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28/02/2020

Capoeira e pancadão


Os escravos portuários tinham uma vida menos ligada às correntes e ao chicote que os seus iguais da zona do café. Levar sacos para fora e para dentro de navios exigia uma certa liberdade. No pouco tempo de descanso que tinham, principalmente à noitinha, esses escravos faziam o batuque ligado ao candomblé e criavam a roda de uma dança chamada capoeira. Não tardou para que as autoridades do Império vissem na dança um perigo letal e no candomblé a ela associado uma invocação do demônio. Nos dois casos, tratava-se de “subversão”. 

Quando caiu o Império e veio a República, os militares que a instituíram e principalmente o General Deodoro, proibiram de vez a capoeira. Deodoro lutou na Guerra do Paraguai, onde perdeu irmãos e de onde voltou herói. Mas se esqueceu fácil dos negros que foram para lá, ocupando lugares de brancos covardes, e que foram tão heróis quanto ele. Se esqueceu do candomblé e da capoeira, que trouxe pela força dos braços e da oração a vitória ao Brasil, na derrubada do ditador Solano Lopes.

Durante toda a República Velha a capoeira e o candomblé foram perseguidos. O som eufórico, a posse dos corpos como que “endemoniados”, os “gestos sexualizados dos negros” e sua “cantoria alta” eram tidos como o que importunava os habitantes da cidade, mesmo que eles não vivessem na zona portuária. Diziam alguns, inclusive, que as “doenças dos negros” ficavam mais “exalantes” a partir do suor e dos gritos, e que os influxos vindos pelo ar poderiam tornar até as moças virgens, mesmo trancadas em suas casas, vítimas da sífilis. O “cheiro do negro” é forte, é “insuportável”, diziam médicos que teciam essas fantásticas teses sobre patologia, candomblé e capoeira.

Muitos negros e pobres se reúnem hoje para o “pancadão”, em inúmeras cidades. Dançam, bebem e tentam se divertir na rua ouvindo o som que vem dos carros. Movimentam as esquinas. Muitas meninas da periferia exibem sua sensualidade apimentada, vestindo uma calça agarradinha, a mais cara que puderam comprar, fruto de trabalho duro. Não há outro lugar para se divertir. A rua é o lugar. A rua é pública, é gratuita, e pode abrir um espaço infinito para todos que vão chegando. Do mesmo modo que a capoeira e o candomblé irritaram os brancos ricos do Império e da Primeira República, principalmente os paulistas, o pancadão traz à cena mais um militar contrário a tudo que é divertimento: Coronel Telhada. Ele levanta a mentira de que o pancadão é ponto de droga e, como deputado, cria a lei para proibi-lo. O governador Alckmin, apesar de médico e professor universitário, deixa seu preconceito falar mais alto e enterra essa história que contei, e que é provável que ele conheça. Cede para o argumento autoritário. Bem, se assim fez com relação às manifestações estudantis vindas da escola pública, como esperar outra atitude dele diante das mesmas pessoas, ou seja, pobres e negros?

Alckmin não consegue sair da vala de direita na qual se meteu, e na qual se fez político, contrariando sua origem institucional. Jamais conseguiu entrar pelo campo relativamente popular de Mário Covas, que o trouxe para a política. Levou o governo de São Paulo para um conservadorismo esquisito e, agora, quase como Serra, adentra o campo do favorecimento das atividades militares.

Coronel Telhada é o deputado que fez um gibi tendo ele próprio como super herói. Distribuiu na periferia. Foram milhares de exemplares, tudo com o nosso dinheiro. Nesse gibi, ele matava pobres e pretos, para impor “a lei” nas favelas. Policial? Não, apenas justiceiro de gang, miliciano. Esse homem não pode mesmo querer pancadão. Pois ali, se ele vier dançar com a menina gostosa, leva tábua. Então, a mágoa é o que o move. O governador se torna refém desse tipo de gente, de baixíssima cultura e compreensão da vida urbana. É a junção da auto eleita elite paulista com a ralé da polícia miliciana. Bem, também foi assim no combate à capoeira. Degradados como capitães do mato junto de governantes e ricos.

