Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/06/2017

Os cães dependem do ensino, os homens do adestramento


 

Os homens são adestráveis, os cães são ensináveis. É uma verdade compartilhada entre os moradores de rua e as velhas professoras da escola primária.  Elas sabiam disso, é claro, ao menos quanto à primeira parte da sentença, por serem doutoras naquilo que Peter Sloterdijk chamou de antropotécnicas. Eles, por sua vez, sabem bem tudo sobre a segunda parte do enunciado, por amor.  

Cães adestrados servem homens, mas não são cães. Os cães aprendem a serem cães pelo ensino regular. Ou seja, o cão que convive com o humano o imita e, se o ambiente for de carinho e respeito mútuo, só não opta por falar para não ter que trabalhar. Vivendo assim, comporta-se como um verdadeiro cachorro. O homem pode tentar imitar outros, e nisso aprende muita coisa, mas só desenvolve suas melhores capacidades para ser homem por meio de antropotécnicas, que são sua “formação”, e no interior destas muito do que faz é serviço de exercício e repetição.

Pitoko nunca precisou que lhe treinassem para carregar a sua coleira. Ele percebeu que a guia é que deveria guiá-lo, então decidiu ele mesmo comandá-la, e assim fez. Paulo Francisco, para escrever, foi submetido a um longo processo de exercício de repetição das letras e sílabas, desenhando insistentemente cada uma delas. Só assim passou a escrever. O treinamento é algo nosso, daquele que Platão um dia chamou de “o bípede sem penas”. O cão não precisa disso, ele é quadrúpede.

A psicologia canina parece simples, mas é complexa. A psicologia humana parece complexa, mas há uma dimensão nela que é bastante simples. É fácil notar isso se levamos a sério a frase de Sloterdijk que diz que onde for que procuremos homens, encontraremos acrobatas. Homens são os que praticam para conseguir performances de modo que no dia seguinte voltem à prática, para fazer o que já faziam, mas de modo melhor e mais preciso. Ao contrário, os cachorros aprendem logo e pouco se aperfeiçoam. Pitoko aprendeu a subir escadas no parquinho e então sempre faz aquilo de modo exímio. Paulo Francisco foi posto em treinamento para subir escadas e com insistência e repetição foi melhorando dia a dia seu desempenho. Talvez até hoje não seja bom nisso, pois treinou mais para filosofar. Filhos cães aprendem, filhos humanos são adestráveis. Nós, os tais humanos, somos animais da prática.

Seguindo John Dewey e, de certo modo, ao menos nisso, não desmentindo Durkheim, Richard Rorty diz que a nossa formação segue um percurso normal se passa por “socialização” e “individualização”. Claro que Rorty incrementa isso dizendo que o processo de socialização, feito na infância, já permite conviver com elementos críticos vistos mais propriamente como da fase da individualização. Essa verdade coaduna com a observação de Sloterdijk: ninguém diz que o homem, por ser treinável, coletivamente, em processos de socialização, perde inteligência, mas, ao contrário, é justamente nessa situação que fica melhor. A educação humana, ao menos em um primeiro momento, é executada não para produzir conhecimento por parte de um sujeito, mas para produzir o próprio sujeito. O homem e o cão não possuem outro instinto mais poderoso que o de relação. Sua disposição uterina mostra isso: ele está voltado para diante, para o abraço, para o mundo do outro. Assim fazem: querem companhia. Reagem e imitam, mas, em determinado momento, o cão pode continuar aprendendo, enquanto que o homem se distancia dele porque passa ao treinamento, à repetição, que para o cão nada ou pouco acrescentaria. Em ambos os casos, o treinamento depende de certa socialização, para então se descolar e ganhar aspectos altamente individualizantes. No cão, esse processo sempre será o de um aprendizado, no homem, a própria individualização será fruto de algum exercício constante, um processo de acrobata.

Fazer mais e melhor produz conhecimento, mas, efetivamente, produz antes de tudo a experiência, o homem experiente, o homem formado. Não à toa os RHs da vida perguntam em primeiro lugar: “tem experiência?”. Caso não, o candidato, se aceito, terá de passar por um “treinamento”. Ter experiência no campo teórico depende de antropotécnica. As antropotécnicas de repetição executadas na graduação, mestrado e doutorado. Tolo de quem acha que está produzindo conhecimento nessas fases, pois tudo isso é feito para produzir o sujeito, no caso, o sujeito professor e pesquisador. Há de se ter aí um treinamento na ida a arquivos, no desempenho da leitura crítica, da decifração de outras línguas, no hábito de formular hipóteses, na disciplina da isenção, na dura prática de repetição de ouvir e ponderar teses contrárias. São também antropotécnicas. Formam e conformam um “bípede sem penas” em suas performances solicitadas. O objetivo máximo é obter o indivíduo original e pesquisador, mas por um custo alto de um logo treinamento repetitivo. Aí, então, distingue-se não o homem do cão, mas o homem do homem. Uns fazem o treinamento, outros se mostram “criativos” demais e desistem. Estes últimos sempre vão teimar que não fizeram o treinamento porque eram “gênios incompreendidos”.

A Paideia grega e Bildung alemã foram grandes atmosferas culturais de florescimento e manutenção de antropotécnicas, ou seja, de exercícios segundo um roteiro ascético. Cada dia mais disciplina com exercícios repetitivos de manutenção do que já se sabe e exercícios que solicitam um passo de atenção acima, para que o espírito se desloque para um plano superior. No caso da filosofia, um plano que é o “lugar nenhum” (Hannah Arendt), o lugar do pensamento, do divino, o setor dos universais, o campo promovido pela epoché (Husserl). No “lugar nenhum” o filósofo está no seu transporte, na ventania que é o pensamento. Trata-se do incomodo lugar da comodidade em que o pecador é perdoado enquanto o pecado é segurado pela goela. O cão pode ficar no pecador, o homem, ao filosofar, cuida do pecado.

Cães aprendem, homens são hominizados.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (São Paulo: Cortez, 2015)

Tags: , , , , , , , , ,

3 Responses “Os cães dependem do ensino, os homens do adestramento”

  1. Matheus
    23/09/2015 at 16:43
  2. 16/09/2015 at 16:46

    Magnífico!

  3. Ademar Braga
    16/09/2015 at 15:53

    O desenvolvimento cultural e o intelectual humano seria fruto desse treinamento e repetiçoes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *