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11/11/2019

Ciganos


Zizek fala e escreve pelos cotovelos. A prudência velha e sábia nos ensina a não dar muita atenção a gente assim. Mas às vezes o bobo da Corte, sem saber, nos revela muito do reino. 

Tentando dar sugestões para a crise européia ligada aos refugiados, Zizek propõe uma série de medidas que se desmentem e, além disso, termina o texto com uma novidade incrível: a defesa da ressuscitação do comunismo (não estou brincando!). No entanto, enquanto o comunismo não vem, as soluções então sãos as mesmas da ex-URSS: burocracia, leis militares e, pior, guetos – sim, campos onde os refugiados devam ficar (leia o texto, se duvida; só poderia estar no site da … Boitempo: Zizek).

O que me vem à cabeça com a preocupação esdrúxula de Zizek é a frase de Husserl, aquela que se tornou bem polêmica por conta de Derrida. No célebre A crise da humanidade europeia e a filosofia há uma expressão que se tornou famosa. Aparece no contexto em que Husserl define o que é para ele o espírito europeu (ou melhor, o espírito tout court!), e nisso agrupa a Europa com o Estados Unidos, com o mundo inglês, acrescentando (1) que não se trata de considerar, nesse caso, índios ou “ciganos que vagueiam continuamente em toda a Europa”.

Ciganos vagueando. A imagem de levas de refugiados vagando pela Europa é forte. É atual. A imagem de ciganos, tem sua história. Não podemos esquecer que o terrível Heathcliff de Wuthering Heights é cigano.  Em uma situação atual, também podemos aludir, para os que gostam de cinema, de como que o cigano vem com o vento, junta-se aos que cultivam um hedonismo do que é doce – o bombom e o sexo – e são expulsos pelo fogo dos que não vagueiam. Refiro-me, claro, à doceira interpretada por Binochet e ao cigano interpretado por Jonnhy Deep em Chocolate (Lasse Hallström, Estados Unidos, 2000). O cigano nos dá bem a ideia daquele não sabemos de onde vem ou para onde vai. Nisso, tem a ver com a leveza de nosso tempo (sobre o que “leve”, ver meu artigo Como surgem os terroristas de hoje). Mas é também aquele que tem costumes estranhos para nós, que se oferece para ler a mão e ver nossa sorte, que tem a fama de quem pode nos roubar e sumir, e também aquele capaz das piores vinganças. Quando eu era garoto, eles eram pobres vagando pelo Brasil, depois, nos anos oitenta, ressurgiram como uma tribo rica que alugavam grandes casas para colocar suas tendas no terreno ao lado, onde realmente viviam. Viraram novela, lembram? De qualquer maneira, são os que vagueiam.

A polêmica levantada por Derrida em O espírito, a respeito dessa imagem do discurso de 1935 de Husserl, é a de que ele soa excludente, e mais ou menos na mesma época, Heidegger havia pronunciado seu infeliz discurso como reitor, dando acenos a Hitler, e que se tornaram imperdoáveis. Depois, sabe-se bem, o próprio Heidegger se tornou algoz de Husserl na universidade. Mas Derrida os aproxima nesse contexto para, no mesmo texto, separá-los. Ele não diz que se trata do mesmo ímpeto, o de Heidegger e Husserl. Indica que o espírito da Europa citado por Husserl é antes de tudo um nome inventado pela Europa. A partir daí Husserl define a filosofia na sua ligação não só geográfica com  a Europa, na Grécia, mas na sua condição de berço espiritual dos que se podem dizer europeus (diríamos hoje “ocidentais”?). Heidegger não titubearia em apoiar tal lembrança. Nem nós somos capazes de desmentir que a filosofia é grega – isso é uma questão conceitual. Mas Derrida quer mostrar que o produtor desse conceito não é senão a própria Europa. E isso não pode ser desconsiderado.

