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22/10/2017

Ainda Charlie Hebdo: terroristas e fanáticos não são a mesma coisa


O terrorismo e o fanatismo não são a mesma coisa. O terrorismo sempre vence. O fanatismo, nem sempre. Além disso, o terrorismo recebe treinamento, o fanatismo recebe educação.

O terrorismo visa deixar no ar um clima de terror. Por isso, qualquer ato de vandalismo ocorrido e que possa causar terror generalizado, já venceu. Não é medo, é terror. Não é terror de alguma coisa, mas é terror de todos contra todos a respeito de tudo.  Paralisamos todos ou então corremos como barata tonta, este é o único objetivo do terror. Os assassinos dos cartunistas do Charlie Hebdo venceram. Podem ser pegos, não importa. Eles venceram. Estamos todos nos posicionando a favor de paz ou de guerra, e em ambos o casos, tudo leva à generalização do que é o mais terrível da guerra, o terror. Todas as reações (da direita, esquerda e liberais) desembocam em medidas e comportamentos que conhecemos, já tomadas e assumidas anteriormente nos Estados Unidos e Europa: xenofobismo da direita, condenação benevolente dos assassinos por parte da esquerda, tentativa de escapar dessa dualidade pelos liberais, mas apelando para a restrição da liberdade de ir e vir, tudo isso misturado com a eleição de confusões terríveis, que é achar que se está em meio a uma guerra religiosa de fanáticos. Assim, como todos pedem alguma coisa que pode maltratar a si mesmos e outros que não os assassinos, eis que o terrorismo venceu. É o medo de todos com todos.

O terrorismo venceu porque o terror cria o rosto do terror. Veja que estranho: uma pessoa com características árabes passa a ser suspeita na França, na Europa em geral. Ou seja, pode ser um francês que não tem nenhum parente árabe, mas com um nariz adunco. Pronto, é suspeito. Ele mesmo já se vê como suspeito e se assusta no espelho. Assusta-se mais ainda quando sai à rua e vê que assusta outros. Uma pessoa com características nórdicas começa a assustar também, porque se fizer algo que pareça estranho, pode ser tomada como suspeito exatamente porque sua semelhança com o árabe é muito acentuada. Em um mundo de terror o que se parece menos com o assassino é tido como o mais perigoso assassino, pois é o assassino altamente disfarçado! As perguntas começam a se tornar esdrúxulas: “o que você fazia junto com aquela moça loira linda que saiu de uma … mesquita?!” “Por que você vende aquela revista com a capa do ator que  eu ouvi dizer que disse ‘Je sui Charlie!’?!” Frases desse tipo mostram uma sociedade já totalmente derrotada pelo terrorismo.

O terrorista é treinado para implantar o terror e, como ele aprende nesse treinamento que basta um ato só para que ele vença, ele é o trabalhador com o maior feedback positivo do mundo. Ele trabalha um dia só, e se aposenta. São os louros da vitória em uma só Olimpíada. Ele não derrota o opositor. Ele derrota o mundo. Ele derrota o seu mundo? Não há mundo para o terrorista que não seja aquele no qual ele sempre viveu: o do terror. Ele faz o terrorismo como quem chega a amar a humanidade. Quer vê-la fora do tédio. Dizem que é difícil fazer isso. Mas o terrorismo consegue. Ele é a única força capaz de fazer com que tenhamos o que fazer!

Mas, cuidado! O terrorismo não é fanatismo. Nem o fanatismo leva ao terrorismo. Nem o fanatismo é prisioneiro da religião.

