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16/08/2017

Calligaris, e o amor por amor


Comentários ao artigo do Contardo Calligaris na Folha de São Paulo, com o título Amor à venda

Se há algo que faz com que Contardo Calligaris fique efetivamente excitado é a carne. Não, ele está longe de ser um Tony Ramos, de barriga enorme de Friboi, ou de um Roberto Carlos, que está com uma conta sempre maior que a banha. Calligaris está mais para o Dr. Lecter Hannibal do que para os dois garotos propagandas do marido daquela bela apresentadora, a Ticiane. Ele gosta de carne humana.

Há psicanalista não canibal? Talvez, mas não podem ser da qualidade de um Calligaris. Este, jamais come sem antes colocar o dedo. Olha, pensando bem: Calligaris faz com a carne humana o que São Tomé fez com Jesus: “eu quero colocar o dedo nas feridas, só então acreditarei que é Jesus mesmo”. E a nossa mitologia judaico-cristã conta, então, que Tomé foi o único que tocou mesmo o corpo já sagrado de Jesus. É Calligaris. Mulheres estupradas deixariam Calligaris acariciar sua vulvas e até apertar um pouco, e não chorariam, sentiriam gratidão.

Calligaris fala do sexo como quem põe dedo na ferida, mas de um jeito especial, para não perder o cliente. Depois da terapia amorosa, recebe o pagamento. É dinheiro. Ele tem pudor com a mulher que toca, mas não se sente obrigado a ter pudor com aquilo que todo mundo, segundo ele mesmo, se obriga a ter: o dinheiro. Calligaris é um canibal com pudores para com a vítima, não para com o pagamento da vítima.

Ele sabe bem que uma sociedade sem dinheiro é alguma coisa que não sabemos imaginar. Ele sabe, como diz, que o dinheiro está muito presente e tudo comanda. Ele sabe que o dinheiro rege nossas formas de sexo, e ele diz isso, insiste nisso. É uma banalidade “amor por dinheiro”, mas gostaríamos de poder imaginar um mundo sem isso, com mais liberdade que esta liberdade concedida pelo dinheiro. Esse nosso sonho é o que faz com que filmes que falam de amor sem dinheiro, e ainda assim com características de prostituição, nos fazem bem. Mais ou menos, Calligaris concorda com isso. Esse é, enfim, o seu melhor recado no artigo “Amor por dinheiro”.

Calligaris está certo, segundo o que penso. A grande façanha e a grande utopia de minha geração era ir na zona e não pagar! Ser brindado pela prostituta com o direito de arrancar dali, na prostituição, a façanha de ficar e não ter dinheiro!

Todavia, se gostamos de pensar na utopia do amor feito como aquele feito idealmente pelas prostitutas, sem que exista o dinheiro, isso não explica as regras de combate à prostituição como ligadas ao nosso “tabu do sexo”.  Aí eu penso que valeria ir além de Calligaris, se é que o entendi bem.

fuck me pumpsO sexo está envolto em restrições que tem a ver com os frutos de algo que, um dia, se expressou na Grécia, colocado pelos sete sábios, talvez pelos próprios deuses, como inscrição no Templo de Apolo: “conhece-te a ti mesmo”. Isso quer dizer: saiba-se mortal, diferente dos deuses, os imortais. Portanto, saiba que, sendo temporário, é uma grande bobagem gastar seu tempo à toa. Aproveite bem o tempo, a vida. Isto é: saiba viver. Conheça-se como sendo finito para não gastar-se à toa, e então viva tudo, viva bem. Ao contrário do que muitos podem pensar, essa não é uma máxima do desregramento, da euforia hormonal adolescente, mas um recado a respeito da capacidade de educação, da prudência. Eis aí um ensinamento de toda religião ou filosofia, de Sócrates a Nietzsche passando por Agostinho e Sade.