Todavia, as coisas não param aí. O discurso de Husserl, exatamente quanto a essa expressão sobre os ciganos, é lembrado por Luhmann em um sentido de antídoto contra qualquer exclusão (“Das Moderne der modernen Gesellschaft”). Ou melhor, é lembrado na tematização da necessidade da razão dos excluídos como a voz que pode tornar a razão uma razão crítica. Mas razão crítica enquanto razão irônica. Como assim, irônica? A razão de nossos tempos, se quer ser crítica tem que ser autocrítica, e se assim é, tira não só o chão do que mira ao seu redor, mas também de si mesma. Deslegitima-se e, então, é razão irônica. O espírito da Europa, ou a filosofia enquanto tal, não pode mais existir sem ironia, mas também sem a auto-ironia. Eis como tenho de agir em nossos tempos: sou impelido a falar sobre o outro de modo que eu mesmo não tenho nenhuma grande substancialização para fincar pé e dizer que sou o ponto sólido do qual se fala. Ora, seria impossível uma razão irônica em tão alto grau de autocrítica, ou seja, sem  “os ciganos que vagueiam continuamente em toda a Europa”, que efetivamente colocam uma condição de outro que está presente.

No livro Nicht gerettet Peter Sloterdijk nota muito bem esse discurso de Luhman e, a partir dele, faz uma classificação tríplice da ironia na filosofia. Fala da ironia socrática, que é a da retórica, aquela de quem dá legitimidade ao outro, mas que, ao fazer isso, está deixando claro (para o inteligente) que o outro deveria notar que não tem tanta legitimidade. Em segundo lugar, fala da ironia romântica, que só veio à tona à medida que Kant se fez presente na história da filosofia, uma vez que foi quem colocou a razão na condição irônica de perguntar sobre a sua própria legitimidade (a “razão no tribunal da razão”, para saber seus limites). Por fim, fala da razão irônica atual, vigente em nosso tempo de leveza (tempos da afluent society, sociedade de abundância, sociedade que nos mostra como o não homo pauper), aquela defendida por Luhmann. Esta razão, por sua vez, seria a razão que dilui a diferença entre real e não-real, se pondo ela própria como não real, e sobrevivendo como uma ilusão de real nas operações que fazemos para transitar de um sistema a outro. É a razão que se apresenta no filme Matrix, onde o lado da realidade e o lado do não-real perdem a distinção.

É interessante notar que Peter Sloterdijk, ao citar Luhmann no trecho em que este se refere a Husserl, mesmo sendo um admirador deste último, omite a parte dos ciganos. Sloterdijk diz que a “razão autocrítica é a razão irônica”, como de fato é a frase de Luhmann, mas termina a citação neste exato ponto. Logo em seguida viria a frase sobre os ciganos, que Luhmann mantém em seu texto, citando Husserl integralmente, e que Sloterdijk omite. Claro que podemos inferir daí que Sloterdijk assim age para que o debate levantado por Derrida, a comparação entre Heidegger e Husserl, que certamente é um foco de paixões, não venha conturbar o seu texto, preocupado com a definição da razão irônica em seu ponto máximo. Todavia, a maneira como Sloterdijk encaminha seu texto, tem sim a ver com o episódio dos ciganos. Ele poderia ter mantido a frase.

Sloterdijk está falando da razão irônica, é certo, para mostrar que a distanciação desta em relação às distinções entre real e não-real, em filosofia, fazem parte do sintoma de leveza de nosso tempo. Essa leveza, no entanto – e isso que Sloterdijk tematiza – é insuportável, de tão leve que é (veja textos anteriores desse blog). Se a realidade é admitida como ficção temporária, apenas para evitar o caminho menos doloroso quando passamos de uma crença a outra (para ir da crença A para a B admitimos que estão indo do real ao real ou algo parecido), então já estamos nos onerando nessa desoneração da contemporaneidade que é sua leveza. Todavia, tudo isso é possível, sim, porque no limite essa razão de não ter razão só se colocou como possível uma vez que, em sua leveza, precisa também ser séria, e isso por conta de um Outro que se fez diferente. O outro é o cigano. Não é um outro comum. Não é o outro que é o vizinho. Não é o outro como foi o árabe para o Europeu, nas invasões árabes, nas Cruzadas. É um outro que se imiscui e se torna próximo. É o outro que perambula pela Europa. Se alguns deles, os refugiados, são vistos como terroristas, isso não é tão diferente de ser visto como cigano. Não se trata de um exército invasor que perambula a Europa. Trata-se de gente que perambula. São os que podem vagabundear. São os que podem não ter domicílio. São os novos ciganos. Eles fazem a razão e a filosofia realmente criarem uma autocrítica a ponto de uma ironia máxima. Não há como a razão ter razão no que fala às novas levas de ciganos, os refugiados e outros, que querem perambular pela Europa. Então, a razão atual é e continua a ser crítica por ser irônica. O que ela tem para dizer para os novos ciganos? Ela tem lugar, poder e substância para dizer algo? Ele a escutarão. Nós mesmos, a escutaremos. Levaremos a sério mesmo o que falamos, como algo real? Bobagem. Somos obrigados a conceder razão para o cigano, para o bárbaro, e nesse momento admitir que há dois lados racionais, ao menos como uma ficção de momento.

