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01/05/2017

A cisão entre filosofia e política: ontem e hoje


Por que a política vai para um lado e a filosofia quase que necessariamente para outro? Política não é filosofia. Como ocorreu essa cisão? 

Aristóteles fez do “princípio da contradição” ou “princípio da não-contradição” a base do que chamamos de lógica. A frase “A manga na geladeira está verde” não pode conviver no mesmo espaço e no mesmo tempo, ou melhor, no mesmo espaço linguístico delimitado, com a frase “A manga na geladeira está madura”. Ou uma ou outra é verdadeira. Uma contradiz a outra. Formalmente: A = A e A  ñA.

Esse princípio pode parecer algo escrito nas estrelas, algo do âmbito da harmonia do universo, como a própria palavra grega Kosmos indica (uma palavra que não raro esquecemos que tem a ver com cosmético, o que dá harmonia a um rosto, proporcionando-lhe beleza). Dizemos modernamente que se trata de falar sem se desmentir, e podemos acreditar que é algo natural, que todos nós podemos pensar e falar assim quando estamos exercendo aquilo que nos seria inato e próprio, a razão. No entanto, nós modernos até podemos encontrar alguma regularidade no mundo, mas temos quebrado a cara ao querer encontrar a lógica incrustada no mundo. Aliás, menos ainda podemos crer que todo homem adulto supera mesmo a infância e então vem a pensar logicamente. Ora, se é assim, como Aristóteles formalizou isso de modo relativamente tranquilo?

Hannah Arendt tem uma resposta bem própria para essa pergunta, especialmente colocada não só em A vida do espírito, mas em um texto chamado “Sócrates”, que para nós está em A promessa da política[1]. Trata-se do seguinte: o que Aristóteles trouxe para a lógica veio de uma experiência nossa, individual, a experiência do pensamento, que se mostrou a ele a partir de Sócrates. Em Sócrates tal experiência se fez de um modo peculiar a partir de dois princípios, o do “conhece-te a ti mesmo” (do portal de Apolo em Delfos), e da ideia de que “é preferível sofrer o mal que perpetrá-lo”, coroado pela doutrina de que a virtude pode ser ensinada. Como?

Arendt lembra que nos apresentamos socialmente como Um, mas para pensarmos o fazemos como um Dois-em-Um, ou seja, exercemos o pensamento como definido por Platão, o “o diálogo silencioso da alma consigo mesma”. Nesse diálogo, então, Sócrates, o primeiro a notar a existência clara da consciência, mas sem lhe dar um nome, viu nela a condição do pensamento, a dualidade em nós. Também foi um pioneiro no sentido de cobrar harmonia desses dois personagens do pensamento, que hoje chamamos de eu e o si-mesmo, pois, afinal, eles teriam de viver sob o mesmo teto.

Assim, para Sócrates, alguém que fizesse o mal, teria então de conviver com aquele que, a quatro paredes, pensando, teria de admitir ser mal, o que em geral não somos capazes de fazer. A divisão interna nos é insuportável, ou é suportável, com sofrimento, exatamente em que não pensa bem, não pensa direito. Assim Sócrates acreditava. Sabendo o que é mal, não se pode praticá-lo, pois depois se é necessário, no pensamento duplo, admitir que um dos dois em diálogo é o que cometeu o mal, e com esse maldoso seria necessário dormir. Dormir com um malfeitor, por exemplo, um assassino? Não é algo agradável, não é algo que se deseje. Assim, conhecer-se a si mesmo seria a tarefa para ganhar o saber sobre o quanto se aguenta em contradição interna. Poder ensinar a virtude, nesses termos, seria fruto de que é possível ensinar a pensar de modo duplo, que é, efetivamente, o pensar, o desdobrar do diálogo interno, não raro em oposição, para então, ao se sair para a vida pública e entrar no mundo da ação, reunificar-se no um. Criar aí a identidade – para conviver, agir, poder ser … reconhecido.

