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27/05/2017

Caos do ensino NÃO é culpa do professor


“Hey teacher, leave them kids alone”
– Yes, Yes my dearest Pink, it is a pleasure!

A escola não é autoritária, a vida fora dela é que é autoritária. Essa verdade se impôs não diretamente contra a pedagogia do movimento renovador, que veio de John Dewey até Paulo Freire, mas como uma ironia em relação a todo tipo de ensino. No Brasil, essa ironia ganhou um traço de sarcasmo.

Nossa sociedade não é só autoritária, ela é violenta. E por isso é duplamente autoritária! Então, quando os professores, mal entendendo o que Dewey e Freire disseram, se convenceram que a autoridade que tinham era autoritarismo, foram pegos de surpresa pelo verdadeiro autoritarismo instaurado pelos alunos, já não mais estudantes. Um autoritarismo realmente violento.

Contra a palmatória escolar nasceu a racionalidade pedagógica e a chamada “psicologia do interesse”. Em reação, com espírito vingativo, inclusive em relação ao fato do professor um dia ter detido o conhecimento e ser posto como uma segunda mãe, o que entrou na escola foi o xingamento, a faca, o protesto de horda e o estupro. Há alguns anos os sindicatos paulistas indicaram que mais de 85% dos professores de São Paulo já havia, em cinco anos de magistério, sofrido algum tipo de violência física. É muito. Nos anos mais duros do ensino chamado autoritário somente 10% dos alunos recebiam a palmatória, ainda que o puxão de orelhas (nos mais pobres) tenha sido comum até perto dos anos sessenta, sem admoestação.

A violência contra o aluno e a luta contra o autoritarismo do professor fizeram parte de uma disputa entre psicologias educacionais, entre pedagogias. A violência do aluno para com o professor e para com outro aluno, que inventaram de chamar de bullying por falta de conhecimento de tudo que se chama infância e adolescência, não é uma disputa de questões teóricas. Trata-se do fracasso da escola no Brasil por culpa de muita gente, menos do professor.

A culpa da escola viver o caos em que está, em especial a escola média, seria do aluno, caso pudéssemos dizer que se pode optar por passar ou não pela adolescência. A adolescência é é uma época de construção de um sistema de valores, de um plano de vida, mas é também época de viver em bando e tentar aparecer no bando interna e externamente. Nessa hora, os mais ricos podem morrer dando racha de carros. As meninas podem morrer pegando AIDs com aquele que era “limpinho”, ou então de overdose, coisa que disputam agora com os meninos. Os mais pobres podem morrer em atos de heroísmo contra a polícia, na luta por se tornar “o mais novo chefe da gang”. Não há tribos que valorizam, nessa hora, que o adolescente apareça por gostar da cultura, por ler ou trabalhar. Nenhuma sociedade ocidental atual consegue colocar esses valores para o adolescente. O Brasil menos ainda. Os gregos sabiam disso e por isso fizeram a única educação correta para essa idade, a que integrou a Paideia tomando o nome de pederastia – e que horroriza os energúmenos e incultos de hoje.

O segredo dos gregos foi o de deixar os laços sociais mais fortes adquirirem uma faceta pedagógica. Ou seja, cada grego adulto, cidadão, se responsabilizava por um efebo ao qual havia se apaixonado, e não podia coloca-los sob seus valores particulares, mas sob os valores gerais da polis. Como não temos como fazer isso, e no nosso caso até punimos os professores que se aproximam amorosamente de alunos e vice versa, resta-nos pagar muito bem aos próprios professores para que eles possam se dedicar a cada adolescente, tendo então tempo e incentivo nos sentido de valorizar neles outra forma de aparecer que não a puramente destrutiva.

Eu conheci uma escola que, em parte, conseguiu fazer isso. A minha escola média. Nem todos os professores atuaram bem. E nem todos os dias. Mas alguns professores em alguns momentos me deram a chance de ver que aquele garoto que gostava de ler no ginásio, ainda existia em mim na adolescência, no colégio. Isso me salvou da morte. Isso me salvou de ter espancado um professor. Isso me fez escapar de me perder em uma aventura armada (ainda que eu tenha passado aperto com a Ditadura Militar mesmo assim). Mas os professores que conseguiram fazer isso por mim não agiram assim por super-heroísmo, mas apenas porque ganhavam o suficiente para terem uma vida estável, e realmente ter tranquilidade para se colocar diante do alvoroço da minha vida. Eu era o Diabo da Tasmânia, eles o Pernalonga.