Zizek é incapaz de conviver com essa leveza do mundo. Ele é exatamente o eterno militante que precisa acabar com os ciganos, os que andam pela Europa. Ele se desesperar com a afluent society. Ele fica maluco ao ver que a Europa pode sim viver um caos e esse caos ser saudável. A Europa já foi um lugar de confluência de todos com todos, não necessariamente de todos contra todos. Zizek não aguentar a insustentável leveza doser. Ele quer burocracia, campos para que os refugiados fiquem, militares e regras para tais ciganos. Ele os quer sob ordens. Ele é o comunista que “caga regras”. Caso eles não se submetam os seu comunismo-pré-comunismo, esses ciganos, diz ele, podem despertar o ódio e o xenofobismo do mundo europeu e, então, teríamos o fascismo. Eis a cabeça de um Zizek: vamos tomar medidas comunistas que na verdade são semi-fascistas para cima de ciganos, regrando-os, antes que o fascismo domine toda a Europa. Pois se isso ocorre, o próprio Zizek terá de sair de sua confortável privada, na qual ele vive se apresentando em fotos.

Zizek no fundo é a única figura infeliz e retrógrada da Europa. Nenhum dos grandes governantes da Europa, felizmente, pensam com ele, por pior que pensem. As outras pessoas estão em meio caminho. Vivem o dia a dia, vão acertando aqui e ali lugares para os refugiados. Estão, na leveza da razão irônica que, de vez em quando, de tão leve, de tão deslegitimadora e auto-deslegimadora, parece forçar alguns a querer um peso. Uns querem ter peso aderindo aos fundamentalismos, outros aos esportes de competição, academias e dietas, outros ao sexo de divertimento junto do sexo perigoso e, outros, junto do ativismo por direitos sociais ou por não-direitos. Tudo é lúdico e ao mesmo tempo trabalho. Mas, ninguém que precisa de peso para suportar a insuportável leveza do ser, necessita de tanto peso quanto Zizek. Ele é o mais sofrido dos homens que vivem o tempo de abundância e leveza. Ele precisa do peso do que já esmagou muitos, o comunismo e, antes, a burocracia. Zizek é hoje a figura mais tosca e patética da Europa.

Mas ele nos ensina com seu péssimo exemplo. Ele mostra que há mil formas de não suportar nossa época leve. Mil formas de, se sentindo solto, buscar alguma gravidade, alguma seriedade, algum peso que não deixe nenhum balão subir demais, sem rumo, e explodir.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

(1) O trecho, no original: Im geistigen Sinn gehören offenbar die englischen Dominions, die Vereinigten Staaten usw. zu Europa, nicht aber die Eskimos oder Indianer der Jahrmarktsmenagerien oder die Zigeuner, die dauernd in Europa herumvagabundieren.

PS: há antas lendo o texto e achando que “leveza” no texto é sinônimo de amenização da dor de refugiados etc.  Leveza está no contexto da análise de Sloterdijk da afluent society, sociedade da abundância em que vivemos. Putz! O texto não é para quem não fez o ensino fundamental, gente.

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12 Responses “Ciganos”

  1. Eduardo Rocha
    07/06/2018 at 23:21

    Lembrei de um filme bem legal que retrata isso que você falou. Ciganos como os que vagueiam. O filme é Snatch – Porcos e diamantes (2000).

  2. Ester
    25/11/2015 at 16:32

    Olá Paulo,

    Poderia me dizer, por favor, em qual texto ou livro do Luhmann é lembrado o discurso de Husserl?
    Achei que a referência fosse “Das Moderne der modernen Gesellschaft”, mas não encontrei nenhum texto do autor com esse nome.
    Obrigada!

    • 25/11/2015 at 20:04

      Há uma versão fácil no meu site, na parte de biblioteca.

  3. Julio
    21/11/2015 at 23:26

    Paulo,
    é curioso este tipo de intelectual que insiste em esquecer que o estado-nação é um monstrengo de surgimento recente na história da humanidade (e praza aos céus, tenha breve fim) e o que é pior, insiste em acreditar que mais lei, mais estado, mais milicos é a solução de tudo.

    • 21/11/2015 at 23:27

      Mais estado não quer dizer mais milico e mais lei. Você pode ter um estado nação forte, até Imperial, até sem uma Constituição Escrita e detalhada.

  4. Lidia
    21/11/2015 at 08:06

    Então uma “filosofia leve” leva a uma “razão leve” a qual por sua vez ajuda numa política para os desamparados?
    O mundo é “superabundante” então por que encarar com tanta preocupação o estrangeiro necessitado,se há como integrá-lo?
    [também sou boba em filosofia,mas tento entender]

    Que bom que os pensamento vigente vê as coisas assim,prof.Ghiraldelli.

    • 21/11/2015 at 11:44

      Lídia, você pode entender, basta ler com atenção. As palavras que citou aparecem no texto com contexto, além de referenciadas. Entender um texto é entender um texto, não ler o texto como se fosse um outro que você já leu.

  5. Ferdnand
    20/11/2015 at 15:16

    Zizek fala, no texto dele, verdades bem pesadas e, por isso mesmo, bastante incomodas. Por exemplo: o problema dos refugiados é resultante da ação desastrosa de países ocidentais. Ver “leveza” na tragédia dos refugiados que fogem do caos não por escolherem um modo de vida, mas por medo do terror, poderia ser ingênuo se não vivêssemos (mais do que da ironia) o tempo do cinismo.

    • 20/11/2015 at 16:44

      Ferdnand quando alguém lê o texto do Zizek e não consegue ser crítico, dá dó. Mas quando alguém não entende a noção de leveza no meu texto, aí não dá dó, é falta mesmo de capacidade para entender um texto filosófico que dá o serviço do conceito utilizado.

  6. novin
    20/11/2015 at 00:25

    Não existe vida “leve”(só na cabeça do filósofo), existe vida, existe terra, existe cultura e existe recursos, para isso existe a burocracia, a política.

    • 20/11/2015 at 00:58

      Novin você não foi feito para ler filosofia. A “vida leve” é um conceito de Sloterdijk. E eu dou o serviço no texto, dá para entender. Mas o seu caso é de ler só a revista Caras, tá?

  7. Matheus
    19/11/2015 at 16:51

    Não sei se consegui pegar bem o seu texto…

    O estilo de vida cigano poderia ser entendido como o “leve”, que no passado já foi recriminado tanto na europa, quanto aqui no Brasil, mas que agora sim podemos assumir essa leveza sem algum tipo de culpa, e então surgem os movimentos pela volta de alguma dureza (terrorismos, xenofobismos, neocomunistas malucos como o Zizek, entre outros), isso quer dizer então que ainda há esperança aos refugiados.

    Lógico que não dá pra dizer que a vida deles é leve, mas eles estão saindo de um lugar de total crueza para uma possibilidade de vida “viajante”, mas se os movimentos linha-dura recrudescerem a situação deles pode não ficar lá muito melhor (creio que pior não há como ficar).

    Mas tento ler seu texto assim, Paulo, como a possibilidade de uma esperança, de uma vida melhor (para os refugiados, e porque não a todos nós, ocidente?), mesmo de assumirmos uma vida mais leve. Mas tudo isso dependerá de como lidaremos daqui pra frente com a democracia, as liberdades civis, principalmente nesse contexto de “guerra ao terror”…

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