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19/08/2017

Cioran e os fervorosos


Talvez a pior coisa que possamos ter diante de nós são os que querem fazer o bem. Principalmente aqueles que nos querem fazer entrar no paraíso aqui mesmo na terra.

Em “Genealogia do fanatismo” Cioran escreve: “Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses”.[1] Na minha leitura e por conta única e exclusivamente da minha interpretação, com essa frase, o filósofo romeno parece atingir aquele que mais quis nos libertar das figuras do cabeça-dura e do sabichão. O pensador que quis nos salvar dessa dupla aborrecedora foi o inventor da filosofia, Platão. Para este, o rapsodo e o sofista, ou o contador de mitos e o político falastrão, eram o cabeça dura e o sabichão. A figura do filósofo deveria ser um novo tipo de intelectual nessa constelação da vida cultura ateniense.

Para Platão, fazia-se necessário saber antes o que é a coragem que contar sobre os atos de generais corajosos; saber o que é a justiça antes que contar sobre reis justos. Segundo ele, essa foi a busca de Sócrates, ao menos o que imaginamos ser o Sócrates histórico – o Sócrates histórico de Platão. Mas o Sócrates capaz de apontar para o mundo das Ideais ou Formas (ou seja, ou objetos absolutos) e então mostrar o lugar da Coragem, da Justiça, do Belo etc., já seria o Sócrates reeducado por Platão. Este seria o Sócrates como o personagem que teria dado um passo a mais e saído das aporias com as quais Platão finalizou seus “primeiros diálogos”.[2] Vendo assim a história da filosofia, esse Sócrates-Platão poderia realmente ser o alvo primeiro de Cioran. No meu jargão: uma matriz para fanatismos, já que estes, sabemos bem, são feitos por quem tem um altar pronto para a Verdade.

Essa impressão fica mais forte, se acompanhamos o texto de Cioran: “a história se torna um

Rasinari, Romênia, casa em que Cioran nasceu

Rasinari, Romênia, casa em que Cioran nasceu

desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em fabricar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente (…)”.[3] Ora, lendo isso, não há como não se lembrar das variadas intepretações que terminam por afirmar, sempre, como que Platão deu base antes para a nossa religião moderna que para a dos gregos, e de como o Mundo das Ideias ou das Formas (Eidos) nunca foi outra coisa senão uma antessala do céu cristão – dos cristãos cultos, é claro. Na linha dessa interpretação, veríamos também, não sem algum exagero, aqueles que amarram Marx e principalmente Lênin ao comunismo enquanto um novo falso Absoluto. Cioran serviria, então, para afastar de nós não só todo filósofo capaz de construir utopias, mas principalmente o dos que quiseram “realizar a filosofia”, ou seja, trazer o céu para a história, para a Terra.

Podemos dar crédito para tal conclusão e desenharmos Cioran como esse pensador desdenhoso dos que buscam a “felicidade humana”, a chamada “sociedade melhor”? Mais ou menos nesse sentido, ele diz: “só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe são parentes da Inquisição e da Reforma. As épocas de fervor se distinguem pelas façanhas sanguinárias”.[4]

Não é isso uma pancada com bastão de beisebol na cabeça de religiosos, iluministas exacerbados, fascistas e bolcheviques? Não seriam eles todos, enfim, homens que defenderam versões políticas de alguma maneira herdeiras do platonismo? Os absolutos de Platão (mas não toda a filosofia de Platão)[5] não estariam embutidos aí nesses desfiles de homens donos da verdade, gente “idólatra por instinto”? E, se assim é, não temos mesmo que dar o braço a torcer e confessar, junto com Adorno e Rorty que pessoas com utopias no horizonte, pronta para realizá-las historicamente[6], são pessoas com a Verdade na cabeça e, portanto, motivadas o suficiente para pregações e guerras de salvação?

Cioran é ironicamente cruel. Ele vê cada cristão morto não como vítima, mas como mais culpado que Nero. Este, por sua vez, seria apenas alguém que se divertia com o massacre, mas incapaz de criar uma doutrina do massacre, incapaz de elaborar o que os cristãos elaboraram, ou seja, o conceito de heresia. Criar tal conceito foi efetivamente o mais terrível, pois isso não nos deu divertimento esporádico de ver sangue em arenas, mas o dever cotidiano de fazer o sangue jorrar nas torturas de masmorras que jamais poderiam deixar de funcionar. Cioran afirma: “O diabo empalidece comparado a quem possui uma verdade – a sua verdade”.[7] Vamos ser sinceros, nós sabemos bem disso. Sabemos muito bem o quanto se cria de preconceito ao inventarmos de fabricar conceitos, eles próprios já bases para doutrinas do inferno do cotidiano.

