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28/04/2017

Cada povo tem o governo que merece?


A Alemanha carrega uma culpa danada por ter gerado e apoiado um Hitler. Não existem mais soviéticos, por isso é mais fácil para o Leste europeu não ter culpa por um dia um monte de gente ter sustentado um Stalin. Em proporção menor de culpa, claro, muitos brasileiros se sentiram envergonhados por terem votado em Jânio, Collor e Lula. A maior tolice que alguém pode fazer é levar a sério, para além de expressão retórica, a frase “cada povo tem o governo que merece”.

Na época do mensalão o professor de ética, Renato Janine Ribeiro, escreveu na Folha de São Paulo uma versão da frase “cada povo tem o governo que merece”. Não disse a mesma coisa, mas uma versão. Ele insistiu na tese de que o brasileiro que atacava o governo era o mesmo brasileiro que fazia pequenas coisas erradas, ultrapassava o sinal fechado de trânsito ou furava fila ou não devolvia um troco etc. Aliás, sempre utilizamos desse expediente. Vivemos acusando a nós mesmos de sermos desonestos, enquanto outros povos não são. Agora, é um professor de história, vindo lá dos pampas, o Leandro Karnal, que pegou o vácuo do Janine. Ele apareceu por aí, exatamente durante o governo Dilma, para dizer que cada um de nós comete infrações e ao mesmo tempo cobramos do governo que este não roube, seja honesto etc. No fundo, o que se quer falar é o seguinte: não temos moral para cobrar o governo e, enfim, o governo que aí está é eleito por nós, é algo como o nosso retrato. No limite, então, ou cada um de nós vira anjo ou nos resignamos e deixamos de crucificar nossos governos.

Que o senso comum fale algo assim, eu entendo. Mas, para quem tem por profissão a obrigação de não repetir o senso comum no que este tem de pior, aí realmente isso me provoca.

Talvez seja por isso, para evitar a proliferação de Janines e Karnals, que os cursos de Humanidades, logo no início, costumam ensinar o Críton, de Platão, e as Confissões, de Agostinho. No primeiro, Críton quer que Sócrates fuja das prisão, e este chama as Leis para que estas conversem e mostrem que ele, Sócrates, é um cumpridor delas porque elas estruturam a cidade, romper com elas seria romper com a cidade, destruir a cidade. No segundo, Agostinho mostra que o roubo de peras do qual participou na juventude não havia sido um mal pequeno, pois as Leis estavam dentro dele (não na cidade), postas por Deus, e o que ele fez foi justamente ter prazer em quebrá-las (no caso, infringir a lei do não furtar). Entre um e outro, vemos então se interpor o princípio da subjetividade. As leis são exteriores aos indivíduos, mas no primeiro se materializam no julgamento feito pela cidade, e no segundo as leis são pertencentes à interioridade do indivíduo, subjetividade esta que, então, é praticamente criada nesse momento. Em ambos os casos, há uma responsabilidade individual para com as leis. Elas são objetivas nos dois casos, embora no segundo elas estejam aderentes ao “homem interior” inventado por Agostinho. Nos dois casos a erro individual é uma afronta, ou à cidade ou a Deus. Num primeiro caso há a responsabilidade, no segundo, além da responsabilidade, existe a culpa. Mas, em ambos os casos, seja qual for a atitude de homem individual que erra (Sócrates, caso fugisse, como sugeriu Críton; ou Agostinho, que de fato roubou as peras pelo prazer de corromper a lei), nada  é mencionado em relação aos outros homens. Estes não perdem direitos. Por conseguinte, também Sócrates como cidadão da polis e Agostinho como filho de Deus, mesmo se infratores, não perdem direitos de reclamação. Há uma dimensão neles que não é, ao menos no plano ético-moral, destituída de propriedades e poderes, mesmo que eles próprios sejam os infratores. Eles continuam homens, continuam podendo avaliar o que fazem, continuam podendo se colocar no lugar das Leis, estejam elas na cidade ou no coração, e dizer: “nós, leis, precisamos ser obedecidas ou então tudo se rompe”.

É assim que age uma pessoa que cobra do governo o cumprimento de leis. E isso vale para o homem que não rompe com as leis e para o homem que rompe com as leis. Tanto faz. Pois o próprio homem pode retomar o relacionamento com as leis porque elas são objetivas e permanecem ali, justamente para serem interpeladas e interpelar. É isso que o senso comum que cai na conversa dos Karnals e Janines da vida não entendem. E os governos corruptos se aproveitam disso para dizer aquilo que ouvimos sempre: “todo mundo rouba, então …”. O que é quase o mesmo que “cada povo tem o governo que merece” etc. É triste, muito triste, ver professores não tendo aprendido nada com Sócrates e Agostinho.

A filosofia tem sim como mostrar aos jovens um bom caminho, a despeito de governos corruptos e de midiagogos safadinhos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 10/09/2016

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12 Responses “Cada povo tem o governo que merece?”

  1. Eduardo
    06/02/2017 at 02:27

    “Eles continuam homens, continuam podendo avaliar o que fazem, continuam podendo se colocar no lugar das Leis”

    Sim, da mesma forma que podem se colocar no lugar das leis, podem-se colocar sobre elas, pois já fizeram antes e de forma mais incisiva obedecendo SUA SUBJETIVIDADE

    Que pode se espalhar em um grau epidemico entre diversas outras pessoas, querendo um bem individual, não mais social ou divino

    o que se torna uma bola de neve, sim

    Cada povo tem o governo que merece

    • 06/02/2017 at 09:06

      Eduardo você entendeu o que quis, não o que o texto disse.

  2. Leonardo
    26/09/2016 at 19:03
  3. renato
    14/09/2016 at 10:53

    Eu vejo a frase muito mais como um apelo à consciência do que como um cala-a-boca. Não vou deixar de reclamar, mas posso fazer um exame das minhas ações.
    Mas entendo que é salutar lembrar tudo o que você escreveu, pois as pessoas vêem nesse tipo de frase uma espécie de salvo-conduto mesmo. Nunca é demais esclarecer, ainda mais trazendo exemplos da filosofia. Obrigado!

    • 14/09/2016 at 10:55

      Renato, a frase não foi pronunciada pelos personagens, eu a usei, como você viu, para traduzir a argumentação falaciosa dos personagens citados.

  4. Petrus Silva
    11/09/2016 at 02:04

    Se seguirmos essa lógica do “eu fiz mas vocês também fizeram, e, por isso, não têm “moral” para me julgar” até as últimas consequências, ninguém poderia ser julgado ou condenado por crime algum….Essa lógica serve a um propósito. As ideias “geniais” do Karnal têm gosto de comida requentada…

  5. Ferdnand
    10/09/2016 at 23:05

    Só uma pergunta? Por que um cidadão que é reconhecido por todos como honesto, correto em suas ações, respeitador das leis e das outras pessoas não é eleito para um cargo público no Brasil? Porque para ser eleito no Brasil é preciso comprar votos. No Brasil as eleições são ganhas por aqueles que tem mais dinheiro para comprar votos. Tanto aquele que vende seu voto como aquele que compra estão no mesmo nível e são responsáveis pela da corrupção endêmica que grassa no nosso país. Não é questão de saber quem vai julgar quem, mas uma questão de causa e efeito, ação e reação.

    • 11/09/2016 at 08:31

      Ferdnand a resposta é simples: é necessário dinheiro e máquina partidária, e isso já é definido antes, por conta da não democratização interna dos partidos.

  6. Eduardo Rocha
    10/09/2016 at 15:57

    Muito bom Paulo. Karnal se me lembro bem, falou que “a corrupção é um mal social, coletivo e não apenas do governo”. Além de colocar a moral e ética tudo no mesmo barco (o que pode até ser feito – na esfera pública), ele cria um discurso da “mesmice”. Levando as pessoas até ao erro.

    • 10/09/2016 at 18:45

      Ele é o erro, Eduardo. Karnal é o homem-erro.

    • LMC
      12/09/2016 at 10:13

      Ih,Eduardo.Isso me lembra aquele
      vendedor de picolé na praia que
      vende um sorvete de um preço
      pra turista que vem de SP e
      vende o mesmo sorvete pra
      um turista gringo mais caro.
      Depois,o sorveteiro reclama
      que os políticos não prestam,
      que tem que fechar o
      Congresso,pede intervenção
      militar,etc.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo