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22/10/2017

Ciência e religião não são incompatíveis no estado liberal


Temer fez um convite ao bispo da Igreja Universal, Marcos Pereira, para ocupar a pasta do ministério da Ciência e Tecnologia. Qual a objeção válida?

A objeção que se pode fazer e que se deve fazer, é que o moço Pereira não é do meio, não tem formação acadêmica para tal e, enfim, não tem cancha para jogar o jogo de um ministério que necessita de uma qualificação técnica que permita saber com o que se está lidando. O currículo do moço é fraco. Advogado formado pela Unip e tendo trabalhado apenas na Record, em cargo pouco significativo, Pereira não poderia ser ministro de coisa alguma. De Ciência e Tecnologia, então, nem pensar.

Agora, a objeção que se faz, de que ele é religioso e a ciência vai para um lado e a religião para outro, não cabe.

Não sei se Marcos Pereira é realmente religioso. A Igreja Universal é de fato uma igreja com religião ou só uma organização de arrecadação de dinheiro na base da exploração da fé e da ingenuidade e desespero popular? Mas vamos deixar isso de lado, vamos supor que a questão seja esta que está aparecendo na mídia, a da religião.

A ideia de colocar a religião de um lado e a ciência de outro, e então fazer o estado deixar de ter a ver com a primeira para ter com a segunda, é a herança de uma campanha, às vezes até de caráter filosófico-técnico, que saiu da boca de muitos iluministas. Ganhou em Voltaire, no século XVIII, sua expressão contundente, técnica e popular ao mesmo tempo, e fez sucesso. Era uma birra contra a Igreja Católica, e acabou se tornando conteúdo de uma voz ressoante, ainda que sem autorização de Voltaire, contra a religião. Os outros pensadores, os do século XIX, que vieram na conta desse vento, sofisticaram a crítica e a descrição da religião. Mas, na verdade, o eco iluminista de caráter popular é ainda nosso condutor. Para alguns, herdeiros do positivismo rasteiro, ser ateu é ser inteligente ou culto, como se fazia no início da República brasileira. Mas o liberalismo não diz isso.

O estado democrático liberal trouxe em seu interior uma ordenação jurídico-política que contém a ideia de que a ciência pode de fato cuidar do estado e este deve conviver com o saber desta, ambos em benefício da sociedade, e que a religião, ainda que entre aqui e acolá no âmbito político, é sempre algo concernente à fé e esta é “de foro íntimo”. O estado democrático liberal se torna então laico, mas não ateu, justamente para garantir aos indivíduos o cultivo das mais variadas formas de religião. Assim, é cultivada a liberdade de religião que se associa à liberdade de expressão. O Brasil segue rigorosamente esse padrão de democracia. Nossa Constituição espelha isso.

Isso pode trazer conflitos interiores para cada indivíduo? Dado que a vida é pragmática e dado que a práxis do cotidiano que segue a lei do país em pouca coisa desmente os valores da maioria das religiões que temos hoje, é difícil falar em conflitos cotidianos insanáveis. As situações de aborto, vacina obrigatória, eutanásia, casamento de pessoas do mesmo sexo etc. são situações limites. Aí se dão os conflitos, mas nesse caso, espera-se aqui e ali a vontade popular amadurecer uma posição e as coisas vão andando. Se o conflito é maior e mais geral, em cada um, é sempre possível, então, avaliar de bom grado a atitude do Papa Francisco no assunto: o darwinismo pode fazer a descrição do mundo, o Gênesis faz poesia do mundo. Cada um no seu lugar. Isso já estava posto pela Igreja Católica antes de Francisco I. Não raro, a Bíblia católica traz tal metodologia de leitura em notas de rodapé, para fins de catequese. A teologia católica se renova devagar, mas já se renovou muito.

Faz tempo que Deus tem ido ou para fora da vida ou para o interior do peito dos homens ou para a sua consciência, escapando da vida exterior que, salvo a vida de artistas, é sempre pouco extravagante e permite que ações cotidianas não ultrapassem o compasso de valores universais que as religiões ocidentais assumiram. Nesse sentido, nosso povo continua religioso e o estado continua laico. Um ministro da ciência e tecnologia religioso poderia ser um homem de ciência, um filósofo, um técnico universitário capaz de entender a relação entre ciência, estado e sociedade – tudo isso seria perfeitamente aceitável e recomendável. Era assim ou mais ou menos assim.

Nunca devemos esquecer que a ciência moderna caminha sob a regra geral da Navalha de Ockham, e este foi um filósofo da Idade Média, um homem da Igreja.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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8 Responses “Ciência e religião não são incompatíveis no estado liberal”

  1. Orlando
    07/05/2016 at 09:43

    Caro Matheus,
    Pessoalmente não tenho nenhum problema em trazer a responsabilidade das coisas não darem certo no Brasil para a primeira pessoa. Lembro apenas que a responsabilidade individual das pessoas é proporcional a cada indivíduo e ao que ele pode fazer junto aos seus pares para levar a bom termo os pilares que sustentam e desenvolvem qualquer país, a saber: educação, saúde, segurança, visão de gestão e governo etc. Consideremos, hipoteticamente, que um certo detenha a solução de todos os problemas para reordenar e reorganizar o Brasil. Você já pensou o que aconteceria se este cidadão, trazendo a responsabilidade para a primeira pessoa, resolvesse discutir estas questões no nosso Parlamento, por exemplo? Ou nas instâncias político-partidárias? Ou nos setores da chamada “sociedade organizada”? A meu sentir, em qualquer desses lugares, o cidadão seria expulso embaixo de porrada, proibido de falar ou considerado louco. Ou estou errado? Obviamente não se trata de “complexo de vira-lata”. Com o devido respeito ao seu ponto de vista, trata-se apenas de mais uma desculpa “moderninha” para tentar ocultar uma realidade infame que nos persegue nos últimas 50 anos: a de não querer entender nem se esforçar para compreender a nossa (da sociedade como um todo) ignorância política, a nossa falta de autoestima, o nosso senso de responsabilidade coletivo, sempre ausente dos caminhos que levem ao nosso desenvolvimento enquanto Nação. A meu modo de ver, embora obviamente não seja dono da verdade, continuaremos piorando enquanto Povo ainda por algumas décadas até que algo aconteça, o que seja não faço a menor ideia, e reconduza as então existentes gerações, despertando nelas o desejo de lutarem no sentido de novamente transformarem o Brasil em um País que possa receber o respeito das outras Nações. .

    • Matheus
      11/05/2016 at 14:37

      Prezado Orlando, entendo seu ponto, aliás concordo que o uso ideológico da “teoria do vira-lata” é ideologismo barato mesmo, como vc bem colocou: desculpinha moderna para nossos problemas. E em nenhum momento quis dirigir minhas palavras especificamente a vc pq te desconheço.

      Eu particularmente não gosto de falar em termos de nação, pra não me confundirem com nacionalista, também acabo não usando tanto o termo “República” pq os idiotas brasileiros adoram achar que isso é direitismo só pq o Partido Republicano – no caso estadunidense – é um pouco mais à direita que o Democratas. Compreendo que muita gente critique o Brasil por essas vias de “nação”/”projeto de nação” e pela via republicana, já que é res-pública no brasil é ignorada mesmo e adotada inclusive como algo particular a certos grupos. Ah tbm há alguns que fazem a crítica sob o crivo de “cidadania”, e também há sempre alguma ignorância pronta para associar o termo às aulas de cidadania do período militar e aos “bons costumes”.

      Mas eu, tomando por exemplo algo que sempre o ilustre Paulo Ghiraldelli sempre expõe aqui em seu blog e em outros meios: a educação e o salário do professor brasileiro – mais especificamente – amplio essa visão crítica para uma concepção civilizatória. Afinal a instituição escolar é berço, a meu ver, antes mesmo da democracia, da república ou da nação, sobretudo, ela o é assim para a Civilização. E retomando às suas indagações, pode ver quantos cidadãos e/ou representantes da sociedade tomam a palavra para defender a educação, ou precisamente, o salário dos professores no brasil? Esses sim são tratados como loucos, desvairados, deixados de canto, quando conseguem chegar a esse ponto.

      Até (muitas d)as “esquerdas” institucionalizadas nos partidos preferem discutir planos de educação para uma agenda socialista ou qualquer outra baboseira do que o salário dos professores…

  2. Claudio Dionisi
    06/05/2016 at 16:46

    Não acredito que ele vá “entender” a relação entre ciência, estado e sociedade, nem defender um estado laico. Mas o professor tem razão. Um homem de Deus pode lidar com a ciência. O problema é ESSE aí.

    • 06/05/2016 at 18:48

      Dionisi, esse aí não é de Deus, é do Macedo.

  3. Armando
    06/05/2016 at 13:35

    A igreja Universal faz muitas curas. Talvez ela faça mais do que muita gente que bate no peito e diz que é da ciência.

  4. Orlando
    06/05/2016 at 08:16

    Considerando os graves problemas pelos quais navega à deriva a nossa República, um provável presidente convidar para ministro da Ciência e Tecnologia um bispo da Igreja Universal (ou de qualquer outra religião), se me afigura como algo importado da Terra do Nunca, A menos que eu esteja maluco, o que não é impossível, mas pouco provável, estamos nos transformando numa republiqueta bananeira de 6ª categoria. Vestimos o uniforme de bobo da corte mundial. Fazemos alguma coisa e o mundo ri. Ainda bem que, ironicamente, ainda servimos para alguma coisa, ainda provocamos o riso das pessoas.

    • 06/05/2016 at 08:21

      Orlando, não é bem assim. Todo país tem esses problemas.

    • Matheus
      06/05/2016 at 13:12

      Pois é essa síndrome de vira-lata, tá não quero ficar nesse discurso raso, que creio eu surgiu inclusive no PT (credo!) pra tentar afirmar que o brasil esteja super bem (graças ao “partido”, credo² !).

      Mas esses dias mesmo vi uma notícia de que na suécia trezentas pessoas se manifestaram contra as imigrações e contra os negros. Sim a mesma suécia referência em educação, civismo, ambientalismo, pesquisa de ponta, welfare-state e o que mais vc quiser tem pelo menos uns 300 bolsonarinhos (ou pode vir a ter). Lógico que nós não ficamos sabendo de cada problema que acontece pelo mundo e muito mais os que acontecem aqui. A gente tem que parar com essa mania de que no Brasil nada dá certo. Se não dá certo, não dá certo porque? Que responsabilidade temos sobre isso? Qual a minha responsabilidade nisso? Se a gente não se por as questões em primeira pessoa e ficar deixando tudo em “terceira” (“Ah o brasil isso…” “no brasil aquilo….”) – se nós não pegarmos os problemas pra nós – eles sempre estarão sujeitos a manobras de terceiros.

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