Não há aqui, da minha parte, nenhuma romantização da pobreza ou do “povo” ou alguma apologia inocente do pancadão. Há brancos e alguns riquinhos no meio? Claro! Há gente com droga? Claro! Mas, na base, o pancadão é o transbordamento do baile funk para a rua, numa visível denúncia de que o poder público não se interessa em criar espaços culturais e de entretenimento. As nossas praças deveriam ter quadra de basquete acesas à noite, sempre; deveriam ter wireless; tinham de ter espaço para a entrada de carros com a possibilidade sim de som alto. Aliás, nesses lugares haveria de existir profissionais do entretenimento, capazes de elevar as pessoas para gostos culturais para além daqueles que elas trazem até ali. Uma política de entretenimento num mundo onde as horas de lazer aumentam inclusive para os pobres é algo que já se faz necessário há muito. Mas, o governo não entendeu ainda isso. Os políticos querem pensar com a cabeça da polícia militar que, enfim, todo mundo pede que desapareça, que se desmilitarize.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo.

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21 Responses “Capoeira e pancadão”

  1. Hugo Lopes
    21/12/2015 at 00:28

    Porra gente. Tá difícil de entender um texto simples hein. Leiam o Sidney Chalhoub da Unicamp. É uma boa continuação para esse texto do Paulo.

  2. Orivaldo
    17/12/2015 at 18:46

    Os problemas se repetem justamente por esse simples motivo de não se entender qual é o problema. Um simples texto criticando a falta de soluções práticas e inteligentes causa um furor que desanda pra assuntos que não têm nada a ver com o próprio texto. Talvez more ai essa repetição da história que chamamos de farsa. Se pessoas que se interessam a ler Paulo Ghiraldelli, pensam como pensam , o que podemos esperar dos Coronéis Telhadas.

    • 18/12/2015 at 14:40

      Orivaldo uma boa parte não dos meus leitores de livro, mas de blog, fala sem ler, vomitam preconceitos. Bem notado.

    • Robson Zeferino
      19/12/2015 at 10:33

      Show, mestre! Sou da comunidade capoeirística há mais de 20 anos, leio Carlos Eugênio Líbano Soares, Jorge Amado, seu artigo muito me agregou (como sempre!). Enfim, adorei! Fenomenal.

  3. roberto quintas
    15/12/2015 at 13:29

    interessante paralelo. ainda podemos colocar a questão do funk como “subcultura” em contraste com a “verdadeira” cultura.
    grato por essa reflexão, professor.

    • 15/12/2015 at 13:43

      Roberto, para classificação de culturas dê uma olhada no texto do Alfredo Bosi, aqui na biblioteca do meu blog

  4. Osmar Gonçalves Pereira
    15/12/2015 at 09:49

    “(…) elevar as pessoas para gostos culturais para além daqueles que elas trazem até ali. ” Grato, Professor.

    • 15/12/2015 at 10:56

      Osmar, aí é que entra o “animador de cultura”, de que falava Paulo Freire.

  5. Guilherme Picolo
    15/12/2015 at 08:18

    1-) Além do viés preconceituoso contra o pobre em geral, penso que o veto ao pancadão também tem aquela questão de medo / refutação àquilo que foge ao mediano e comezinho, que é uma característica bem típica do brasileiro (Ciro Gomes sempre mencionou o tal “pacto de mediocridade”, que marginaliza automaticamente qualquer um que fuja ou sobressaia à média). Assim também foi com o heavy metal e o punk, vertentes que foram (e ainda são!) associadas ao uso de drogas, violência, “satanismo” e outras besteiras.

    2-) Alckmin é acima de tudo um político inábil. Qualquer pessoa razoável teria apresentado a reforma escolar na mídia, efetuado plenárias com educadores, alunos e a comunidade… até mesmo para se promover como um governo que quer transformar a educação e tal. O Alckmin consegue se superar na burrice.

    • LMC
      15/12/2015 at 13:54

      Picolo,eu queria saber se
      alguém aguenta morar
      perto de algum lugar com
      som alto.E não estou
      falando de funk,pode ser
      sertanejo universitário,
      também.kkkkk

      Aliás,foi o senhor Covas quem
      botou o Alckmin como seu
      vice pra ter os votos
      conservadores no interior.
      E pensar que até o Jarbas
      Passarinho votou e fez
      campanha pro Covas pra
      presidente em 89.Putz…..

