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20/09/2019

Calligaris e Ortellado: desencontro infantil


O artigo de Calligaris na Folha de S. Paulo sobre O novo abuso de criança (23/04) termina com a seguinte frase: “As catástrofes morais não têm a ver com a pobreza; elas têm a ver com os ideais que nós mesmos promovemos, como o da infância, se não da infantilidade”. Uma frase assim causou indignação do professor de filosofia Pablo Ortellado (1), expressa em seu Facebook. Para ele, Calligaris cometeu um ato bárbaro ao falar em ‘degenerescência moral’ como algo alheio a causas sociais.

Estranha reação a do meu amigo Ortellado. Primeiro: Calligaris não fala em “degenerescência moral” e sim em “catástrofe moral”. São coisas muito bem distintas. Segundo: a frase de Calligaris é no final do texto, e durante todo o texto ele coloca argumentos da história social para explicar sua quase conclusão filosófica. Desconsiderar o texto todo e ficar na frase final, e ainda por cima deturpada, mostra o quanto até mesmo bons intelectuais, professores uspianos, estão lendo apressadamente as coisas.

Como a leio, a tese de Calligaris é basicamente correta. Para ele trocamos o esforço das crianças para serem amadas pelo nosso esforço de comprar o amor delas. No cômputo geral, tomando o Ocidente como referência e não este ou aquele país, o resultado foi uma transformação valorativa e de sensibilidade que deixou as crianças capazes de maiores perversidades e menores punições. Calligaris não diz, mas isso tem a ver com o romantismo de Rousseau e seu maior indício são os filmes de Spielberg. Mesmo quando o seu filme é de pura ação, puro comércio, esse tema da culpa dos pais está presente. Sua obsessão não é à toa, não surgiria em outra época.

Calligaris faz assim para concluir que cada caso é um caso quanto às punições de menores. Ele deixa claro que a questão de se lidar com a criança ou jovem que faz uma infração, do ponto de vista de sua ótica, não é a de quem está lidando com o problema sociológico da violência, e não deve nada ao problema de baixar ou ampliar menoridade. Do seu ponto de vista, uma “catástrofe moral”, ou seja, uma perda do que pode ser certo e errado, é alguma coisa que está fora dos registros de se estar na pobreza ou não. Em outras palavras: ele não está avaliando causas da violência, ele está avaliando a “catástrofe moral”, ou seja, a confusão valorativa e o caos a respeito do que é punível ou não, e, nesse caso, a escala rompida é sim uma escala entre o que é posto como alvo e o que é atingido. Ou seja, Calligaris escreve seu texto no registro da filosofia, não da sociologia. Isso parece que confundiu Ortellado que, como professor de filosofia, mas excessivamente politizado, tende a crivar as coisas antes pela sociologia e pela política que pela ótica do autor.

Calligaris em nenhum momento do texto está avaliando processos de diminuição da violência. Ele está tomando a questão de como que ocorre uma “catástrofe moral”. Seu olhar está correto, pois a falha ocorre quando se põe como ideal o que não se pode alcançar de modo algum, dado que é antes de tudo uma fantasia, e então a falha está posta desde o início. Falando segundo o meu jargão: Rousseau nos deu uma infância idealizada, e isso junto do mundo burguês também idealizou a família, e o resultado só poderia ser a catástrofe moral mesmo, uma vez que nunca tivemos algo na mão para lidar senão nossas fantasias. Deveríamos ter temperado Rousseau com um pouco de pensamento do Leste. Umas doses de Nabokov para mesclar não nos faria mal.

É isso que ocorreu. Só isso. A lição que devemos tirar disso é significativa: os nossos professores de filosofia precisa voltar a filosofar. Há uma sociologização e uma politização do raciocínio de professores de esquerda, hoje, que acabam reduzindo tudo, quase como a própria direita faz em determinados momentos. Caso os psicanalistas estejam usando a linguagem da filosofia, ao menos os professores de filosofia deveriam entendê-los.

É errado reduzir o artigo de Calligaris a algo como “o meio social condiciona o homem” ou “a pobreza é causa da violência” e coisas do tipo. Mesmo que ele estivesse falando sociologicamente, isso seria pueril.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

1. “So agora eu li o artigo do Contardo Calligaris na Folha no qual, no final, argumenta que a causa do crime é moral e nao social. Nao consigo acreditar que ele realmente esteja dizendo que o crime é simplesmente causado por uma “degenerescencia moral” e que nao é condicionado por questoes sociais. Sera que ele nunca olhou para as estatisticas de crimes e notou que os acusados e os condenados sao quase todos pobres e negros? Se a criminalidade é degenerescencia moral e os “degenerados” sao pobres e negros, isso quer dizer que as classes mais altas e os brancos sao moralmente superiores? Inacreditavel que algo assim possa ser enunciado no seculo XXI” – Pablo Ortellado no Facebook 24/04/2015

Post Scriptum. O que mais me espantou nesse post do Ortellado foi os seus leitores, bem chamados aí de seguidores. Como uma turba de direita, não foram ler o artigo de Calligaris e começaram a vociferar contra o psicanalista. Um comportamento de turba, de bando, de horda fascista. Gente de esquerda? Triste ver isso!

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2 Responses “Calligaris e Ortellado: desencontro infantil”

  1. sonia
    27/04/2015 at 17:01

    Gostei

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