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20/08/2019

Cada tonto com sua causa? Da Disneylândia à FIFA


Na modernidade tardia ou nossa contemporaneidade, como as identidades antigas se mostram esfaceladas e como ainda não surgiu um novo modo de vida que dispense totalmente a figura do sujeito, cada um de nós, por mais consciente que seja, corre o risco de voltar à adolescência e se embrenhar na busca de sua identidade. Se isso ocorre, a adolescência nos agarra uma segunda vez e entramos num torvelinho de identificações momentâneas. Então, há essa proliferação de “causas” que abraçamos a cada minuto, para sermos gente, para dizermos que temos um “eu”.

Alguns abraçam causas que valem a pena, outros ficam pelados, de barriga caída e teta rendida em ruas, avenidas e casarões, com causas que são meras idiossincrasias pessoais. Causas que movem o mundo no sentido da organização da vida de uma nova forma, que sabem que a modernidade tardia está pondo em cheque a maneira de viver do iluminismo e do romantismo (a do eu autônomo e autodeterminado), são postas no mesmo plano de causas que nada são senão “modos de sentar sem soltar pum na aula da Casa do Saber”.

Nisso tudo, dois tipos de filósofos ou de intelectuais aparecem. Há os que imaginam que podem, num esforço de pensamento, encontrar abordagens intelectuais capazes de ajudar-nos a ver que causas podem nos empurrar para a saída do sufoco. Há os que querem apenas disfarçar sua ganância pela manutenção do status quo vigente, pois querem comemorar sua impotência, e então fazem questão de colocar todas as causas no mesmo plano.

Castle_Disneyland_SleepingBeauty_PartnersAssim, há os que vão para a imprensa para ridicularizar todo e qualquer movimento, exceto o da política e do governo que reprimem todos os outros. Gente assim diz que o protesto contra a Copa não vale nada. Pensam que protestar contra a Copa pode ser equivalente a protestar contra os que deixam siriemas atravessar a rua fora da faixa ou protestar contra os que querem andar de bike dentro do metrô. Uma pessoa assim faz questão de promover a igualação dessas causas todas, para dar guarida para a vitória do fracasso próprio, que é aquele de ter adquirido uma barriga enorme que o faz imóvel há anos.

Isso tem nos atrapalhado. Em relação à Copa, não só do ponto de vista prático, que é o da luta pela democracia que a FIFA está nos roubando. Mas é também algo tenebroso do ponto de vista teórico, do conhecimento. Pois a desqualificação do protesto contra a Copa não nos dá oportunidade de estudar um outro fenômeno da modernidade tardia, que é a alteração do papel das organizações de entretenimento.

Estamos longe, bem longe mesmo, do tempo em que ensinávamos aos alunos de história, no Ensino Médio, a usar para os tempos atuais aquilo que ficou caracterizado para Roma, a política do pão e circo. Não temos nada disso. Muito menos estamos vivendo uma época em que meia dúzia de empresários organizam um grande evento e contam com o governo para fazer a coisa acontecer, de modo que uns tenham dinheiro e outros a paz política. Nada disso é modelo válido para conversar do presente, do que ocorre nessa Copa de 2014.

A Lei Geral da Copa foi imposta ao governo e a nós pela FIFA. Ora, como que um organizadorMickey-Walt-Disney-estatua (1) de circo passou a ser aquilo que antes eram os banqueiros e o modelo econômico do FMI, por exemplo? Como que o entretenimento, tão secundário no contexto da entrada da modernidade, embora não dispensável, passou a ter esse caráter de Big Brother mundial, supranacional e acima até de cartéis até então soberanos? Como que o capitalismo deixou de produzir a indústria cultural para se submeter ao que é mais que a indústria cultural em termos de organizador e produtor de entretenimento?

A pergunta filosófica nisso tudo, para além dessas questões sociológicas, é a seguinte: de que modo o que o prazer do jogo e do ver jogar – a ludicidade – se tornou esse aparato de tamanho controle sobre todos, a ponto de termos hoje a FIFA como um grande Novo Papa? Como que nos tornamos escravos do que era o nosso prazer menos comprometedor, menos pecaminoso? Não é mais o esporte que se rende ao mundo das organizações econômicas, mas é a central produtora de entretenimento que organiza como teremos prazer, de maneira que rodas capitalistas girem de modo aparentemente igual, mas diferente.