Arendt diz que Aristóteles apenas trouxe para o campo do plano público aquilo que era do âmbito íntimo. A contradição fica proibida para a lógica, como para o pensamento que se expressa já publicamente. Nesse sentido, abre-se para a política, a vida pública, uma condição básica: pensar. Quem pensa o faz a dois, internamente, mas termina na expressão por meio de um. Desse modo, se não há pensamento, se os homens não aprendem a pensar e não exercem corretamente a expressão em forma de harmonia, também não poderão entrar em harmonia em grupos. A virtude é o pensar bem, é a não manutenção da contradição (não ser incoerente em determinado assunto em um discurso) que, por sua vez, é originalmente a posição de quem está pensando. Então, então a virtude é a base da política. Homens que não pensam corretamente não fazem política, não vivem a política.

Assim, Arendt mesmo indica que a posição de Sócrates fica bem clara quando se explicita na formulação da ética de Aristóteles, quando este fala da amizade. Eis o trecho:

Cada uma dessas características [as de ser bom e outras, para então ser amigo] encontra-se nos sentimentos de uma pessoa boa em relação a si mesma (…) De fato, as opiniões de um homem bom são coerentes, e ele deseja as mesmas coisas com toda a sua alma (…) ele age assim em função do elemento intelectual que existe nele, e este elemento parece ser o mais distintivo do homem) (…) o homem só deseja possuir o que é bom com a condição de continuar a ser o que é, seja ele como for; o elemento que pensa, existente no homem, parece constituir sua individualidade (…) E um homem assim deseja até estar a só consigo mesmo, pois isto o alegra, já que pensar no passado lhe é agradável e suas esperanças quanto ao futuro são boas e portanto alegres. (…) e seus sentimentos em relação aos amigos são idênticos aos que ele tem em relação a si mesmo (na verdade, um amigo é um outro ‘eu’) (…).[2]

O trecho citado é bem rico de informações. O pensamento do passado e do futuro como o que se faz em tranquilidade e alegria é, de fato, o que o homem sem atos de maldade no seu currículo possui. Mesmo que seja alguém sem qualquer remorso, ainda assim, é difícil não ser alguém que tema que pelo que fez haverá consequências no futuro. Além disso, deve-se atentar no trecho para o modo como Aristóteles define a individualidade, pelo pensamento racional, e a maneira como que devem viver os amigos, que é a maneira harmônica que convivem, no homem bom, o que chamamos hoje de eu e o em si.

Arendt insiste nessa formulação, porque ela vê que Aristóteles entende a política como um condição para a vida, que somos animais de bando, de rebanho (Nietzsche), mas  que a política não é a própria vida. Aliás, esse é o problema de Platão e Aristóteles, segundo Arendt, a saber, o de não viver no ápice do vida comunitária grega, mas no início e no decorrer de sua decadência, em que a vida e o pensamento (coisa íntima), vão para um lado, enquanto que a política (coisa pública) vai para outro. Eis aí a cisão efetiva entre filosofia e política, da qual nunca mais saímos.

Desse modo, na linha de raciocínio de Arendt, Aristóteles e Platão tiveram de articular uma nova forma de viver, e por isso filosofaram, diante da divisão entre a vida do cidadão e a vida do pensador, do filósofo. Ambos tinham em mente o quanto a morte de Sócrates havia marcado essa divisão, entre política e pensamento. O pensamento, base da política, ou seja, da convivência em um campo de amizade, estava então de um lado, e a própria política de outro. Filosofar assim foi o que Platão e Aristóteles fizeram. Eles procuraram ver as possibilidades da cidade sobreviver e da política ocorrer num mundo em que a cidade-estado grego, o lugar em que pensamento e vida estiveram juntos sob a égide de um imediato campo comum, havia se desfeito.