Talvez a salvação da filosofia, diante disso, pudesse estar na ideia de Schlick, que ele atribui já a Sócrates: a filosofia lida com o significado, a verdade é negocio da ciência.[8] É certo que os positivistas lógicos tiveram de esperar Quine para verem que haviam transformado, erradamente, também o significado em mais uma peça no “desfile dos absolutos”. Rorty fez parte desses filósofos pós-Quine, como Donald Davidson: nem verdade e nem significado iriam servir de porto seguro para novos revolucionários terem plataformas de onde partir para o mar, içando lá a foice e o martelo ou a suástica, como outrora outros navegantes fizeram com a cruz. Rorty apareceu na filosofia para que filósofos como eu, modificando-o, possam dizer: se quiser matar em nome da Verdade faça isso como responsabilidade sua e não como uma tarefa política que precisa de filosofia. Não precisa. Assassinos deveriam parar de buscar na filosofia formas de conviver com os espelhos e com os rostos de seus filhos.

Cioran pode servir para dizer algo assim, em uma linguagem mais tradicional, mais continental, digamos assim – algo próprio de um romeno com cultura afrancesada. Ele apela para uma via relativamente familiar entre nós. No texto já referido, ele assinala: “Sinto-me mais seguro diante de um Pirro do que de um São Paulo, pela razão de que uma sabedoria de boutades é mais doce que uma santidade desenfreada”.[9] Aliás, diga-se de passagem, Rorty é atento em lembrar que o ceticismo só se tornou uma “filosofia da dúvida”, elaborada tecnicamente, com Descartes. Na antiguidade, concordo com Rorty[10] e Cioran, o ceticismo era mesmo uma “sabedoria de boutades”, ou seja, uma prática de emissão de chistes, uma atitude sempre espirituosa a respeito de profissões de fé. No mundo antigo, não se queria duvidar como Descartes quis duvidar, ou seja, de modo “profissional”. Antes de tudo, o que se desejava era viver com menos seriedade. Viver de modo a não fazer da vida uma saída triunfal e fervorosa da estrada para Damasco, fonte de ataques epiléticos.

Cioran diz falar contra a filosofia, contra os filósofos. Ele faz isso, sim, sem dúvida. Mas abre exceções. Entre os antigos, ele visivelmente ama Diógenes. Entre os contemporâneos, ele deixou bem claro o quanto Nietzsche era uma exceção. Em seus escritos, há um ponto comum entre o acompanhante dos cães e o homem que abraçou o cavalo: o elemento indiferença.

Nietzsche circunscreveu o que chamou de pathos da distância. Os homens em geral são incapazes de não avaliar, de não valorar. É da condição humana valorar e criar valor. O homem é moral. Ou talvez dizendo de modo mais exato: o homem moderno é moral e não toma distância. Não conhece aquilo que Cioran diz que Diógenes procurou, de dia, com uma lanterna: um homem indiferente. A indiferença que Cioran elogia não é o desdém premeditado, muito menos a atitude blasé, e menos ainda um o que se faz na moderna cultura do descarte. Indiferença em Cioran tem a ver com algo que não precisa ser conscientemente assumido, pois é o pathos da distância, aquela postura de Galactus frente ao mundo, condenada pelo seu arauto, o Surfista Prateado.

Galactus e Surfista Prateado

Galactus e Surfista Prateado

Na história de Stan Lee, Galactus é um gigante cósmico que precisa devorar mundos, destruí-los e apanhar a energia para sobreviver. Ele perambula o cosmos assim fazendo. É como um imenso beija flor: funciona com tanto frenesi que não faz outra coisa senão ir de seiva em seiva, glicose em glicose. Não há tempo e, por isso, menos interesse ainda, em saber o que são mundos. Ninguém olha uva por uva para devorar um cacho em uma viagem. A paisagem é vista como paz da alma, cada uva é destruída na boca, isso quando um cacho inteiro não vai para a língua e dentes para um esmagamento delicioso, mas atroz do ponto de vista de cada uva. Diante do planeta terra, ele, Galactus, se prepara para pisar sobre um formigueiro e, é claro, como todos nós, sem qualquer dúvida de que deve assim fazer. Nem lhe passa pela cabeça desviar-se da terra. Quando o Surfista lhe diz que a terra é diferente, que realmente é um mundo, com seres afetivos e inteligentes em sua superfície, Galactus não o entende, e se volta contra o seu arauto. O castigo do Surfista é ficar preso à atmosfera terrestre. Galactus não consome a Terra, apenas pega outra uva do cacho. Para Galactus, que se foda a uva podre, em torno da qual deverá orbitar para sempre a melancólica e patética figura do Surfista.

