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23/03/2017

Cecil, o leão


O campeão olímpico de natação Johnny Weiss Muller foi sem dúvida o mais famoso e melhor Tarzan do cinema. Eu não perdia um filme dele, em geral nas matinés de domingo à tarde, no início dos anos sessenta. Foi um pouco antes de eu virar fã do Western Spaghetti.

Em filme de Tarzan a luta entre o homem e o leão era um ponto alto do espetáculo. Mas Weiss Muller tinha preferência em bater-se contra crocodilos, pois sua exibição melhor sempre era como nadador. Nos filmes de Tarzan havia mortes de animais, mas a linha geral da engrenagem retórica era a proteção ambiental. A família americana transformada em selvagens altamente civilizados – Tarzan, Jane, Chita etc. – estava lá no coração da África para protegê-la da exploração de caçadores que, enfim, não queriam só animais, mas o marfim e os diamantes. Naquela época a África ainda existia como continente de florestas, de selva, e o grito de Tarzan era como que um alerta americano a respeito das atrocidades que também a América vinha fazendo com o continente. Adiantou pouco, pois nenhum lugar da Terra foi o mais explorado pelos homens movidos na ordem do capitalismo que aquele continente. As histórias de desgraças africanas nunca param de serem contadas e, sem dúvida, elas falam de como o lugar mais rico da Terra se tornou o lugar mais miserável.

Johnny Weiss Muller fez muito pela África e, ao mesmo tempo, fez pouco, ou até fez mal. Annex - Weissmuller, Johnny (Tarzan and the Amazons)_03Vendeu um sonho de autoengano. Era como se de fato existisse o americano ou o “branco” lá no interior das selvas, para salvar sozinho um continente que, aos nossos olhos, só tinha animais (os habitantes eram mostrados como animais) que não podiam se defender por si mesmos. Nós crianças sabíamos que a África nunca se tornaria o que se tornou, pois Tarzan estava lá. As coisas se passaram tão rapidamente que ao terminar minha infância os filmes de Tarzan já não eram mais exibidos. Causavam mal estar. Nenhuma criança queria ser Tarzan. O herói havia saído de moda. A verdadeira história da África vinha à tona à medida que se realizava.

Mas nós, os “bípedes sem penas”, como nos qualificava Platão, temos sempre uma consciência tardia. Não à toa Hegel disse que a Coruja de Minerva levanta voo ao entardecer. Aliás, para o bem e para o mal. Justificamos e racionalizamos barbáries da história por meio da filosofia, ao entardecer. Mas é também no crepúsculo que a filosofia encorpa a consciência da viagem eterna do Espírito com a compreensão do errado, e começamos a apontar a nós mesmos como os únicos responsáveis pelo errado que fizemos. Em um crepúsculo como o nosso, para a nossa consciência atual, um dentista que paga 200 mil reais para matar um leão que é praticamente um cidadão, inclusive com nome, Cecil, e que se mantinha com símbolo de um país em uma reserva protegida, não pode mais ser compreendido. Não passa de um criminoso. Nós nos perguntamos: como esse homem ficou fora do caminho do Espírito hegeliano que, se desdobrando, nos trouxe a consciência ecológica atual inflacionada? Onde ele estava todos esses anos? Como que ele passou anos olhando para dentes sem perceber o que estava ocorrendo com toda a mentalidade do Ocidente? Que arcadas dentárias maravilhosas vieram ao seu consultório de modo a aliená-lo de tal forma?

Mas eis então que alguém entre aqueles que lutaram a favor da maldade do laboratórioaventures-de-tarzan-a-new-york-1942-15-g paulista que massacrava os beagles (lembram?) reapareceu para nos lembrar como se pode ficar de fora do voo da coruja de Minerva. Este defasado da vida levanta de manhã e usa o que batizei de Escrito-Único-Pondé, que é talvez o elemento retórico mais nojento e menos filosófico do mundo. Ele diz: “tanta desgraça com os humanos e todo mundo chorando a morte de um leão”. A palavra “leão” na boca dele está aquém da semântica de leão do tempo dos filmes de Tarzan. Leão é coisa. E sendo coisa, diante de humanos, não é prioridade. Esse argumento nunca é válido, pois ele é nitidamente desviante, hipócrita e tem só um objetivo: desmerecer todo e qualquer ato que esteja a favor da ampliação da compaixão. A compaixão é brega e deve ser extirpada. É sempre o anticristianismo total (mesmo quando feito em nome de Jesus) que canta nesse tipo de argumento. É sempre a perversidade antiliberal que levanta a cabeça nessa retórica. Mas é também a raiva perante a lógica, porque se trata de um sofisma barato, estúpido, que um homem inteligente não usaria.

O leão morto é uma vida tirada. As outras vidas tiradas, nesse momento, estão tendo outros olhos para verter lágrimas. O leão agora nos faz verter lágrimas porque ele é um leão e a visão que temos dele não é mais do animal perigoso, dos tempos do filme de Tarzan, mas de um gato indefeso, trazido para a morte por uma armadilha, para satisfazer o gosto pela caça de um dentista que saiu de algum sarcófago. Estamos nós querendo caçar? Até Hitler, o demônio da Terra, proibiu a caça como uma medida de tirar o povo alemão de hábitos bárbaros (claro, sendo Hitler, logo elegeu outros elementos de caça, judeus, negros, aleijados, ciganos, comunistas, liberais e coisas assim).

Nossa consciência atual, falando ainda em termos hegelianos, não consegue mais abrigar o dentista do caso como um elemento que tem alguma legitimidade para falar ou fazer o que gosta. Os homens são plurais, mas o Espírito dá o tom do que em uma época geral pode estar acima do ethos de cada grupo, representando a regra do momento. Não compreender isso e querer vir com o fala sorrateira que diz “ah, olhem para o outro lado, vocês são hipócritas porque não viram que há também baratas sendo mortas, e também crianças”, é não ter inteligência, nem capacidade de discernimento moral. É de quebra uma incapacidade de ler Hegel. Aliás, hoje em dia temos filósofos que não sabe Hegel e continuam se achando filósofos!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

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3 Responses “Cecil, o leão”

  1. Davi Azevedo
    08/08/2015 at 15:06

    Um problema que sempre aparece nas Ciências humanas é subjetividade no julgamento, o papel do Espírito na tomada de ações objetivas. As alternativas para se sair desse impasse seria se considerar leões e humanos como coisas, tendo como consequência anomia total, ou ter compaixão de ambos, como propõe o autor. Trabalhoso é se por no lugar de tudo, no do dentista e no do protetor de animais. Ás vezes dá vontade de descer o cassetete no dentista, leão e jornalista e tudo.

    • ghiraldelli
      08/08/2015 at 20:04

      Não há nenhum problema de objetividade na questão do Leão. No mundo atual a proteção dos animais se tornou um consenso. Tanto é que o assunto chegou saiu do campo de defensores acadêmicos e filósofos para o programa do Faustão. Houve uma mudança de sensibilidade. O dentista virou criminoso por um lado e pessoa má por outro. E ele é mesmo isso. Minha sensibilidade é a nova sensibilidade.

  2. roberto quintas
    05/08/2015 at 14:38

    }:) que tal tecer comentários ou filosofar sobre Ronda Rousey?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo