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01/05/2017

Cioran, Sócrates e o fanatismo


Cioran fala do perigo dos fanáticos. Ponho aqui duas passagens dele, em Breviário da decomposição (Rocco, 2011), primeira: “Sinto-me mais seguro diante de um Pirro do que de um São Paulo, pela razão de que uma sabedoria de boutades é mais doce do que uma santidade desenfreada.” Segunda: “A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A sociedade é um inferno de salvadores! O que Diógenes buscava com sua lanterna era um indiferente.”

Como não ser um militante? Com não ser um advogado atrevido ao menos de suas próprias ideias? Como não ser fanático do que se acredita tanto? Cioran cita dois exemplos que, penso eu, ele devia acreditar que não estavam na linha de serem acusados de autorrefutação. Pirro, o cético, e Diógenes, o cínico. Todavia, sabemos bem, os céticos fizeram escola. Diógenes também. Claro que num caso e outro, são escolas que tentam evitar o fervor, ou o que Cioran chama de “espírito ardente”. Posso até acreditar que Pirro nunca quis ser, como filósofo, fonte de acontecimentos. Diógenes também não, ainda que, não escrevendo nada, tornou sua filosofia uma série de acontecimentos – seu encontro com Alexandre, sempre citado, mostra isso.

Estaria Cioran falando contra nós, filósofos que, de uma forma ou de outra, seguimos Sócrates? Teria ele lá uma pontinha de simpatia por Nietzsche, na disposição deste em fustigar toda a filosofia canônica? Afinal, sabemos bem, filósofos podem ser vistos como religiosos travestidos. Amigos e inimigos de Platão, ou seja, filósofos, sempre tiveram verdades, e Cioran é quem escreve que “o diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, a sua verdade”.

Cioran parece não deixar espaço para os filósofos escaparem de sua avaliação: “Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunica-la aos outros é um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável”. Filósofos escapariam dessa situação se pudessem fazer como Adorno disse, em um texto significativamente chamado “Para pós-socráticos”: o filósofo deve agora falar como que convencendo outro de que está errado. Ou seja, o filósofo não fala do erro do outro, mas o convence, abrindo espaço para um enorme paradoxo, de que ele próprio está errado. Parece maluco isso, mas não faz sentido? Não seria coadunável com Cioran aquele filósofo que, pela sua própria filosofia, gostaria de probir outros de segui-lo? Ora, se assim for, Sócrates realmente cumpriu esse desejo de Cioran.

Sócrates disse em seu julgamento que não ensinava. Disse que alguns tentavam imitá-lo, mas isso por conta deles. Ora, sabemos bem, Sócrates não fez metafísica. Apenas investigava e refutava. Não concluía por uma ideia. Nem morreu por uma, como Jesus. Morreu por falta delas. No entanto, Sócrates tinha uma missão. Ele se achava devoto do “Deus do templo” (de Apolo). Mas sua missão não era a reforma moral de Atenas. Ele não estava comunicando uma crença. Ela estava apenas incomodando a si mesmo, tentando se conhecer, querendo saber por que o Oráculo havia lhe posto na condição do “mais sábio”. Pensando assim, Sócrates, na origem da filosofia, já é alguém bem diferente de tudo que Cioran diz temer – talvez desprezar.

Continuo achando que a filosofia socrática, para a qual Platão se voltou ao final da vida, talvez até negando muito do que defendeu em seus escritos do “período intermediário”, pode ser filosofia, em uma acepção própria de filosofia, e não precisar se posta entre os objetos aterrorizantes de Cioran. Aliás, talvez possamos dizer que Sócrates foi o filósofo moral por excellence e, diferentemente do que se imagina de um moralista, ele não foi um não fanático.

Paulo Ghiraldelli

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6 Responses “Cioran, Sócrates e o fanatismo”

  1. 08/02/2016 at 21:58

    Que ótima reflexão! Como eu não pensei no Sócrates????
    Eu noto que o estudante de filosofia gosta de ficar no gabinete e não ser atingido. Nesse texto parece-me que foi sua primeira preocupação, como um bom leitor! Eu estou incomodado com isso Paulo, as pessoas leem e parece-me que não surte efeito nenhum nelas mesmas, ou elas não demonstram.

    Já na leitura do Cioran, acho que ele é bem “terrorista”, sinto que não tenho muita escapatória já que ele fala dos nosso mais minuciosos fanatismos.

  2. Francisco Edson
    12/11/2014 at 14:23

    Em Cioran o diagnóstico negativo nunca é seguido por uma indicação, uma esperança, uma possibilidade, um sentido, uma redenção, um caminho. Não há a Ascese de Schopenhauer, o Deus kierkegaardiano, a Revolta de Camus, a Ação sartriana, a Aceitação nietzschiana. Ou seja, Cioran não oferece remédios, consolações.

    • 12/11/2014 at 15:15

      Francisco foi exatamente isso que apontei como erro em Pondé, que cita Cioran para ser de direita.

  3. Thiago Carlos
    05/04/2014 at 21:11

    Boa noite Paulo

    Gosto muito de seus textos mais filosóficos e menos jornalístico-filosóficos, apesar destes nos alertarem para a banalização que nós englobamos, além de mostrarem como a filosofia é útil no cotidiano.

    Uma pergunta: Essa postura que adorno confere ao filósofo, de tentar se convencer a partir do outro que está errado, se casa com a questão da filosofia como terapia exposta no primeiro volume do Aventuras da filosofia?

    Além disso, a filosofia como terapia é necessariamente anti-metafísica por considerar os problemas da filosofia crítica como pseudoproblemas?

    Espero não ter cometido algum erro
    Estou lendo o Aventura e estou adorando =)

    • 05/04/2014 at 23:20

      Eu não faço filosofia como terapia. Há quem faça. E no livro eu aponto isso especificamente e para o que é chamado de “terapia”, de modo específico (que nada tem a ver com terapia psicológica). E não é Adorno quem faz isso, claro.

    • 05/04/2014 at 23:21

      Outra coisa Thiago, todo texto meu é filosófico. Essa distinção, para quem lê o texto com atenção, logo fica diluída.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo