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22/10/2017

O que é a caverna de Platão? Pare de teimar em errar!


O mito da caverna ou alegoria da caverna não faz nenhum estudante aprender a teoria das formas de Platão.

Platão mesmo disse: filósofos vivem a filosofia, quem não é filósofo, e nunca será, que fique então com um prêmio-consolação, uma alusão à vida do filósofo, ou seja, contente-se com a conversa sobre a caverna. É isso que está na obra A República. Vários professores se esquecem de que se trata de um recurso didático. (E pior ainda é quando acham que Saramago entendeu o caso!)

Além desse problema, há ainda outro. Alguns professores, não contentes com o fato da própria alegoria já ser uma alegoria, querem “atualizá-la”. Fazendo isso, não raro, induzem ainda mais a erros. Um dos casos mais frequentes é o de tornar a alegoria da caverna um simples similar do que ocorre na TV. Isso até pode ser feito, mas não como explicação do mito, e sim como uma construção a mais, paralela. Uma construção a mais, e desnecessária.

A teoria das formas de Platão diz que há um mundo inteligível, de essências existentes, e um mundo sensível, claro, também existente. (1) Ou seja, ambos os mundos têm status ontológico. Eles existem, e não dependem de nós, ainda que, para nominá-los, utilizemos expressões que são atinentes a nós, ou seja, o que é atingido pelo intelecto e o que é atingido pelos sentidos. Essa forma de falar não pode nos enganar, não devemos agir de modo moderno e pressupor aí uma subjetividade, uma instância humana, e então traduzir o mundo inteligível como sendo o dos conceitos e o mundo sensível como sendo o do corpo. Platão não pensa assim. Ele não trabalha com a noção de sujeito e muito menos com a noção de sujeito acoplada ao homem como indivíduo. Aliás, essa uma das grandes diferenças entre o pensamento antigo e o pensamento moderno. Como Sloterdijk diz: na modernidade o homem passa a ser o indivíduo e este se imagina mais real que tudo que o rodeia. Platão está fora disso (mais detalhes sobre a alma em Platão: Sócrates: pensador e educador. São Paulo: Cortez, 2015).

Desse modo, quando falamos da produção de imagens no fundo da caverna, ou da produção de imagens na tela da TV, para simular o que é da ordem sensível e não da ordem inteligível, caso não tenhamos explicado antes para o estudante que o problema inicial não é o da ilusão ou, modernamente, o da ideologia, de nada adianta. Caso ele absorva a narrativa, seja a da alegoria da caverna quanto a do exemplo da TV, segundo um esquema em que há um homem individual que tem de resolver coisas por meio só do intelecto que pensa conceitos em sua cabeça, e que este homem é o que tem no olho do seu rosto, do seu corpo, a visão das coisas, então tudo estará perdido. Platão, eu insisto, não trabalha no esquema moderno da relação sujeito-objeto.

Mas o exemplo da TV é pior que o exemplo da caverna. Platão ainda é o melhor didata de sua própria filosofia. A caverna é do âmbito cósmico. Ela é, digamos, o mundo. Ninguém a preparou para ser enganadora, ela apenas é como é. O mundo é como é. Além do mais, os homens que carregam objetos cuja sombra é projetada na parede da caverna não estão ali como homens enganadores, mas como elementos da própria caverna, ou seja, dados cósmicos. Quando se substitui a caverna pela TV, aparecem os produtores de imagens, ou seja, os homens da mídia, como os que produzem “meras imagens” e, então, como intencionalmente enganadores. Não há isso em Platão! Assim, o exemplo da TV joga para um tipo de teoria da conspiração ou, no melhor dos casos, para uma teoria da ideologia, no sentido moderno, o que também, não raro, induz a erro (não é lugar aqui de desenvolver algo sobre ideologia, já feito em outros textos e livros).

Quando Platão dá outros exemplos que não o da caverna, as coisas melhoram. Ele mostra um dedo e, em seguida, mostra outro dedo e diz: o primeiro dedo é grande (tem uma grandeza), o segundo dedo é grande (tem uma grandeza, com outro tamanho, mas é uma grandeza), e então eu tenho dois “grandes”, mas cadê o terceiro? Cadê o Grande, o grande que dá a origem (causa) e existência (sentido) ao grande que está no primeiro dedo e ao grande que está no segundo dedo? Cadê o grande não-sensível, e sim inteligível? Essa é a pergunta. O filósofo sabe onde o Grande está. Sabe de seu mundo. O não-filósofo não sabe e nunca saberá. Então, para ele ter a ideia do que é ficar só no grande sensível, se faz a alusão ao que é ser enganado quando se fica só no sensível por meio do engano de quem fica só nas imagens.