O fanatismo é alguma coisa criada por mãos suaves, cuidadosas, gentis. Começa lá na tenra idade, com o bebê. Um seio. Não dois seios. Embora sejam dois o que vem é o um. A mãe delicadamente retira das mãos do bebê várias coisas, e coloca outras. Ele pede para o bebê: foco. Faz isso quando ele cresce. A professora aperfeiçoa isso, dizendo para a criança como que cada texto possui coisas importantes, e que é necessário grifar o importante. Não raro, só uma ideia é importante: “se você pudesse dizer toda essa doutrina em uma única ideia, o que diria?” Descartes se transforma em penso-logo-sou e Marx se transforma em a-história-do-homem-é-a-história-da-luta-de-classes. Pede-se como tarefa uma leitura do texto com uma resenha que deve conter “as ideias principais do texto”, ou pior, “a ideia principal do texto”. Há o necessário e há o supérfluo em tudo. “Vá direto ao ponto” – ensinam todos. “Devo encher linguiça?”, pergunta a criança à mãe, a respeito da redação escolar que deve entrar no dia seguinte. A cada frase instaura-se antes o culto do Um que uma hierarquia com o Um, Dois, Três etc. O hierarquizado de modo extremo é educado para viver na “sociedade administrada” ou “totalitarismo” ou “capitalismo tardio” etc. Diferentemente o que é educado no culto do Um vê-se preparado à medida que é imantado por uma única coisa, uma única verdade e, portanto, a certeza. Ele não é gerado para uma sociedade – nenhuma! Ele é gerado para um reino, o da ideia única que o imantou. A ideia importante. O que é importante? O que é porque é e tem que ser. O imantado na ideia única é o fanático. São Paulo apóstolo era um fanático. Ele não estava sob uma hierarquia como os outros apóstolos, ele viu o Um e foi imantado diretamente por ele. Talvez Lênin tenha sido um fanático. Essas pessoas não foram terroristas.

O terrorista pode ser culto e plural. Implantar o terror para ele não é fazer alguém engolir à força o seu mundo, a sua ideia, a sua certeza. Não! Implantar o terrorismo para ele é fazer com que as pessoas todas se aterrorizem. Ele quer que todos sintam o que ele lutou para controlar, o medo. O terrorista é um covarde, um medroso. Quando o medo se generaliza, então ele se conforta: “estão vendo, não só eu, desde pequeno, tenho medo do escuro, medo do monstro, medo de tudo – vocês todos agora sabem o que é o medo”. Nada a ver com o fanatismo.

Guerras de fanáticos existem! Claro. Mas não são guerras do terror. Os fanáticos raramente apelam para o terror. Lembram-se dos torcedores “hooligans”? A Inglaterra passou anos sem poder se relacionar futebolisticamente com outros países europeus por causa deles. Um país inteiro de lordes foi isolado! E a chamada Guerra do Futebol? Sim, o conflito com tanques e soldados entre El Salvador e Honduras, por conta de um jogo de futebol! Nada de terror, mas, sim, violência – a violência do fanatismo. O fanatismo não necessariamente é violento. Ele pode ser simplesmente o culto da não violência aparente, como São Paulo fez. Cioran chegou mesmo a dizer que Nero, ao perseguir os cristãos, não teve a maldade de São Paulo. Nero fazia aquilo por espetáculo enquanto que São Paulo pregava por uma estranhíssima – fanática – convicção do homem que tem visões. O fanático é visionário, o terrorista é realista.

O fanático tem uma vida doce. Ele é imantado em torno do que é o principal. E então se torna um rei e serviçal do principal. O terrorista tem uma vida atribulada, angustiada. Ele não é imantado. Ele tira forças de dentro de si mesmo não para superar sua covardia e medo, mas para fazer o medo se generalizar. A democracia do medo.

Pode-se falar mais? Claro! Mas aos poucos. A cada vez que encontramos um fanático, falamos mais. A cada vez que encontramos um terrorista, dependendo do grau do terror, falamos mais. Nada disso tem a ver exclusivamente com religião, ainda que como veículo de terroristas e fanáticos a religião possa ter lá suas cenas fortes na nossa história.

Paulo Ghiraldelli, 57 filósofo.

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17 Responses “Ainda Charlie Hebdo: terroristas e fanáticos não são a mesma coisa”

  1. 23/02/2015 at 21:57

    Não acho a proposta do Tiago nada absurda. Toda vez que um filósofo profere uma frase, dá a impressão de que ele tem certeza do qeu diz, mas isso pode ser uma ilusão. Poderíamos pesquisar se antes de Descartes algum fiilósofo se preocupou realmente com a certeza. Nem mesmo Parmênides, talvez. Por que ter certeza? Por que não não a boa e saudável dúvida? Pedagogia fala disso em pedagogia do oprimido. depois do século xix, não só de certezas, mas de um medo mórbido da dúvida, temos na segunda metade do século xx filósofos e pessoas comuns que não têm medo da insegurança. Então, essa obsessão pela certeza pode sim estar na raiz, ou ser suspeita de estar, na raiz do fanatismo. Eu pessoalmente gosto da dúvida, embora seja um fanático.

