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22/09/2018

Charles Taylor e a política do reconhecimento


Queremos ter para consumir ou queremos ter para ostentar? 

Apesar de muitos verem os nossos tempos como os do consumismo, este perde de longe para a ostentação. O consumo é apenas subsidiário da ostentação. Isso porque vivemos ainda sob o vagalhão moderno, o que nos colocou no contexto da cultura do tornar-se visível e da política do reconhecimento. Nos termos do filósofo contemporâneo alemão Peter Sloterdijk: descrevemo-nos melhor se nos vemos como imersos em uma cultura timótica antes que em uma cultura erótica.[1]

Na literatura platônica encontramos essas duas forças: o que vem de eros diz respeito ao desejo do que falta e à posse, o que vem do thymos, que é a parte intermediária da alma, diz respeito ao orgulho, ira e reconhecimento. Tendo isso em mente, e sabendo que a modernidade é antes de tudo responsável pela era da emergência da luta por reconhecimento, podemos muito bem tomá-la com que regrada por forças timóticas. Somos os que precisam de algum orgulho, de sermos apontados como os que têm alguma identidade desperta por qualidades.

O que é tratado sob a noção de força timótica por Sloterdijk, é visto simplesmente como uma disposição histórica em favor da luta por reconhecimento pelo filósofo contemporâneo canadense Charles Taylor.[2] Ele concebe a modernidade, filosoficamente, enquanto o que emerge a partir de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Este foi o filósofo que chamou a atenção para o benefício de voltar-se para si mesmo, pois em seu interior encontraria a sua autenticidade e, assim fazendo, teria em mãos algo original, distinto do não autêntico vigente na sociedade. Esta, por sua vez, seria o campo povoado pelos que estariam guiados por outros – Taylor lembra a observação de John Stuart Mill (1806-1873): “precisamos de algo mais do que uma capacidade de ‘imitação à feição dos macacos’”. Rousseau buscou a autenticidade porque já estava no interior de uma sociedade em transição, em que as hierarquias estavam abaladas, e por isso mesmo o reconhecimento ou, melhor, o novo jogo de reconhecimento importava. Desprezar o reconhecimento social recolhendo-se para o interior de seu “eu natural” nada seria que uma forma de solicitar reconhecimento em uma nova configuração social. Ou seja: mostrar-se capaz de ter um eu próprio, sem a sociedade, pareceu a Rousseau, quase que paradoxalmente, exatamente a forma de mostrar uma identidade capaz de reivindicar a autenticidade necessária ao reconhecimento – ao reconhecimento social!

Charles Taylor lembra também que fazendo assim, Rousseau cultivou a importância da identidade ou, até mesmo, contribuiu fortemente para essa noção. Ter uma identidade dependia de originalidade e autenticidade, isso em termos não só individuais, mas também coletivos – pertencer a uma nação, a uma cultura, ter orgulho disso e, então, adentrar o campo da luta e da política por reconhecimento, passou também a contar a partir de Rousseau.

Taylor usa dessa sua inserção na história das ideias para discutir um tema bem contemporâneo: o multiculturalismo. Afinal, em um primeiro momento da modernidade, ter uma identidade individual e nacional, passou a ser uma carta para o jogo de conseguir a “dignidade igual”, de caráter universal, pedida pelos movimentos burgueses. Depois, quase que contra essa “dignidade igual”, os grupos de todo tipo – mulheres à frente seguidas de negros, índios, gays etc. – entraram na luta da política por reconhecimento pedindo o respeito e a possibilidade de cultivo da dignidade à medida do cultivo de diferenças.

Taylor discute essas questões que, enfim, às vezes aparecem sob o rótulo de “liberalismo versus comunitarismo”. Grosso modo os liberais defendem o indivíduo como quem merece reconhecimento, por ter uma identidade individual, descolada de comunidades étnicas ou de outro tipo, a ser respeitada. Enquanto que os comunitaristas dizem que só isso não basta, pois cada indivíduo não tem só a identidade individual dada pela sua condição humana abstrata, mas se deve levar em conta, também, que a sua condição humana é concreta, culturalmente situada, e é essa identidade que deve ser reconhecida. Nesse caso, poder estar em sociedade e orgulhar-se de quem se é, depende antes dos direitos que se pode ter a identidade de grupo que a identidade ligada à “dignidade igual e geral”.

Taylor é simpático ao comunitarismo, mas não toma uma posição definitiva. Acredita que nesse trabalho de reconhecimento, o bom seria que todos nós pudéssemos deixar a arrogância de lado e, então, sem perder as condições boas da “dignidade igual” para todos, saber apreciar as culturas diversas, e suas reivindicações a respeito de poderem ter orgulho do que são.

Voltando à terminologia de Sloterdijk, poderíamos dizer que Taylor aposta que na democracia liberal cabe, ainda, incentivar as energias timóticas, as que fazem surgir a necessidade do reconhecimento, o bem estar em ser alguém na sociedade por conta da identidade escolhida, aquela que é particular e grupal, e não somente por conta de uma identidade genérica, que em alguns casos poderia macular a identidade cultural situada.

 Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] Sloterdijk, P. Ira e tempo. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.

[2] Taylor, P. Argumentos filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000, pp. 24-274.

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