A turminha de intelectuais, ou seja, o grupo de jornalistas pouco sábios e filósofos traidores da filosofia, que joga areia nos olhos das pessoas para que elas não vejam a importância do protesto contra a Copa, faz também o papel de bloqueadores obscurantistas no sentido de não nos deixar ficar mais atento sobre o que é a FIFA. Afinal, o que é a FIFA? Essa questão é central para as ciências humanas e filosofia hoje. Pois a organização e a produção do entretenimento a partir de megaeventos que fazem o que querem dos governos, deixam a Disneylândia e Hollywood como velharia de Horkheimer e Adorno.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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13 Responses “Cada tonto com sua causa? Da Disneylândia à FIFA”

  1. 18/05/2016 at 14:11

    Parabéns pelo artigo Paulo, muito bom!

  2. Rafael Gonzaga
    15/06/2014 at 10:31

    Os intelectuais do status quo querem nos convencer que criticar a FIFA e sua Copa é alimentar o espírito de vira-lata…

    • 15/06/2014 at 11:35

      Rafael, eles não sabem nada de filosofia. A filosofia dá condição para começarmos a entender que a Fifa extrapola modelos outros de entretenimento organizado.

  3. 15/06/2014 at 06:47

    Paulo,

    Apreciei sua retórica, espero ter oportunidade de ater-me a sua fala mais vezes.

    Este assunto é estranho prá mim, e pensando em muitos amigos os que a pressão arterial pulsa a 120mmHg, também não dariam “50 conto” prá assistir os outros divertirem-se.

    Prefiro desfrutar meu trabalho e ainda por cima ganho dinheiro.

    Saudações Fraternas

    • 15/06/2014 at 09:58

      Luiz, ninguém desfruta o trabalho em nossa sociedade, nem nós, filósofos, que achamos que podemos escolher o que fazemos.

  4. Carlos Bengio Neto
    12/06/2014 at 18:59

    Paulo, leia Slavoj Zizek.

    • 12/06/2014 at 19:58

      Carlos, conheço a figura. Mas ele não tem nada a me dizer. Nem eu a ele. Entenda isso e começará a entender o que estou construindo. Estou há 40 anos pondo tijolo por tijolo. Este texto é um meio de caminho ou mais. Preciso de mais anos. Mas por um lado oposto ao dos marxóides.

  5. MARCELO CIOTI
    12/06/2014 at 10:47

    A diferença da Disneylândia e da
    FIFA é simples:a Disneylândia
    não foi construída com dinheiro
    público,ao contrário dos nossos
    estádios da Copa.

  6. Diego Michel
    12/06/2014 at 09:40

    Paulo, arrisco, por ora, a dar uma parcial resposta a sua pergunta.

    “Grosso modo e de maneira sucinta podemos dizer que a FIFA é um contragolpe que o âmbito privado elaborou para que houvesse um enfraquecimento da noção de República.

    Além do mais, constitui, num só momento, um despótico golpe no exercício de inúmeros direitos civis essenciais para a manutenção da vida em sociedade. Uma ofensa ao atual Estado de Direito.

    Em suma, é a sobreposição do homenzinho doméstico (privado) sobre o agente público, e, sobretudo sobre o cidadão, exercente da cidadania.

    O homem como animal político, não o politizado, foi relegado ao plano secundário, e o homenzinho doméstico, com toda a sua mesquinharia assume o plano principal.”

    A minha primeira impressão é esta.

    • 12/06/2014 at 10:18

      Michel, Santo Agostinho dizia, contra Aristóteles, que o homem é de família, e não animal político. Eu acho que o ambiente privado, o homenzinho doméstico, tem tantas ou mais qualidades boas que ele mesmo tornado público e político. A questão da FIFA é que ela está além dessa divisão. Ela está conseguindo ser algo que não imaginávamos existir. Veja, a FIFA não é o FMI ou um exército inimigo ou um conjunto de bancos. É uma entidade de organização do prazer.

  7. LENI SENA
    11/06/2014 at 22:50

    “Como que nos tornamos escravos do que era o nosso prazer menos comprometedor, menos pecaminoso?”…Até quem odeia futebol, simplesmente passa a adorar de uma hora para outra. Sabe o que é pior nisso tudo, Paulo: é ter pessoas que sabem disso e, mesmo assim abrem as pernas. O mundo todo terá os olhos voltados amanhã para o Brasil, é o melhor momento que teremos para reagir!

    • 12/06/2014 at 01:28

      Não reagiremos. Estamos de mãos atadas. As prisões estão acontecendo.

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