Eis aí o pathos da distância, eis aí a indiferença. Galactus condena o Surfista a ficar na terra, mas não por querer saber algo de nosso mundo. Ele é completamente indiferente em relação a esse mundo. Quando comemos um cacho de uva na própria parreira, nem olhamos para uma uva que cai de nossa mão. Muito menos contamos quantas ficaram no cacho.

A indiferença é central, fora dela o homem age como quem precisa ser “o acontecimento.” Seria ridículo para Cioran o lema que infesta a literatura de auto-ajuda: “faça a diferença”. Mas, mais que isso, seria nefasta. Pode-se ser diferente. Pirro, Diógenes e Nietzsche foram diferentes. Todavia, não foram playboys ou guerrilheiros ou pregadores, aqueles que buscam antes fazer a diferença que serem espontaneamente o que são. Galactus jamais pregou, escreveu ou defendeu qualquer causa! Mesmo o seu castigo para o Surfista, não foi outra coisa senão um enfrentamento de um nobre cavaleiro contra um pigmeu revoltoso. Galactus nem se deu ao trabalho de eliminá-lo, apenas o colocou numa caixinha de fósforos do universo.

Nessa linha de raciocínio, observo que o mais terrível fervoroso não é aquele que nasceu nas entranhas da doutrina ou da militância, mas o recém-convertido. É na estrada para Damasco que tudo de mais maligno pode ocorrer. Ninguém que tivesse um pingo de juízo deveria procurar sua estrada para Damasco. Mas, infelizmente, os homens que caem do cavalo nessa estrada, e recebem uma benção, saem dali de espada na mão para se colocar a serviço da missão contrária daquela que fazia, e isso com um fervor redobrado. O militante que sai dessa queda. Do fascista do passado à feminista do presente, o que não há é a indiferença, ainda que qualquer um desses possa olhar para um cachorrinho perdido na rua e não lhe dar atenção ou simplesmente achar que aborto é algo que deixa de ser uma morte se usarmos para ele a expressão “é uma questão de saúde pública”. O não indiferente, criado na estrada para Damasco, sai dali como o mais ardoroso amante, tem um coração enorme, mas cujo tamanho, nesse caso, nada favorece. Afinal, está preenchido por uma única coisa: sua doutrina de purificação do mundo. Um coração grande preenchido por uma única paixão é o fanatismo, e é o monstro que se põe diante de um coração que, embora pequeno, se diversifica em seus amores.

Vá e faça a diferença, disse Jesus a São Paulo, segundo o próprio São Paulo, é claro! Caso não tenha dito com essas palavras, eu juro que a intenção foi essa. E São Paulo trocou a espada que decepava cabeças de cristãos por uma cruz capaz de rasgar coração e cérebro de todos. Aliás, nunca ninguém teve a ideia de se masturbar com uma espada, mas com a cruz … Foi então que a Igreja de Pedro se tornou o acampamento militar de São Paulo. Ele foi o único discípulo direto de Jesus sem ter vivido com Jesus. Ganhou status de apóstolo mesmo não tendo estado entre os doze. Fez o papel deixado por Judas: traiu a vida reclusa dos cristãos em favor do lema “vamos lá, vamos fazer a diferença”. Não seremos nunca indiferentes. Sim, não se é indiferente e, por isso mesmo, o mundo torna–se sua propriedade. Ou o mundo se torna um paraíso ou eu farei dele um deserto – todos vão ser bons nem que eu tenha de tortura-los um por um. Assim pensava São Paulo.