    • Guilherme G. Pícolo
      16/12/2015 at 13:12

      LMC, já existe norma para lidar com o excesso de barulho (municipal). Inclusive, em SP as multas ao dono do estabelecimento eventualmente autuado são bem salgadas. Isso só já bastaria para resolver o problema.

      Proibir o pancadão pelo fato de ser pancadão é preconceito ou, no mínimo, uma ideia muito obtusa sobre justiça. Equivale a coisas como a doutrina do “ataque preventivo” do Bush…

    • LMC
      16/12/2015 at 14:10

      GG,ouça o Rap nacional
      e você vai ver a diferença
      do funk que não é funk.
      Quem curte funk,com
      raras exceções,fuma
      maconha e bate em
      professor de escola
      pública.Aliás,estou fora
      desse Fla-Flu doido
      que você,o Safatle e o
      Pondé gostam tanto.
      Votaria na Hillary nos
      EUA,assim como
      votaria do Macri na
      Argentina ou no David
      Cameron na GB.
      Aliás,essa palavra
      “preconceito” está
      sendo mudada pra
      “mimimi” nos dias de
      hoje.Beijinho no ombro!!!

    • 16/12/2015 at 14:12

      Que pena que meu artigo tenha levado a uma discussão que não tenha nada a ver. É como o artigo sobre Macaquinhos. Tá difícil.

    • Guilherme G. Pícolo
      16/12/2015 at 16:56

      Aí é que está: você confunde gosto pessoal com política de Estado. A essência de um Estado Democrático de Direito está na pluralidade e na tolerância.
      *
      Ah, e já que trouxe à tona o assunto, eu votaria no Trump, pois nós, brasileiros, nunca mais teríamos vergonha das metáforas do Lula. Pelo contrário, comparado ao Trump, Lula seria equiparado a Sócrates.

    • 16/12/2015 at 20:00

      Picolo, Trump não é equiparável a nada que seja vivo no mundo.

  6. Pedro
    14/12/2015 at 21:54

    Essa imundície nauseante que no Brasil se chama hoje de “funk” está para o verdadeiro funk (de Kool & The Gang ou Earth, Wind & Fire) assim como o atual pagode de auditório está para o samba feito por Cartola ou Paulinho da Viola… É claro que não se pode ser favorável à sua proibição. Mas querer comparar o seu significado com o da capoeira já é um exagero.

    • 15/12/2015 at 00:00

      Pedro você leu demais. Não há no meu texto nenhuma comparação entre capoeira e funk, nenhuma. Agora, se você conseguir se acalmar e ler o artigo com as informações que lhe dou, e com um pouco de história do Brasil (do ensino médio mesmo serve), a coisa melhora para a sua compreensão. O que foi comparado foi o tipo de linguagem que se põe contra o que é popular. O que você viu, não existe no texto. Tente ler de novo.
      Agora, sobre você tratar expressão nossa da cultura como imundície, aí é com você, mas não com esse blog. Posso não gostar de funk, mas esse adjetivo que você usou descamba para coisa ruim que não quero no meu blog. Obrigado por atender meu pedido.

    • LMC
      15/12/2015 at 14:06

      Bem,Pedro,quem faz barulho
      -e pode ser funk,func-func-
      ou uma igreja evanjegue e
      precisa dormir,o que faz?
      Vai pra casa da sogra?Nem
      todo mundo tem casa na
      Praia Grande ou em Campos
      do Jordão pra fugir de SP.
      Pois é……

    • 16/12/2015 at 09:51

      LMC você deixou levar pelo Coronel Telhada. O problema nada tem a ver com som.

    • LMC
      16/12/2015 at 13:11

      Bem,enquanto a capoeira é
      uma arte milenar africana
      vinda ao Brasil pela
      escravidão,o funk(que nada
      tem a ver com o funk dos
      EUA)foi inventado por
      meia dúzia de donos de
      gravadoras e de TVs
      coxinhas.Pegaram o
      nome do funk e botaram
      numa coisa que não é
      funk.O Rap,sim,é a
      grande expressão
      musical dos subúrbios
      brasileiros depois
      do samba.

    • 16/12/2015 at 13:56

      LMC como é difícil para você entender um artigo simples. O artigo refere-se claramente às soluções dadas ao que é popular. Tem dó! Seja conservador, mas não precisa ser assim, durão de cabeça. O artigo é fácil.

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