Ora, mas então, o que é não saber viver? Não saber viver é antes de tudo não se entender finito, com limites, não-divino, e portanto não fazer as coisas com sabedoria. Fazer as coisas com sabedoria é levar adiante um projeto de pedagogia que faz a seguinte questão: por que meu pau fica duro? Ou então: por que minha xoxota escorre? Em termos menos bíblicos: por que meu desejo parece ser um Outro, comandando meu corpo de modo a me fazer agora, após eu ter comido do fruto da Árvore do Conhecimento, ter vergonha de Deus?

O Pecado Original nunca se relacionou com desejo e sexo, mas com desobediência. Mas quando apareceu Agostinho, ele fez essa relação. Isso porque ele estava não só interessado no pecado, mas na punição do pecado. Agostinho tinha preocupações antes com os sentimentos de culpa, com os sentimentos de vergonha, que com o pecado em si. Ele era, antes que um homem da Igreja, um filósofo, e antes ainda, um profundo psicólogo. Agostinho era um tipo meio que ancestral dessa atividade de Calligaris, a atividade de pegar com tesão e suavidade as feridas.

Assim, Agostinho teorizou sobre a mobilidade autônoma do corpo desejante como sendo uma punição de Deus sobre Adão e sobre Eva: já que me desobedeceram, vocês irão sentir nos seus corpos o que eu senti, ou seja, aquela coisa horripilante que é ver a criação, os próprios membros, andando sem meu “start”. Eis então aí os movimentos involuntários associados com a vergonha.  Com o tempo, isso que era um dos resultados do pecado original (ou outro, concomitante, foi o de se tornar mortal e então viver num mundo do bem e do mal, tentativas de regras na vida do salve-se quem puder), ou seja, a autonomização do corpo de modo que o fazer sexo se institua por si mesmo (antes, no Paraíso, a reprodução era assexuada) pois desejo e movimento corporal se colocaram autônomos, passou a ser o próprio pecado. Por uma razão simples: quem gosta que isso ocorra, está gostando da punição, então, está praticamente dizendo que faria tudo outra vez se fosse para receber uma tal punição. Gostar da punição é, de certa maneira, reaprovar o crime, o pecado. Peca-se aí mais uma vez. Esse raciocínio agostiniano colocou para a religião Cristã a virtude do controle sobre o sexo. O “conhece-te a ti mesmo” délfico-socrático reapareceu, então, nas mãos de Agostinho, como uma regra de quem repõe a prudência de um modo muito específico, limitado: moderar-se é moderar-se no sexo.

São Paulo já havia feito essa operação antes que Santo Agostinho. Afinal, São Paulo nasceu em terras em que a filosofia estoica nasceu, e ele próprio havia tido uma educação romana, com forte influência estoica. Mas São Paulo nunca fez incursões psicológicas e filosóficas como Agostinho fez. A Igreja adotou a doutrina agostiniana tardiamente. Mas, é sabido, depois daí ela realmente começou a se preocupar de modo teológico e doutrinário com o sexo. Todas as cenas de sexo e de desvario do Velho Testamento, então, foram sendo reconstruídas pelo cristianismo, em mais ainda na versão luterana.

Essa nossa relação com a sexualidade de tipo cristã, já na versão culta, filosófica, posta por Agostinho, é o que está na base de nosso tabu com o sexo. Ora, pior então o dinheiro. O “amor por dinheiro” é o desafio contra “o amor por amor”. O amor por amor que leva ao sexo é, se gostado, a reiteração da punição do pecado e, então, afirmação do pecado. O fingimento do amor por amor que leva ao sexo, se gostado tão intensamente a ponto de ser pago, é intensamente reiteração do pecado. É um duplo pecado em mais alto grau.

Eis aí uma saída para o enigma de Calligaris, posto por Agostinho, tão canibal quanto ele.

Filósofo Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura. (Cortez, 2014)

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2 Responses “Calligaris, e o amor por amor”

  1. manoel lucas
    09/05/2014 at 01:01

    Complementando meu último post, muita gente vai ler e vai entender ao contrário. Vão achar que estou falando de relações interidades, inter gerações e coisas do tipo. Mas não é nada disso. Mas da necessidade comportamental e posturas de um casal, um frente ao outro.