Mas nosso desespero seria pequeno se só a estrada de Damasco produzisse “homens do delírio”. Nosso desespero é grande porque o mundo é todo ele uma estrada para Damasco. Cioran diz claramente: “em todo homem dorme um profeta e, quando ele acorda, há um pouco de mais mal no mundo…” E continua: “a loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas do instinto de conservação. Cada um espera o seu momento para propor algo: não importa o quê.”[11]

Nosso desespero está, então, no problema do profeta se confundir com o humano de modo que não sabemos se existe no homem uma outra condição. “Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunica-la aos outros é um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da Salvação torna a vida irrespirável”, diz Cioran. Podemos olhar para todos os lados e notarmos “larvas que pregam”. “Cada instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos: a administração, com seus regulamentos – metafísica para uso de macacos.” “A ânsia para tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional”. “A sociedade é um inferno de salvadores!”. [12]

Há alguém, para Cioran, que escapa disso que, enfim, é a “lepra lírica que contamina as almas” e que na forma sintética exprime o fanatismo? Escapam disso os céticos, os preguiçosos e os estetas.[13] Duvidar, não fazer e contemplar – é isso que produz o homem de Cioran, que está fora do círculo do fanatismo, em que todos os outros se enredam?

É difícil, diante dessa compreensão, não virar na direção de Cioran, ou para nós mesmos, a pergunta sobre a filosofia: o filósofo não tem outra saída senão se considerar um sério candidato ao fanatismo? Afinal, mesmo que um filósofo se torne o primeiro a se livrar do “melhorismo”, não está ele sujeito, pela sua própria condição de filósofo, a se tornar um fanático do não-melhorismo? Não conhecemos filósofos que se tornaram jornalistas pregadores das doutrinas mais conservadoras, em um fanatismo maior do que os “melhoristas”? Conhecemos. Será que eles são menos infernais que os “melhoristas”, ou são tão insuportáveis quanto?

Há alguma trilha para a filosofia, mesmo que contaminada, que não seja sempre uma ladeira pronta para fazer descer alguma militância que, mesmo falando contra o absoluto, não trate seu mundo sem absolutos como ele próprio um absoluto?

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

[1] [1949] Cioran, E. Breviário da decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 13.

[2] Ghiraldelli, P. A aventura da filosofia. Barueri: Manole, 2010, vol. 1.

[3] Cioran, E. Op. cit.

[4] Idem, ibidem, p. 14.

[5] Nunca é demais lembrar que Platão, ele próprio, nunca foi um plantonista fanático. Tanto é verdade que a Academia, após sua morte, se tornou nas mãos de seu sobrinho uma escola cética.

[6] Há os que tratam utopias de modo errado, achando que utopias são projetos realizáveis, e que todo filósofo que projeta uma utopia a quer vê-la realizada. Não é verdade. A utopia é por definição o “lugar algum”, e irrealizável, e assim os filósofos a tomam, ao menos antes do século XIX. É só a partir do século XIX que a palavra utopia começa a se casar com o pensamento histórico e, então, paulatinamente pode ser imaginada como uma idealização, um projeto. Habermas nota bem isso: Habermas, J. A nova intransparência. In: Novos Estudos – CEBRAP, São Paulo: 1987.

[7] Cioran, E. Op. cit., p. 14.

[8] [1932] Schlick, M. The future of Philosophy. In: Rorty, R. (org.) The linguistic turn. Chicago e Londres: Chicago Press, 1992, p. 48.

[9] Idem, ibidem, p. 15.

[10] Rorty. R. Philosophy and the Mirror of Nature. New Jersey: Princeton University Press, 1979, p. 46.

[11] Idem, ibidem, p. 17

[12] Idem, ibidem, p. 15.

[13] Idem, ibidem, 15.

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38 Responses “Cioran e os fervorosos”

  1. Maximiliano Paim
    03/12/2015 at 22:24

    Crer ou não crer em uma verdade? Se a consciência e outros é o meio pelo qual se pode chegar a uma verdade, até que ponto a consciência acompanha uma verdade ainda acreditada? De outro modo: a partir do momento em que se tem uma verdade e dificilmente se quer deixá-la, em que medida atua a consciência??

    • 04/12/2015 at 01:12

      Consciência é reflexão. Verdade é crença. Você pode ter crenças sem reflexão, digamos. “Eu creio que p”. Pronto. É uma crença. Ela pode ser verdadeira ou falsa, somente. Isso lhe dá objetividade. Agora, quando você diz “Eu sei que p”, aí é conhecimento. Conhecimento é crença verdadeira justificável. Entra a justificação, ou seja, maquinações subjetivas. Quando você diz “Eu sei que sei que creio que p”. Eis aí a reflexão a a consciência.