Essa é a ilusão metafísica. Fica-se no grande dos dedos, e não se acha o Grande, o que está entre os dedos, em algum lugar – tem que estar (!). Essa ilusão metafísica é uma ilusão meta-física, para além da física. Na física, no sensível, temos a grande de um dedo e de outro. Essa ilusão é da vida, do mundo, da condição da Terra e do homem. Não uma ilusão perceptiva ou uma ilusão criada por outros homens. Mesmo o filósofo, que adentra o mundo inteligível para contactar com o Grande, ainda assim, uma vez vivo, está neste mundo aqui, onde o grande existe (se manifesta) como grande de um dedo e grande de outro dedo.

Em Platão, ainda não se fala o que irá se falar a partir de Aristóteles, do Grande como um universal, como um conceito, e os “grandes” dos dedos como o objeto empírico do conceito – os dedos grandes. Muito menos se estaria a falar, como também não é o caso de Aristóteles, de um sujeito individual que detém conceitos e que vê fora deles, para serem apanhados e conceituados, os objetos empíricos. Em outras palavras: não é o homem que causa o erro metafísico, a ilusão metafísica, ela é da condição da vida no cosmos, no mundo, não de uma exclusiva condição humana. Errar não é humano – essa é a lição de Platão. Para o homem comum, que não é filósofo, não há o que se preocupar, pensa Platão, ainda que, para Sócrates, seria muito bom que cidadãos atenienses soubessem sim do que estavam falando.

É mais fácil explicar isso tudo por meio da alegoria da caverna que por meio da TV. Ainda que, cá entre nós, em ambos os casos, não raro, ensinamos errado a Teoria da Formas. Percebeu agora? Ou ainda não?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

(1) Um terceiro é apresentado no Timeu, que é khora, o elemento – receptáculo – de transição entre o inteligível que é responsável pelo sensível.

PS 1: Algumas pessoas me escrevem dizendo que às vezes falo de alguém, que está errando em filosofia, e que depois não aponto o erro. Não é verdade. Aponto o erro e, não raro, dou nomes aos bois. Só que não fico só fazendo isso na vida, tá? Então, se digo algo como “fulano de tal está falando coisa errada”, ora, o leitor que investigue. Nesse texto de hoje, mostro um erro comum de muitas pessoas que falam na mídia, jornalistas, professores de filosofia etc. Agora, leitor, é com você, tá? Trabalhe um pouco também. E não venha chorar no meu blog quando descobre que o tal professor ou jornalista que você lê está fazendo coisa errada. Chore sozinho, para você e por você. E então, após enxugar as lágrimas, saia dessa, para de ler o errado porra!

Olha uma imagem bem feitinha, mas que induz ao erro:

Mito da caverna

 

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34 Responses “O que é a caverna de Platão? Pare de teimar em errar!”

  1. COELHO DE MORAES
    13/07/2016 at 12:27

    Alegóricos, didáticos e virtuais. Existe o plano sensível – pelo menos isso é o mais próximo de percebermos e aceitar. Não existe o plano sensível nem metafísico nem nada além da terra e da estésis. As sombras projetadas para as gentes comuns são similares ao mundo das formas para Platão.
    A teoria das formas de Platão diz que há um mundo inteligível, de essências existentes, e um mundo sensível, claro, também existente. Você diz: A teoria das formas de Platão diz que há um mundo inteligível, de essências existentes, e um mundo sensível, claro, também existente. (1) CLARO NADA! O mundo inteligível não é existente. O sensível é.

  2. Dênis
    12/07/2016 at 22:56

    Paulo, a crítica de Nietzsche sobre a inversão dos valores de platão, em relação ao idealismo platônico, não coloca a alegoria da caverna como uma história banal na busca do conhecimento e da verdade na vida?

    O que os pós-modernos irão viver/filosofar sobre a vida humana, não faz do idealismo platônico uma forma banal de acreditar na vida, enquanto ideal?

    Valeu por sua contribuições!