  2. Thiago Leite
    18/01/2015 at 15:14

    “Penso, logo existo” pode indicar fanatismo? Descartes pode ser considerado um fanático?

    • 18/01/2015 at 18:24

      Thiago tá maluco? Pelo amor de Deus, Thiago, que isso? Mais uma frase dessa e você fica igual o Olavo de Carvalho.

    • Thiago Leite
      18/01/2015 at 20:55

      E a certeza? Ele não chega a estabelecer uma certeza por meio da filosofia dele?

    • 18/01/2015 at 21:18

      Thiago. Para com isso. Não é nada disso, você não está entendendo nada meu querido, nadinha. Não dá assim. Tem de começar do começo se quiser saber do que se fala em filosofia.

    • Thiago Leite
      18/01/2015 at 22:26

      Só fazendo um curso de filosofia pra te alcançar Paulo.

    • 18/01/2015 at 22:43

      Thiago não é isso, é que você está aquém de entender o básico. Então, comece pelo básico. Você está aquém da gente poder explicar as coisas para você. Mas se não for medroso, começa a estudar e sai disso.

  3. Wagner
    16/01/2015 at 15:11

    Esta vencendo mesmo…
    As farmácias francesas estão vendendo mais antidepressivos e tranquilizantes depois dos atentados.
    O terror foi internalizado com sucesso.

  4. Thiago Leite
    14/01/2015 at 16:16

    Paulo, da forma que tou entendo o fanatismo pode ter uma ligação forte com a metafísica. Estou correto nisso?

    • 14/01/2015 at 18:14

      BEm, há essa tese Thiago. Mas ela é exagerada. Digamos que a cultura metafísica poderia dar margem ao fanático, uma vez que uma cultura assim favorece a ideia do absoluto etc. OK!

  5. Thiago Leite
    14/01/2015 at 16:02

    Paulo, esse livro teu: “Introdução à filosofia de Donald Davidson”. Fala mais sobre esse assunto do fanatismo?

    • 14/01/2015 at 18:15

      Thiago: A filosofia política para educadores.

  6. Thiago Leite
    14/01/2015 at 15:53

    Perder tempo com quem só quer se divertir as tuas custas Paulo.

    • 14/01/2015 at 18:16

      Thiago ninguém se diverte comigo. Eu me divirto.

  7. Robson de Moura
    14/01/2015 at 11:40

    As redes sociais brasileiras compõem um megafone que dá voz a filhos do ensino público falido. Somei a isso essa cultura popularíssima que você descreveu, Paulo, de ‘resenhar a ideia principal do texto’, e pronto: vi servido um bufe de fanatismos. Convivo com garotos ‘empreendedores’ que não gostam de Marx porque conheceram ‘um cara do PT que gosta’. Isso basta a eles. Sem conversa. Mundos estanques, e cada um na sua prateleira. Garotos assim, de ‘empreendedorismo’, estão aí, madurinhos, a espera de um oportunista que os colha. Aliás, a colheita já começou, com Gentilis e Loboões a frente. O fanatismo está mais perto de nós que o ocorrido com o Charlie Hebdo sugere.

  8. 13/01/2015 at 21:37

    Como assim, caro escritor? Olha, eu já muita masturbação filosófica, mas essa eu não entendi. o fanático geralmente é um terrorista ele é o fundamentalista autoritário, acho q vc se escorregou nessa, meu caro.

    • 13/01/2015 at 21:48

      Cão-burrão você adora confirmar sua burrice aqui heim? Você olha para o espelho e goza ao ver que eu dediquei um minuto do meu tempo para falar “burrão”. É que essa sua intervenção aqui diverte os outros. Eles notam que há mesmo o burrão. É você.

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