Os intelectuais que lidam com a educação hoje e os governantes são, na maioria, um bando de desmemoriados. Eles não lembram que foram jovens. Nasceram adultos e já com essa cara de frangos com hormônio que possuem.

No Brasil, o sistema educacional e cultural está inteiramente corrompido. Uma ou duas editoras hoje em dia, só para se ter uma ideia, controla quem vai escolher os livros para o MEC comprar. As editoras precisam, hoje em dia, do dinheiro do estado. Uma ou duas pega o dinheiro não porque oferecem o melhor produto nas licitações, mas por conta de uma ligação com o indicador mais astuto, dentro do esquema de favorecimento que rege esse tipo de atividade. No meio educacional esse tipo de coisa virou regra, e só não aparece porque diante dos valores do mesmo fato na Petrobrás, o caso do livro vira brincadeira de criança, ou melhor, coisa de “trombadinha”. Um sistema assim, todo ele de ponta cabeça, não pode mesmo valorizar o salário de professor. Não está funcionando para isso.

Em um sistema corrompido, então, os governantes vão continuar dizendo que a solução é o ensino técnico (escola técnica demanda compras e, portanto, editais de licitaçao – oba!), ao mesmo tempo que continuarão negando pagar bem o professor. Ao lado disso, uma legião de psicólogos e pedagogos imbecis vai continuar culpando o professor e o chamando de … autoritário! Para fazer a cobertura do bolo sempre haverá uma tia junto para fazer coro com algum político reclamando da “falta de amor” do professor. Enquanto todo mundo trabalha por dinheiro, inclusive não merecido, o professor deve trabalhar por amor. Ah! O amor é lindo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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14 Responses “Caos do ensino NÃO é culpa do professor”

  1. Teophilo
    31/01/2015 at 23:11

    Este sujeito de 87 anos fazendo campanha pelo voto nulo na Paulista simboliza o espírito guerreiro do professorado. Mas concordemos que são uma classe subversiva. Olha a fala: “O povo brasileiro é tão ignorante que perguntava para mim se não ia preso se votasse nulo. Este é o retrato do Brasil!”

    http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/idoso-de-87-anos-vai-ao-seu-16-protesto-pais-esta-um-lixo,bd130dd272b3b410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

  2. wender
    28/01/2015 at 10:16

    O professor mesmo não trabalhando por “amor”, mas tendo dodições de fazer o seu trabalho, apesar das dificuldades impostas pelo sistema educacional e deixando o professor trabalhar e dando condição do professor viver bem a educação seria melhor. Cobrando também os resultados dos alunos quanto mais capazes e qualificados pelo professor o professor deveria ganhar melhor proporcional ao rendimento dos alunos em sala de aula.Assim quanto mais qualificados os alunos o professor teria uma renda melhor. Para esse fim poderiam aver provas independentes para avaliar os alunos e repassar para o professor os resultados. Nada muito diferente de uma empresa em que o patrão espera que seus funcionários deem produção ou lucro, mas com a diferença que na area da educação é a avaliação do que o aluno aprendeu que seria a produção do professor.

  3. Saulo
    20/01/2015 at 21:41

    O PT descobriu que professor e médico devem trabalhar por um salário de amor depositado num banco de amor.

    • 20/01/2015 at 22:35

      Saulo infelizmente essa NÃO foi uma descoberta petista, mas do psdb, do pmdb, da Ditadura Militar. Aliás, a descoberta de que TODO o funcionalismo público deveria trabalhar só por amor foi do FHC.

    • LMC
      21/01/2015 at 13:06

      O regime militar acabou com
      a escola pública,porque os
      milicos achavam que todo
      professor era comunista e
      estavam sobre as ordens
      da KGB.Até hoje,tem
      gente metida a inteligente
      que acredita nisso.