    • Maximiliano Paim
      04/12/2015 at 07:14

      Gracias, professor.

    • Maximiliano Paim
      04/12/2015 at 09:00

      Lendo Foucault agora, apareceu o problema dos perigos intrínsecos da racionalidade científica que, sabemos, busca a verdade e que nem sempre está atrelada a consciência, ou não?

  2. Ronilson Teles de Sousa
    07/05/2015 at 16:55

    Terminada
    a leitura desse texto incisivo e vertiginoso, eu me senti atordoado e sem
    condições de dizer nada, absolutamente nada! A sensação que experimento agora é
    de estar submetido à força de uma pressão insuportável, que me faz sentir a
    proximidade do fim. O silêncio é tudo o que resta! Talvez, a polifonia que
    impera no nosso mundo, seja uma estratégia levada ao limite no intuito de
    escaparmos da loucura que espreita nossa lucidez! Como posso fazer uso da
    linguagem sem falar de verdade, de significado e de razão, sem elevar nada ao
    plano do absoluto?! No momento em que elaboro meu discurso, que
    faço uso das palavras, que ordeno as ideias, que teço minha argumentação, já
    não há como pressupostos as leis do pensamento, princípios lógicos, que servem
    de alicerce, por assim dizer, para tudo o que posso dizer, declarar e enunciar?
    Esse “alicerce” não seria o nosso absoluto, a partir do qual
    analisamos, avaliamos, consideramos e julgamos as coisas, os seres, os eventos
    naturais e sociais?! O conceito de indiferença de Cioran, delineado em referência
    ao personagem Galactus, é possível, digo, viável, para nós, seres humanos?! No
    mais, muito obrigado!

  3. Baltazar Junkie Çangue Bão
    27/04/2015 at 00:38

    Caro Paulo Ghiraldelli, tenho me aprofundado na obra do insone romeno e penso em apresentá-lo enquanto tema para aceitação em um programa de mestrado no concernente ao pensamento cioraniano referente à Morte e ao Nada. Alguma instituição a recomendar? Não estranhe, tive uma infeliz escolha de graduação na qual desconhecem por completo a obra de Cioran e, trantando-se Cioran de um pensador declaradamente contrário a quaisquer “sistemas filosóficos” e não enquadrado em nenhuma escola de pensamento, juntamente com a falta de orientação ao prosseguimento da carreira acadêmica e à escassez de seu nome no meio acadêmico brasileiro, sinto-me mais perdido que cego em tiroteio e, sem pudor ou orgulho, peço-lhe que ao menos indique-me uma instituição na qual o tema será bem-vindo. Obrigado.

    • ghiraldelli
      27/04/2015 at 11:16

      Você tem que procurar não um programa de mestrado, mas um grupo de estudo. A partir daí você vai se integrando aqui e ali com outros que estão lendo a obra etc. O CEFA é aberto a isso.

  4. Francisco Edson
    11/11/2014 at 17:25

    “Respondi, a um estudante que queria saber o que eu pensava acerca do autor de Zaratustra, que deixara há muito de o frequentar. Porquê?, perguntou-me ele. — Porque o acho demasiado ingênuo…
    Censuro-lhe os seus entusiasmos, e até mesmo os seus fervores. APENAS DEMOLIU ÍDOLOS PARA OS SUBSTITUIR POR OUTROS. Um falso iconoclasta, com aspectos adolescentes….Limitou-se a observar de longe os homens. Se os tivesse olhado de mais perto, nunca teria podido conceber nem louvar o SUPER-HOMEM.

    • 12/11/2014 at 09:59

      Francisco dá uma olhada aí no seu português, tá complicado demais. Além disso, sua avaliação do livro precisa comer um pouco de feijão. Pegue os livros da Scarlett Marton. OK?

    • Francisco Edson
      12/11/2014 at 13:38

      Esqueci de citar o autor.
      Cioran: Do inconveniente de ter nascido. página 79. ed. Letra Livre.

      Cioran por ele mesmo, ok.

      Você conhece esse livro?

    • Francisco Edson
      12/11/2014 at 13:46

      Procure conhecer um pouco mais a Obra do Cioran, ok! Essa tradução é de uma editora de Portugal.

