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22/09/2017

Cinismo e fascismo: relações vitais


A moda no Brasil agora é acusar aquele que você não gosta de “fascista”. É tanta frase acusativa que, se computarmos o que ocorre, deveríamos concluir estupidamente que a Alemanha nazista nunca chegou aos pés do Brasil. Até manual simplório sobre “como lidar com fascistas” já existe no mercado. É uma espécie de auto-ajuda de gente que reina porque é proprietária do Deus da Democracia. A qualidade desse material faz livro psicografado ganhar status de literatura.

Toda moda é uma adversária dos costumes – mais ou menos foi o que disse Gabriel Tarde. No caso dessa moda, o costume que ela quebra é o da reflexão. Não quer estudar o fascismo, quer apenas usar do rótulo como certa direita carcomida faz com o termo comunista.

Mutter sag' mal, gelten nach dem Kriege die zehn Gebote wieder? Olaf Gulbransson (1873 - 1958)

FIG. 1: Mutter sag’ mal, gelten nach dem Kriege die zehn Gebote wieder? Olaf Gulbransson (1873 – 1958) – In: Simplicissimus. 23, Nr. 32, S. 398. — 5. November 1918

O fascismo foi interpretado via Heidegger a partir de sua reflexão sobre modernidade e tecnologia, e a emergência de subjetivação e objetificação do mundo associados a um Humanismo falso. Carl Schmidt falou do fascismo na ligação com a necessidade de soberania da Alemanha. A Escola de Frankfurt insistiu no desenvolvimento da razão como racionalidade técnica, base do comportamento incapaz de empatia. Arendt viu bem os aspectos da imbecilidade simplória do burocrata fascista. Essas análises se tornaram clássicas. Nos anos oitenta, há quatro décadas, Peter Sloterdijk agrupou a elas a sua teoria: o nazismo foi o fruto do cinismo moderno.  O clima que imperou antes dele, e que o preparou, foi aquele na qual a mentalidade vigente era de pessoas que perceberam que havia acabado os tempos da ingenuidade.

No livro de Crítica da razão cínica de Sloterdijk há uma ilustração que diz muito do cinismo e sua associação com o fascismo. A gravura (fig. 1) mostra uma menina perguntando para sua avó se após a Guerra os mandamentos bíblicos voltariam a valer.

Pois é, só uma criança mesmo poderia imaginar que ser ingênuo é uma condição restituível. Terminada a guerra imposta pelo nazi-fascismo, poderia ressurgir um tempo de pessoas novamente ingênuas? Sloterdijk mostra que o cinismo como clima do fascismo veio ao século XX em sua forma mais terrível para ficar. Veio para ultrapassar o século. Mas, nenhuma ingenuidade poderia reaparecer? E a própria menina da pergunta?

Assim, na base do fascismo não estão comportamentos combatidos pela esquerda com comportamentos parecidos. Esse combate que alimenta o fascismo é fruto do espelho, porque o problema em que vivemos é que o cinismo é uma mentalidade hegemônica. Claro que, sendo assim, Sloterdijk só vê saída no próprio cinismo, então faz todo um estudo da parte do cinismo antigo, o da escola de Diógenes, que poderia se opor ao cinismo moderno. O comportamento corporal de Diógenes feito texto corporal seria sim uma doutrina inimiga do cinismo moderno e uma versão autenticamente socrática. O Sócrates tornado louco, como disse Platão de Diógenes, mas ainda assim, Sócrates.

O que atravessou a fronteira do tempo não foi propriamente o fascismo, ainda que existam por aí fascistas, mas o cinismo moderno. Talvez seja necessário um cultivo da ingenuidade corporal, um cultivo das figuras de linguagem que exigem inteligência, a criação de metáforas e a estranha leitura literal de metáforas. Certo cinismo antigo seria bem vindo aqui: aquele de Diógenes falando para a Alexandre (o Poder) sair da frente do sol (a divindade, a sabedoria), pois estaria atrapalhando seu banho energético (a relação natural entre o filósofo e a sabedoria ou a divindade). O cinismo da fala franca, aquela da parresia, da qual falou Foucault nos seus últimos cursos.

Só os que não estão na política ou nas colunas de jornais ou na esbórnia do tentar aparecer na mídia ou sob o chicote doce de empresas podem ser cínicos capazes de viver como pensam e pensar como vivem, como Diógenes, fazendo nascer um tempo em que as pessoas ingênuas comecem a reaparecer aqui, ali e acolá. Essas pessoas não darão ouvidos aos que pulam na mídia e nos livros fáceis apontando suas formas de serem realistas, isto é, conservadores, nem dará atenção aos que têm utopias carimbadas pelo herdeiro da figura do secretário geral.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Site: ghiraldelli.pro.br

A French woman has her head shaved by civilians as a penalty for having consorted with German troops, 1944

A French woman has her head shaved by civilians as a penalty for having consorted with German troops, 1944 – Claro que as humilhações não foram só estas. Em alguns lugares foram enforcadas. Em outros tiveram de sair às ruas nuas, pintadas etc. Nessas horas, as prostitutas pagaram a pior parte.

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6 Responses “Cinismo e fascismo: relações vitais”

  1. LMC
    12/01/2016 at 12:30

    Um professor de filosofia pede que
    seus alunos leiam a Bíblia e no
    Facebook dele gente diz que o
    Estado é laico e que é carola,
    mesmo sendo ele um ateu.Só
    faltaram chamar ele de fascista.

    Nem vou falar dos professores
    que pedem pros seus alunos
    lerem aquele alemão chamado
    Karl e aí chamam o professor
    de comunista.kkkkkkkkkkk

    • Maximiliano Paim
      12/01/2016 at 23:16

      E não fala também da mãe que dizia pro filho não ir pra escola só comer merenda e que ele desobedeu, entendendo, mais tarde, por mal desempenho, que o ensino deve evitar certos demônios.

  2. 10/01/2016 at 11:27

    Mas Paulo, o comportamento corporal de Diógenes dá vazão apenas a um tipo de filosofia, quero dizer, válido apenas numa época em que você pode falar em moral e crer em um bem e mal. Hoje esta linguagem está carcomida?

    • 10/01/2016 at 11:51

      A linguagem do corpo nunca está carcomida. Slotedijk dá o exemplo das tetas na frente de Adorno. E nós sabemos que até hoje, por incrível que pareça, o corpo é afronta. Veja Macaquinhos, como criou revolta.

  3. Leonardo
    10/01/2016 at 01:29

    Para ser filósofo hoje em dia é preciso ter faculdade ?

    • 10/01/2016 at 01:56

      Leo!
      Nenhum filósofo ficou sem algo chamado “confraria” ou, depois, escola. A filosofia desde o seu início é conversação entre pares. A universidade hoje em dia alia essa necessidade com o saber técnico além de, para o mal e para o bem, transformar o filósofo num professor, num profissional. Nunca escapamos de um lugar que funcionasse uma confraria (as escolas filosóficas gregas), depois um tipo de heterotopia (Academia de Platão), depois os conventos e a universidade medieval e, por fim, essa nossa universidade dita burguesa, profissional, moderna.

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