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23/10/2017

Meninos e meninas com chilique


Há grupos que fazem mais barulho na Internet do que realmente podem atuar na sociedade. Mas o barulho da Internet infelizmente amplia comportamentos pouco interessantes na sociedade democrática liberal. São os que eu chamo de Grupos de Chiliques. Bastou contrariá-los e juntam a seita para espernear. A índole autoritária é visível. A incultura e o ódio à escola também. Eis os grupos mais famosos.

Grupo da Arma. O indivíduo que quer portar arma não se convence de que, com uma pistola em casa ou na cinta, a vida dele vai estar em risco e a vida dos familiares mais ainda: se acertar alguém vai pagar por isso ou pela lei ou pela vingança. Isso sem contar quando acerta inocentes, familiares e pessoas comuns em situações briga tola de bar ou no trânsito. A arma sempre traz para a vida de seu portador um inferno (mesmo!) muito maior do que aquele que o usuário imagina evitar por possuí-la. Além disso, a polícia sempre diz: quem reage leva a pior. Mas, não adianta, o que está em jogo não é a segurança, mas a sensação de onipotência e a muleta para uma masculinidade que ainda não se firmou. O indivíduo do grupo da arma é um cabeça dura nato.

Grupo da Maconha. O indivíduo que quer fumar maconha não raro é problemático, precisa de uma fuga, mas ao invés de aceitar isso como o indivíduo que consome bebida alcoólica aceita, não pode fazer o mesmo. Pois ele quer ter status de maconheiro, não a má fama de maconheiro. E em geral ele se torna doutor em maconha. Para ele os gênios só produziram o que produziram por terem sido maconheiros. Mesmo ele vendo que está ficando mais lento por causa do consumo de maconha, ainda assim ele teima em ser um sábio, um doutor. Fala mais em favor da maconha que evangélico quando senta ao seu lado no ônibus. De fato, ele é um doutor em maconha, título que não existe na academia e que, por isso mesmo, ele dá a si mesmo e comemora. (Sou a favor da legalização).

Grupo de Caça-Pedofilia. O indivíduo que não sabe que pedofilia não está no código penal, uma vez que é doença, e que crime é o abuso sexual, vive fundando clubes de caça-pedófilos. Não raro, esse indivíduo pensa que relações com quaisquer moças novas é crime, e qualifica isso também como pedofilia. Aliás, mal sabe que nossos avós casavam cedo e que o costume árabe faz o mesmo etc etc. Nesse caso, isso não é nem crime e nem pedofilia. Mas ele não entende nada disso. É o personagem mais raivoso na Internet. Ele nem lê os textos. E não entende nem em dez leituras. Espuma de raiva. Mas, o mais triste, é que em geral dá guarida para grupos de caça-pedófilos que funcionam como fachadas de gente que explora crianças, inclusive com trabalho escravo.  A Internet está infestada de grupos assim, “bonzinhos”.

Grupo do Ateu inculto. O indivíduo que é ateu e inculto acha que a Bíblia tem de ser lida como um texto científico. Ele não distingue gêneros literários. Ele não sabe que ela é um dos pilares da cultura ocidental. Então, a lê como tendo “contradições”. No limite, ele faz a mesma leitura daquela dos fundamentalistas que critica, dos que a tomam literalmente, os pastores analfabetos (ou espertalhões) das igrejas-caça niqueis. Esse tipo de ateu se torna um agente da anti-cultura na Internet. Sem contar que é mais chato que o evanjegue pregador!

Grupo “Anjos da guarda de ânus”. Junto disso tudo, então, há agora a tribo dos médicos que não querem fazer o exame de toque de próstata. É gente que não sabe (ou sabe demais) que a maior parte dos brasileiros faz “fio terra” com suas parceiras e parceiros sexuais, e que isso não faz mal algum. Exibem todo tipo de desculpa contra exames de prevenção de câncer, e começam sempre dizendo “sou médico”. Aí, com essa pretensa autoridade, querem proteger o próprio ânus, quando na verdade não há nada o que proteger. São bravinhos mesmo! Gritam e esperneiam e colocam links de documentos que não entendem.

