fundamental e médio. Claro que essa relativização do saber só pode ocorrer se o saber é sabido pelo estudante. Não há o que relativizar (e acrescentar) se o estudante entra inculto na universidade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015). Site: ghiraldeli.pro.br

Aristóteles, Platão e Sócrates em mosaicos no Santuário San Paolo, na cidade de Reggio di Calabria, no sul da Itália:

Reggio_calabria_santuario_san_paolo_particolare_nicchia_destra (1)

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16 Responses “O que é um clássico? O ENEM errou?”

  1. Silvia
    29/10/2015 at 11:43

    Bom texto

  2. Luiz Carlos
    28/10/2015 at 19:51

    Tudo bem com o conceito de universalizar, mas se o aluno tem que saber, o que se entender por universalizar, como está escrito no final do texto. Me pergunto então como um aluno saído do ensino médio, ou mais dramático ainda, dentro do ensino, se ele tem idade abaixo dos 16 anos, como vi muitas “crianças” fazendo aprova. Como ele vai saber sobre uma filosofa, que não é estudada no currículo, e o seu discurso, que na escola também não é passado. Ou seja, ao ver a questão do ENEM, tirada da obra da namorada do Sartre o estudante, tem um susto, por que ele, não está preparado, se quer para marcar entre A,B,C,D,E.

  3. Antero Kowalski
    28/10/2015 at 08:28

    Tá,entendi essa questão do clássico e aceito seu argumento,mas a questão é a seguinte: Vejo muitos militantes de esquerda e feministas “comemorando” tais questões no Enem. Aí eu te pergunto: Será que eles entenderam essa questão do clássico? Duvido. Você também disse que Adam Smith é um clássico. Será que se em 2017, cair alguma questão sobre tal autor os militantes não irão reclamar,sob o argumento de que é uma reprodução do sistema,imperialismo e toda aquela conversa? O problema,ao meu ver é que esse seu argumento,não é o da maioria,os militantes querem é doutrinar mesmo e você sabe muito bem disso.

    • 28/10/2015 at 11:18

      Antero é melhor se preocupar a cada exame em estudar e passar. Imperialismo existe, é um tema clássico na história. Qual o problema? Acorda!

    • Thiago Carlos
      28/10/2015 at 12:33

      Caramba como as pessoas são tolas!
      Elas ficam se preocupando com o que o outro lado vai pensar, antes de entender o que a prova pede que se faça.
      Realmente, o espectro político é o que domina a mente do brasileiro em qualquer situação, nada nesse país pode ser visto sem que haja algum tipo de polarização à direita e a esquerda.

    • 28/10/2015 at 12:34

      Thiago, tá assim agora: saber de politicalha virou saber!

    • Antero Kowalski
      29/10/2015 at 07:34

      Para sua informação,eu fiz essa prova do ENEM em 2011 e “passei”. Imperialismo,hahaha, pode até ser um tema clássico na história,mas não foi sobre isso que citei tal tema,sugiro que leia meu comentário novamente,com mais calma. Não está tão difícil assim de entender.

    • 29/10/2015 at 21:05

      Antero, eu entendi sim, meu comentário cabe ao seu texto, e não era uma agressão. Do mesmo modo que li de novo o que escrevi e o seu texto, faça o mesmo e verá que nosso desentendimento não tem razão de ser. Mas o que eu disse eu reitero. E poderia dizer mais, de outros temas que você citou. Olha o seu trecho: “Será que se em 2017, cair alguma questão sobre tal autor os militantes não irão reclamar,sob o argumento de que é uma reprodução do sistema,imperialismo e toda aquela conversa? O problema,ao meu ver é que esse seu argumento,não é o da maioria,os militantes querem é doutrinar mesmo e você sabe muito bem disso.” Diante desse trecho, que insiste na ideia de militante que quer doutrinar, e que não percebe que em exame desse tipo, vestibular, com a tradição que temos, não há doutrinação (mesmo que se quisesse, seria impossível; nem na ditadura nossos exames foram doutrinadores – é não entender a estrutura de um vestibular achar que e pode doutrinar através de exames em nível superior), eu avisei bem que se cair matéria sobre imperialismo, mesmo que venha carregado de anti-americanismo, ainda assim até eu terei de concordar com a questão. Quando uma questão é inválida, ela o é por razões tão simples que os professores de cursinho logo apontam. Você fez vestibular em 2011? Certo? Tem chão ainda.

    • Pondete
      29/10/2015 at 11:44

      Pô Paulo, o moleque acima não disse que o imperialismo não deveria cair no vestibular!
      Depois é o Pondé que não sabe ler rsrsrsrsrs

    • 29/10/2015 at 21:13

      Pondete, você não entendeu. Bem, com esse nome, eu não esperava muito mesmo.

    • Claudio
      29/10/2015 at 12:42

      Thiago, muito bem colocada a sua crítica. É o que mais tem me incomodado ultimamente nesse país.

      E todo mundo tem sua “opinião política”, envolvendo-a em qualquer discurso.

  4. luiz gonzaga teixeira
    27/10/2015 at 23:59

    não entendi porque o conceito de clássico está relacionado com o ENEM. Há uma questão em particular? Se houver, seria interessante deixar aqui a questão toda.

    • 28/10/2015 at 00:30

      Luiz Gonzaga, tem dó né? Putz, se nem texto simples, direto, jornalístico você entende, o que eu posso fazer?

    • José Silva
      29/10/2015 at 12:03

      Dá vontade de pegar essa pergunta dar um print e colocar noas anais da inteligência humana. kkkkkkkkkk

    • Luh
      29/10/2015 at 09:13

      O_________O’
      Com certeza, vc não leu nenhum texto escrito pelo Professor Paulo sobre essa prova do ENEM. Já tem uns 3, na boa, vai ler que estão ótimos. Ele dá vários exemplos do que é um clássico, como, “A República”, de Platão.

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