    • 13/07/2016 at 08:40

      Dênis, a primeira crítica contundente a Platão é dele mesmo, e depois, na mesma linha, de Aristóteles. Nietzsche faz outra coisa, faz um ataque (também já feito por Hume) à metafísica. Toma a metafísica como platonismo, como nosso senso comum etc.

  3. ailton
    12/07/2016 at 12:40

    Paulo, se você fizer um artigo sobre ética relativista você vai esclarecer bastante e aproveita pra tirar uma parcela dos seus leitores da caverna da mediocridade!

  4. LH
    12/07/2016 at 12:37

    Errar é natural.

  5. carlos
    12/07/2016 at 10:59

    Caro amigo…. o que me diria sobre a seguinte afirmação. “Quem entendeu a seleção natural, o materialismo dialético e o positivismo institucional, entende o mundo.” Além de detonar toda filosofia antiga.

    • 12/07/2016 at 11:21

      Carlos nada detona a filosofia antiga, muito menos essas três formulações, tão devedoras em tudo ao platonismo.

    • carlos
      12/07/2016 at 11:34

      Paulo, vc entendeu essas teorias? Então me responda… 1 – qual órgão ou membro do corpo humano foi responsável pela evolução do homem? 2 – Vc acha que o mundo seria igual , diferente ou muito parecido se pessoas como platão, marx…etc, não tivessem existido? 3 – vc acredita no amor ou no casamento?
      Lembro-lhe outra afirmação materialista de james watson…. a vida nada mais é que a busca da endorfina. Que achas?

    • 12/07/2016 at 18:19

      Carlos, a primeira pergunta já não tem mais sentido na antropologia atual. A segunda pergunta tem resposta óbvia: um mundo sem mim é bem diferente de um mundo com Paulo Ghiraldelli, mas talvez bem igual em lugares longe do Paulo Ghiraldelli. A terceira pergunta não tem muito sentido, a não ser para as chamadas revistas feministas dos anos 50. Sobre endorfina Sloterdijk tem um frase boa: somos seres endorfinados.

    • carlos
      13/07/2016 at 11:30

      Vc não respondeu nenhuma pergunta amigo…. e pela suas considerações mostra que não entendeu nada. Como dizia augusto compte, positivista, a filosofia é a enciclopédia da ciência. Vc considerou milha pergunta sobre o positivismo institucional como se fosse coisa de revista feminina.???
      Vamos as respostas corretas…. o homem evoluiu em virtude da pinça fina das nossas mãos. O mundo sem marx ou platão e até sem vc seria semelhante, bem parecido mesmo (MD), e por fim, as instituições positivistas é que funcionam e nos livra do atraso da seleção natural… o vaticano, a justiça, a república…. etc . No mais , platão, que esta a muito superado, mostrava a caverna como um conhecimento total e metafísico e que poucas pessoas teriam acesso…. em suas mentes e espíritos.

    • 13/07/2016 at 11:41

      Carlos, dentro do possível tudo foi respondido. Agora, seu texto mostra que não foi alfabetizado. E fala coisas sem sentido. Então, não dá para atendê-lo mais.

    • carlos
      13/07/2016 at 13:12

      Vc é uma piada…. não sabe o mínimo de ciência e muito menos de filosofia e fica dando aulas.

    • 13/07/2016 at 13:43

      Mas vou aprender Carlos, vou agora na livraria comprar seus livros e farei mais dois doutorados e mais dois mestrados com você. Fique tranquilo.

  6. Rafael Costa
    12/07/2016 at 07:04

    Bom dia, Paulo. Acompanho o seu blog já faz um tempo e lembro de um texto seu sobre a excelente animação “Divertida mente”, gostaria de ter acesso á esse texto de novo para poder usa-lo em sala de aula, só que infelizmente revirei o seu site e não o encontrei.
    o senhor teria como me ajudar nessa empreitada e me passar o link do texto?

    Abraços.

    • 12/07/2016 at 08:31

      Rafael não estou lembrando disso, infelizmente.

  7. Felipe Franco
    12/07/2016 at 00:13

    Parabéns pelo texto, Sr. Prof. Paulo. Quando estou lecionando no ensino médio, não esporadicamente este é um conteúdo que os alunos parecem ter apreendido desde suas primeiras aulas de filosofia. Vê-los fazendo atribuições anacrônicas de conceitos. Talvez mesmo os professores não tenham compreendido, pensam que Platão faz ataque a ideologia, seja culpando o consumo como sendo a sombra mais nefasta que engendraria uma manipulação midiática, um mecanismo de dominação. Pergunto se esse erro por parte dos professores é ocasionado por uma deficiência na formação universitária, uma atribuição naturalmente erronea de sistemas filosóficos, ou outra coisa que eu ainda? Reiterando, parabéns pelo texto, foi muito útil para me ajudar a pensar. Obrigado!

  8. Lucas
    13/11/2015 at 14:00

    Paulo, parabéns pelo site! Só uma dúvida: como você consegue escrever tanto? rs Vejo que você publica em média uns 2 ou 3 textos!!!

    Um abraço.

    • 13/11/2015 at 14:50

      Lucas, eu escrevo meu livro que é meu trabalho atual (Teoria da Subjetividade em Peter Sloterdijk) e, nas horas vagas, publico artigos leves no blog. É a vida do filósofo. Paro para fazer o Hora da Coruja, jogar basquete, levar o Pitoko para passear e fazer sexo com a Fran. E assisto alguns filmes.De resto, como qualquer outro, é trabalho.

    • 12/07/2016 at 00:11

      Paulo, uma dúvida, quantos anos o Pitoko tem?

    • 12/07/2016 at 01:35

      Sete anos.

  9. Daniel
    13/11/2015 at 01:35

    Pelo o que pude entender, a caverna de Platão, sendo didática, mostra que o mundo é o sentido da caverna, a busca de uma forma, ou seja, se é cosmologia antiga podemos dizer que o mundo e nele o homem integrado é melhor vivido por esse caminho filosófico.

    • 13/11/2015 at 03:05

      Daniel, sem ter lido Platão não deu para você entender um texto que critica um modo de se ensinar Platão.

  10. Matheus Kortz
    12/11/2015 at 23:06

    Podemos dizer que vale a “maxima” do Kamus: “os mitos se calam pra nos por a pensar”?

    E ai os que nao conseguem pensar (muito)…

    Digo isso pq quando fui apresentado ao mito da caverna no ensino medio, e olha que era uma escola boa, mas nao era auka de filosofia e sim de literatura, eu achei o mito uma coisa meio inocua para a filosofia, ainda mais vindo daquele q seria seu patrono, Platao… demorei pra.entender que era só uma forma.mais didatica de expor a experiencia filosofica, dai vc.entende, já vi o lado poeta de platao, entao que tal conferir seu lado mais serio?

    Nesse sentido tenho achado cada vez mais fundamental o ensino de filosofia na escola normal, ainda que de forma bem mais basica. Mas o difícil será sempre achar bons professores… ainda mais com esses salarios Paulo, mas esse artigo faço questao de compartilhar pra que mais gente possa experimentar mekhir o que seria sair da caverna se é que o mundo exterior nao seria outra caverna ainda maior, se me permite.a infeliz brincadeira.

    • Matheus Kortz
      12/11/2015 at 23:07

      Acho que kamus é com “c” né? Passei vergonha agora haha

    • LMC
      12/07/2016 at 12:34

      Ih,Matheus.Se você faz mais sucesso que o
      outro aqui no Brasil,você é palestrante,faz
      auto-ajuda,é pedófilo,coxinha,petralha,
      viado,macaco,golpista,é pago pela CIA,
      maçom,neoliberal,etc,etc,etc

  11. Jarbas Soares
    12/11/2015 at 17:47

    A ilusão provocada pela mídia desaparece com a denúncia, bastando para isso mudar de canal ou simplesmente deligando a televisão. Mas a ilusão metafísica seria, digamos assim, imune a denúncia, pois se trata de um elemento do próprio cosmos. É isso?

    • 12/11/2015 at 20:36

      Isso tem a ver, mas o texto não é isso. É mais.

    • Jarbas Soares
      13/11/2015 at 12:17

      Ok. Vou reler o texto com mais atenção.

    • 13/11/2015 at 12:23

      Jarbas, boa!

  12. Jokas
    12/11/2015 at 16:27

    Assim como os dedos com seus grandes, existe uma verdade além da “verdade”.

    • 12/11/2015 at 17:20

      Jokas, não há esse mistério tão misterioso em Platão. Talvez Khora, mas …

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