Grupo “Sou Homofóbico”. Raramente é formado por héteros. Em geral esse grupo atrai muita gente indecisa com a sua própria sexualidade e que, tendo medo de “sair de armário”, propagandeia sua falsa masculinidade atacando gays. Não, não estou aqui falando de gente que faz piada ou brincadeira efetivamente inocente. Isso os próprios gays sabem fazer sobre gays, mais que todo mundo. Estou falando das pessoas que realmente discriminam, que ridicularizam, que consideram o gay como de segunda categoria ou nem mesmo um ser humano. Há muita gente assim na nossa sociedade. Os ataques verbais a qualquer posição de defesa de gays é sempre muito violento. Indica uma raiva interior que, não raro, é a raiva do homofóbico contra si mesmo, contra o tesão que ele tem medo de sentir – e que sente – por outros homens. Podem reparar.

Contra Cotas. Há o indivíduo que é racista, mas ele não sabe ou finge não saber. É o indivíduo que se põe muito veementemente contra cotas étnicas. Ele fecha questão. Ele sabe que se formos ao Fórum ou ao Hospital ou em uma Universidade não encontramos o negro. Num país em que a maioria é negra, há lugares onde não há o negro. Como pode? Ora, a cota não é política educacional, ela não visa dar educação fácil para o negro. Nem a cota é “resgate histórico” ou indenização (se fosse, seria um escárnio). A cota é o reconhecimento do preconceito na sociedade brasileira. Este preconceito é que empurra o negro para fora de vários lugares. A cota visa colocar o negro nesses lugares onde ele não aparece, para ampliar a convivência com o branco. O objetivo da cota é fazer o branco ter o privilégio de usufruir da cultura negra e não sentir nenhum estranhamento com um médico negro, um advogado negro, um professor universitário negro etc. Não adianta dar escola boa básica para todos somente. Pois já existiu essa escola pública básica e boa e ela, por preconceito, não acolheu o negro (eu estudei nela). Então, a escola básica boa e pública para todos ajuda, mas não resolve o problema. A cota na universidade e em concursos é o mecanismo temporário de aceleração da convivência. É engraçado que essa explicação é fácil de entender, mas quanto mais ela é posta e reposta, mais o grupo anti-cota grita (até baba!) dizendo que essa política de cotas é racista, não eles. Mas, fica claro, até pela raiva da resposta desse grupo, que são eles os racistas, claro.

Poderia falar ainda do grupo evanjegue, que é moralista e que persegue outras religiões etc. Mas, é um grupo conhecido demais. Tem até bancada no Congresso. Seus membros possuem preconceitos de toda ordem e tipo e, então, só apontando alguns grupos acima, sempre somos capazes de pegar os integrantes do grupo evanjegue.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

Foto: negras lésbicas

amor

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5 Responses “Meninos e meninas com chilique”

  1. Raimundo Marinho
    20/01/2016 at 14:39

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.

    Também vem crescendo o grupo dos “filósofos-jornalistas” – hienas histéricas.
    rss

  2. Guilherme Picolo
    20/01/2016 at 10:09

    Não sei se já é o peso do passar do tempo, mas a cada dia tenho notado as pessoas cada vez mais intolerantes, inflexíveis e rudes de um modo geral. Parece que estamos involuindo socialmente…

    • Guilherme Picolo
      20/01/2016 at 10:12

      Isso em todas as faixas etárias e de renda e independente do nível de escolaridade, diga-se de passagem.

  3. Roberto
    20/01/2016 at 00:43
  4. Fernando
    19/01/2016 at 23:42

    Bela foto. Acho que vou usá-la quando topar com algum chiliquento.

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