Não obtiveram sucesso, ao menos não sem ter que modificar um dos lados. Como não era políticos e sim filósofos, modificaram o lado que lhes cabia. No insucesso quanto à equação toda, tentaram mexer em um dos parâmetros, e inventaram a filosofia ou reinventaram a filosofia,. Transformaram-na em literatura, em textos, não podiam mais fazer como Sócrates, usar das ruas para pensar, ou seja, para fazer o dois-em-um funcionar. No tempo de Platão e Aristóteles, o dois-em-um realmente ficou para o campo do silêncio. E foi assim que Platão definiu o próprio pensamento. Fazer o dois-em-um funcionar, expondo sua luta, sua … dialética, tornou-se algo das heterotopias, como a Academia e, de certo modo, talvez o Liceu. Mas depois, quando cada filósofo voltava a andar nas ruas, como cidadão, voltava a ser um único indivíduo, agia, não ficava pensando. Mantinha a coerência pedida pela vida da ação. Pensar então, nesse contexto de separação, tornou-se o aplicar de regras para que a contradição viesse a não ser mais expressa. E talvez isso tenha confundido muitos, que não perceberam que uma tal prática seria o resultado, não o próprio pensamento. Quando essa cobrança pelo resultado do pensamento (que é sempre parcial) e não o exercer do pensamento tornou-se uma demanda também no campo do que havia nascido como heterotopia, este então se deteriorou em meras escolas, no sentido de lugar da recitação. Nenhum lugar mais sobrou para o filósofo. A política, então, por sua vez, perdeu a visão de que pensar lhe era o básico, e passou a ser o que é hoje, apenas uma disputa pelo comando do que se imagina poder comandar.

É nesse sentido que, hoje, é tolice um filósofo cobrar-se, como filósofo, a ter posições políticas. Pode ter posições políticas como cidadão, ou mesmo com um teórico da política, mas como filósofo a cisão ocorrida em Atenas não mais se refez, a despeito de Hegel. Talvez a própria existência do projeto de Hegel, de sonho de refazer o já sonhado mundo grego áureo, seja a prova de que nós filósofos fazemos algo que é o contraponto da política. Hoje a política se faz pelo conhecer, e pensar não é conhecer. Hoje a política se faz pela máxima da ciência, da estratégia, seria ridículo aquele que, ao fazer política, pensasse dialeticamente como Sócrates, no seu exercer o elenkhós, deixando-se levar por momentos contraditórios, tentando superá-los, desviar-se deles etc. Sócrates também não foi político, mas o modo como fez filosofia demandava uma polis se fazendo politicamente, de modo que ele podia fazer de toda Atenas sua própria Academia. Sua morte mostrou que esse tempo havia chegado ao fim. E não sendo ele Jesus, não ressurgiu e nem prometeu volta.

Por isso mesmo eu faço filosofia, não tenho como fazer política ao fazer filosofia. Deixo isso para os filósofos que atuam como ideólogos. Eles abundam agora até na direita.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – A filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

[1] O que segue abaixo é, em geral, salvo indicação contrária, a partir desse livro: Arendt, A. A promessa da política. São Paulo e Rio de Janeiro: Difel, 2010, pp. 45-84.

[2] Aristóteles. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora da UnB, 1985, pp. 178-179, § 1166 a-b.

A Era de Péricles - Philipp Von Foltz de 1853

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5 Responses “A cisão entre filosofia e política: ontem e hoje”

  1. Julia
    09/11/2015 at 16:09

    O que poderia ser feito hoje para uma fusão entre filosofia e política?

    • Julia
      11/11/2015 at 16:42

      Sendo os agentes políticos quase sempre desprovidos de pensamento filosóficos como reformar a política no Brasil?

    • 11/11/2015 at 18:08

      Julia, quem faz a política somos todos nós. De todo tipo.

    • Ermenegildo Joao
      19/03/2016 at 20:52

      Ora bem, os políticos não são necessariamente filósofos, todavia há um mal entender de que supostamente os políticos são filósofos. Porém, afirmo eu os políticos são conhecedores da arte – arte de persuadir. Um verdadeiro político tem por condição ter habilidades a arte retórica, a arte de persuadir o povo de modo a atingir um determinado fim. E olhando para o filósofo, este é sem mais, e sem menos um que busca constantemente algumas respostas para a satisfação de algumas questões, por isso diz – se “O filósofo fala, por isso mesmo destrói o mundo. Incluindo o próprio mundo Político”.

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Filósofo