    • Francisco Edson
      12/11/2014 at 14:27

      Em Cioran o diagnóstico negativo nunca é seguido por uma indicação, uma esperança, uma possibilidade, um sentido, uma redenção, um caminho. Não há a Ascese de Schopenhauer, o Deus kierkegaardiano, a Revolta de Camus, a Ação sartriana, a Aceitação nietzschiana. Ou seja, Cioran não oferece remédios, consolações.

    • 12/11/2014 at 15:18

      Francisco não existe “aceitação nietzschiana”. O amor fati não é uma aceitação, e o fosse não seria amor. Cuidado com essa vontade de fazer de seu ídolo alguém único demais. Aliás, você está entusiasmado demais, Cioran o condenaria.

    • 12/11/2014 at 15:14

      Conheço bem.

    • 12/11/2014 at 15:14

      Conheço, é o livro que tem ponta no Bolhas, do Sloterdijk.

    • Francisco Edson
      12/11/2014 at 19:18

      A primeira citação é um aforisma do Cioran. Segundo suas palavras ele não compreendeu o Nietzsche, quando ele afirma que Nietzsche demoliu ídolos, porém, construiu outros ídolos?

    • 12/11/2014 at 19:46

      Francisco eu não faço escolástica desnecessária. Mas vou ousar aqui um pouco. Com permissão, então!
      Heidegger gosta de colocar nas costas de Nietzsche uma metafísica. Rorty segue por aí também. Eu prefiro achar que isso se tornou um vício de leitura, não uma boa leitura, uma leitura criativa, produtiva. Agora, no caso da expressão que você usou para Nietzsche, aí realmente ela força um pouco. Mas essa leitura de Cioran, se é que é de Cioran como você diz, não pense que é isolada. Todavia, ainda assim, ela não dá a dimensão que Nietzsche adquiriu na filosofia, na história da filosofia, principalmente mais recentemente. Nietzsche não é um salvacionista. Muito menos um consolador. Se é um metafísico ainda com saudades da esperança, é discutível, como disse. Agora, o que não dá para fazer é reduzir o amor fati à “aceitação”. Daí viria a resignação etc. Apareceria aí nas costas de Nietzsche todo um ramo de posturas filosóficas que não combinam com o amor fati, todo um ranço que é um tipo de realismo que fala “o mundo é assim, aceito”. Ora, mas para Nietzsche o mundo não tem de engolir a frase “o mundo é assim”. Entendeu agora a minha leitura? Nietzsche é um experimentador. Ele assume posturas e as experimenta. Depois, desiste delas, se insurge contra elas. Há pessoas que querem transformar Nietzsche num resignado ou em um esperançoso, mas ele não é nem uma coisa ou outra na minha leitura e na leitura que o meu time faz.

    • Francisco Edson
      12/11/2014 at 20:59

      É só conferir a página 79, do Inconveniente de ter nascido, e verá que é um aforisma do Cioran.
      Segundo o Cioran, Nietzsche foi mais um que criou ídolos. Cioran é o único que não oferece nenhum remédio depois de zombar de todos os ídolos, principalmente de Deus. Ele não proclama a morte de Deus, mas sim o provoca.

    • 12/11/2014 at 23:12

      Francisco acho que você realmente não entendeu Nietzsche ou nem o leu, pegando-o por Cioran. Aliás, a própria tradução do Além do Homem por Super homem não ajuda. Mas, enfim, é o seu caminho. Se quiser um caminho melhor, como disse, veja a leitura da Scarlet Marton. Aliás, eu já conhecia o aforismo citado por você. É ruim, depõe contra Cioran, porque ele mostra que não leu Nietzsche com cuidado. Nietzsche nunca viu o Além do homem, Zarathustra também não, este, por sua vez, só anuncia o Além do homem que, sendo Além, não necessariamente é homem. Tudo leva a crer que não é. O pior ainda é no aforismo é o Marco Aurélio que antes de ser imperador fatigado é um aceitador do mundo, este sim, por dever filosófico. O estoicismo sim é uma aceitação do mundo. Isso tudo que falei não desmerece Cioran. Os filósofos às vezes exageram em caracterizar um sparring. Além disso, respondendo a um aluno, talvez devesse mesmo fazer isso. Talvez fosse um aluno chato, desses entusiasmadinhos. Há entusiasmadinhos por Cioran também, não só por Nietzsche, que mereceriam respostas assim.