  4. 20/01/2015 at 14:24

    não entendi pelo artigo o mais importante, seu posicionamento diante da Escola Nova. Eu tenho a opinião, que reconheço discutível, de que a educação no mundo, mas particularmente no Brasil, vinha por um caminho interessante, não quer dizer que era perfeita, vinha trilhando na teoria um caminho promissor, mas sofreu um golpe duro do marxismo. O marxismo, grande detentor do poder nos centros de pesquisa pedagógica e adjacências, apontou seus canhões contra a Escola Nova. Mas o marxismo não propôs nada de substancial para o lugar. A pedagogia histórico crítica do Saviani não vingou. Não tinha consistência nem prática nem teórica. Assim o marxismo destruiu, fez um lado bom no sentido negativo, criticou, mas só destruiu, não substituiu. Exatamente porque o marxismo é profundamente contra a educação. Quando um marxista entra na pedagogia é pra dizer: fujam daqui, aqui não é o lugar. O lugar é a fábrica, a greve, o poder, a economia. Então o que eu proponho é o restabelecimento da utopia dentro do pensamento pedagógico. Porque a utopia é a ideologia da educação, que acredita que é na educação que são forjadas as grandes mudanças sociais. Mas não se entenda isso como uma crítica ao marxismo. O marxismo na pedagogia tem qeu ser incorporado e superado, e nunca negado. Não vamos voltar ao estágio de uma pedagogia qeu não tinha consciência dos condicionantes sociais, como se a educação se desse no nimbo.

    • 20/01/2015 at 14:31

      Luiz passei uma vida escrevendo sobre o que me pediu, por favor, leia, até porque é best seller. O que é pedagogia (Brasiliense), Filosofia e história da educação brasileira (Manole), e os mais recentes Lições de Paulo Freire (Manole) a A nova filosofia da educação (Manole)

  5. 20/01/2015 at 12:25

    Nossa, que texto fantástico! Inclusive no lance do ensino técnico, o governo é bom, ele compra a maquina, ele apenas esquece de comprar a instalação e a manutenção junto. Fica para o museu da escola, uma maquina nova. Não há problema! Ninguém ficará sem formação, ninguém quer ser engenheiro mesmo, todos querem entrar numa empresa para conseguir um cargo na diretoria. Para isso aprender a ficar numa sala coçando é essencial. O ensino a distancia resolve tudo, o necessário é apenas uma sala, para que os alunos se reúnam em concílio e rezem para aprender alguma coisa. Se vier um fiscal procurar professores nós contratamos alguns e, mandamos embora no outro dia. Tudo tem solução, só a morte que não, né…

  6. João Pedro
    20/01/2015 at 12:03

    Professor, não existe nenhum estado no brasil, ou cidade, que sirva de modelo de educação? Estamos todos afundando no lodo?

    • 20/01/2015 at 13:35

      No ensino médio estamos! Você já viu nossa participação, durante os últimos vinte anos, nos exames do PISA?

  7. Cesar Marques - RJ
    19/01/2015 at 21:59

    Hoje lá no Participação Popular (TV Câmara), se discutiu o tão propalado “Ensino Militarizado” para as escolas públicas, onde oficias das Policias Militares assumem o cargo de diretores das escolas públicas. E parece, pelas enquetes realizadas pelo programa, que esse tipo de ensino tem um feedback positivo da sociedade.

    Faltou a participação do senhor lá no programa, uma pena.

    Abraços.

  8. Rafael Costa
    19/01/2015 at 19:31

    Ótimo texto, só a referência ao genial Pink Floyd já valeu 70% rsrsrsrs

    É muito estimulante ler um texto sobre educação que saía do senso comum, do currículo inchado, e a conversa de que o aluno deveria ver utilidade na escola como pretexto para implantação de ensino técnico a torto e a direito no Brasil.

    O quadro educacional no Brasil realmente é devastador, são espaços físicos precários, depósitos, chamados sala de aula, com mais de 40 crianças/adolescentes, descaso total com o aluno.
    Os salários baixíssimos fazem com que muitos professores larguem da profissão. (O porteiro do meu prédio era professor de história na rede estadual de ensino, se formou em uma faculdade particular da minha cidade em 2007, largou pois “o salário é menor que o da portaria, e o trabalho na escola cansa mais.”. Isso é sério.). Os profissionais que ficam, muitos pela estabilidade dada pela efetivação, outros nem sabem porque, só continuam a rotina, como o operário de uma fábrica. Descaso total com o professor.

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