  2. manoel lucas
    09/05/2014 at 00:43

    Vou me ater às relações de poder, punição e venda. Mas vou mais pelo viés sociológico, pelo menos, inicialmente. Sou encrenqueiro com o conceito de venda. Vender está de um lado, comprar está de outro. Não há vendedores sem compradores e compradores sem vendedores. Seja de maneira simétrica ou assimétrica, estabelece-se uma relação de compra e venda. Ou seja, troca, seja lá qual for a necessidade entre as partes, uma troca. Não me rendo ao fascínio de ter como pré-suposição, como único eixo, uma troca entre as partes, através de um equivalente geral, o tal do dinheiro. Porque, em meu ver, estaríamos recortando as relações de trocas, incluindo aí as relações assimétricas como as simétricas. Mas sei, tem a discussão da punição, culpa, viés cristão, etc. Mas, Amor à venda? Que tal, Troco Amor Por…E Troco Algo Por Amor. Claro, aqui já não estou mais falando das prostitutas, ou melhor aquelas que são consideradas as únicas prostitutas, pois trocam por um equivalente geral, o dinheiro, em lugares que não são lares. Mas, veja, se escapo da ideia de venda, aliás uma venda submissa, e parto para a noção de troca, ainda que em desigual relação de poder, posso incluir aquilo que chamamos de lar e podemos incluir os domicílios e os domiciliados. Pois, nos domicílios, pode haver uma troca, o que não é tão raro assim. O mais curioso, é que não se percebe ou faz-se vista grossa para uma relação de troca num lar ou domicílio. As operadoras de cartões de crédito que o digam. Mas, muitas vezes, a troca desigual não se dá por coisas materiais. Muitas vezes, pelas próprias relações afetivas que não se dão de maneira independente, mas por certos afetos, emoções. Incluo aí até uma derivada simulação do Complexo de Édipo , entre o próprio casal, o tal marido e a tal mulher, mesmo que inconsciente entre as partes, mas claro, não só este. Pronto! Está aí mais uma troca, e o poder, assimétrico ou não, não está mais fora dos lares e domicílios. Eis porque, enfim, não gosto de falar em venda, mas em troca. Trocamos muito mais que somente através do dinheiro, trocamos afetividades. Entendo que o marido então “vende algo” e a mulher também “vende algo” e ambos compram algo, algo que necessitam. E aqui ninguém falaria em culpa e portanto em punição. São “vendas veladas”. Mas acontece que, infelizmente ou felizmente, ao meu ver, esta troca não basta, afinal o corpo se movimenta de maneira autônoma e não está presa somente àqueles relações afetivas entre um casal, se simbolizada de maneira derivada do tal complexo de Édipo, ou qualquer coisa do tipo. Estou falando da esposa-mãe em relação ao marido-filho, ou a esposa-filha e o marido-pai, isto é nos ‘papéis sociais velados e inconscientes num casal, cobrados muitas vezes pelas duas partes.
    Eu não vejo, a prostituição e sua ‘venda’ só pelo equivalente geral como que desconectada das trocas num casal, domicíliados. Se desconectadas ficou pesado, falemos então em estanques. Aliás de muitas outras coisas para além do domicílio. E mesmo entre solteiros, divorciados ou viúvos, que fique bem claro. Talvez aqui também se encaixe o que Callegaris falou quando citou a viúva que jogou fora o quadro do marido. Mesmo morto, domina. Interessante não é? Mesmo morto, domina. Mas o corpo se movimenta de maneira autônoma não é? Até neste caso. E claro, há quem fomente estes jogos de poder assimétricos, num lar ou domicílio. Protege-se um modelo onde também há a ‘venda’ e expurga-se outro, das alheias alcovas.
    Mas agora, saíndo do viés sociológico… Que tal introduzirmos o Libertário e o Libertino e a libertária e a libertina na discussão? Uma discussão mais Filosófica. Afinal, os corpos se movimentam de maneria autônoma… E que tal introduzir a questão da desconservação?

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