    • Francisco Edson
      13/11/2014 at 11:15

      Aceitar que a vida é um abismo. Mas você também é um entusiasmado por dois filósofos dos Estados Unidos, pois você sempre está citando eles em suas leituras de qualquer texto filosófico.
      Agora, aceitar que a vida é um abismo me parece coisa de adolescente tolo.

    • 13/11/2014 at 11:30

      Francisco eu sou um entusiasmado por centenas de filósofos. Você não está entendendo nada! Cara, eu sou filósofo e leitor dos filósofos. Eles são entusiasmantes não pelos entusiasmo da viverem no reino dos céus, mas pela disposição de inteligência que nos dão à mostra. Acorda cara.

  5. Felipe Franco
    05/06/2014 at 01:08

    – Estava agora lendo o Breviário de decomposição e justamente na genealogia do fanatismo lembrei das coisas que você escreve; quando Cioran diz sobre os céticos ( ou os preguiçosos e estetas ) lembrei do que disse sobre a diferença do cético antigo para o novo “cientista atordoado”, seu texto vai me ajudar muito. Obrigado, continue escrevendo.

    Felipe Franco.

    • 05/06/2014 at 01:59

      Felipe, continuarei escrevendo. Claro, meu daimon manda! Obrigado por ler minhas coisas.

  6. Henrique
    30/05/2014 at 16:18

    o indiferente seria aquele que não é besta pra tirar onda de herói, como cantava raul?

  7. leandro
    10/04/2014 at 11:28

    Paulo, esse seu texto foi muito, muito bom. Essa frase foi demais: “Este, por sua vez, seria apenas alguém que se divertia com o massacre, mas incapaz de criar uma doutrina do massacre, incapaz de elaborar o que os cristãos elaboraram, ou seja, o conceito de heresia. Criar tal conceito foi efetivamente o mais terrível, pois isso não nos deu divertimento esporádico de ver sangue em arenas, mas o dever cotidiano de fazer o sangue jorrar nas torturas de masmorras que jamais poderiam deixar de funcionar”. Abraço,

    • 10/04/2014 at 11:42

      Leandro, de fato Cioran nos ensina ficar de orelha em pé com fanáticos. Obrigado por ler minhas coisas.

  8. Cristiane Marinho
    08/04/2014 at 23:58

    Que lindo texto, Paulo! Encantador.

  9. 08/04/2014 at 22:02

    Isso que dizer que, por causa do pathos da distância, Nietzsche e Diógenes conseguem brigar “sem ficar de mal” um com o outro?

    • 09/04/2014 at 09:25

      Nietzsche e Cioran não brigariam. E o pathos da distância não é ser frio ou ser frívolo.

  10. Pedro
    08/04/2014 at 02:10

    Seu “blog” evolui a cada semana: a cada texto e vídeo postado. Ou melhor, você o recria, reconstitui a cada post, como se não tivesse medo de abandonar as formas já expressadas… Fora a “pegada” filosófica, que está praticamente nula no âmbito da internet. Assisti o Hora da Coruja sobre o Robocop refilmado por Padilha, do caralho! Uma análise precisa do cinema nacional… Isso precisa, necessariamente, ser mais divulgado! Grande abraço.

    • 08/04/2014 at 04:54

      Pedro, é que para nós a Internet não é mais a Internet, ela é a vida. Ou seja, ninguém mais pensa o mundo com as pessoas que não estão conectadas o tempo todo. Faz já um tempo que estamos nisso, ou seja, desde o início da NET. Antes, passamos uma vida sonhando com ela.

  11. 08/04/2014 at 01:09

    1) Grande lembrança do Emil Cioran!

    2) Galactus e o surfista: perfeito!

    3) Vou ler Quine.

    • 08/04/2014 at 04:55

      Renato, leia Introdução à filosofia de Donald Davidson, meu, publicado pela multifoco

  12. Pedro de Sousa
    07/04/2014 at 22:58

    Bem, Paulo, poderíamos então dizer que a história seria fruto do fanatismo, uma vez que seria o fanatismo o motor propulsor dos acontecimentos que criaram desvios significativos na história?

    • 08/04/2014 at 04:57

      Se você imaginar que a história é produto da vontade de alguns homens, e que o que eles fazem vingam como querem, sim. Eu não penso que a história possa ser isso. Eu diria que ela é outra coisa.

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