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15/12/2017

Capitão Nascimento é gay – só você não sabia!


Os negros têm o direito de ocupar o serviço público brasileiro sem que, para isso, tenham de deixar de serem negros. As mulheres também. Os travestis e anões também. Se um dia tivermos robôs por aí, eles também acabarão tendo direitos desse tipo. E para certos serviços, os cachorros já estão no serviço público, e não precisarão abdicar de serem cães para isso – e estão conquistando direitos. Os gays já estão há mais de uma década conquistando direitos e mais direitos, sem que seja necessário para tal “agir como não gays”. O mundo plural avança sobre estruturas rígidas que amarram cabeças rígidas.

Nisso tudo, há no centro, agora, o Capitão Nascimento.

O Capitão Nascimento é um herói nacional. Foi feito como anti-herói, mas o filme dele não seguiu muito o livro e, enfim, o tiro saiu meio pela culatra. O Capitão Nascimento virou herói não pelo fato de ter se condenado, mas pelos atos de selvageria que os produtores e diretores do filme Tropa de Elite acharam que ele seria condenado pelo público. Desse modo, boa parte dos que viram nele um exemplo, e que não raro possuem algum problema com sua própria “macheza”, recentemente tiveram de sair do cinema ao darem de cara com o Capitão Nascimento sendo devorado por um bofe, em A praia do futuro. E saíram mesmo! Foi uma rebeldia gay ao ver o herói aparentemente não gay, o homem duro do Bope, agora na sua real condição de bichona passiva.

Junto disso, há também um outro detalhe. Os que negam direitos às minorias, não raro, são os menos escolarizados, os mais duros de cabeça, e que aparecem nas redes sociais da Internet reclamado de novelas da Globo, da “imoralidade” dessas peças. Confundem ficção com realidade, não entendem a função da teledramaturgia, pedem novelas didáticas, querem “bons costumes” sem saber o que é “costume”. Pessoas assim se aproximam, em inteligência, das que saíram do cinema ao verem na tela A praia do futuro.

Wagner Moura se tornou ator popular e, então, tem de pagar o preço: vai ser hostilizado por ter deixado de ser homem.

Essa barbárie toda contra as artes e essa forma totalmente ignorante de pensar é cultivada pela imprensa conservadora. A direita política, mesmo quando se diz “aberta”, contribui para isso. Não pense você que uma pessoa culta de direita – coisa cada vez mais rara no Brasil – não alimenta um Lobão ou um Reinaldo de Azevedo ou uma Sherazade. Alimenta. E esse tipo de gente comanda as frentes contra direitos de minorias. Não são nada diferentes de Bolsonaro ou Malafaia. No limite, incentivam a incapacidade de convívio com o ficcional, mesmo quando se dizem escritores. Nisso, não ficam longe da esquerda tradicional, bolchevique, moralistóide, que ainda está por aí.  E nisso não diferem muito dos que policiam outros por meio de uma versão canhestra do “politicamente correto”.  Esse imbróglio ajuda em muito que se saia do cinema quando o Capitão Nascimento decide colocar o Robocop Gay, lá dos Mamonas, para escanteio.

Esse movimento contra direitos de minorias é mundial. Em todos os países ele ocorre. E segundo as proporções localizadas, os menos escolarizados ou menos sofisticados estão na cabeça desse tipo de conservadorismo cuja base é, sim, uma ampliada ignorância. Trata-se daquela coisa que Hitler tinha: um tipo de educação que o fazia não conseguir compreender o surrealismo, e que o fez caçar intelectuais que não fossem aqueles que ele tinha visto como intelectuais apenas na escola primária.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

 

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6 Responses “Capitão Nascimento é gay – só você não sabia!”

  1. rejane
    01/09/2014 at 22:05

    Paulo G.,

    “E segundo as proporções localizadas, os menos escolarizados ou menos sofisticados estão na cabeça desse tipo de conservadorismo cuja base é, sim, uma ampliada ignorância.”

    Discordo. Sou conservadora, porém não ignorante, não menos escolarizada e nem menos sofisticada. Contudo, quanto a esse tipo específico de direito de minorias minha posição sempre será “contra”.

    Salut!

    • 02/09/2014 at 15:25

      Rejane, pelo que você escreveu você é sim um pouco ignorante.

  2. Wagner
    26/05/2014 at 16:52

    A moral sempre quis tecer o homem como ideia. A questão da homofobia, ao que tudo indica, está relacionada ao desejo ou repressão do mesmo. A identidade sexual é transformada em ideal, matando na carne qualquer descoberta que atente contra o padrão. O soldado moral não consegue ver no mundo qualquer dissonância em relação ao ideal internalizado. Geralmente, a moral vence o ser já na infância.

  3. Jacques do Loghiralo
    22/05/2014 at 19:58

    Esse tipo de filme com temática gay as vezes costuma chocar, muita gente não está acostumada ou simplesmente não gosta. Não vi o filme, não sei como é, mas acho estranha essa situação de pegar um bilhete com carimbo de aviso do conteúdo e ainda sim sair da sala.

  4. Robes da Silva
    22/05/2014 at 19:46

    A Sherazade é cinéfila. Será que já foi ver o filme?

    • 22/05/2014 at 20:22

      Sherazedo não entende o que vê. Não adianta ela ir no cinema.

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