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28/04/2017

Problemas na tese sobre a subjetividade em Byung-Chul Han


“No Facebook não se mencionam problemas que podemos abordar e comentar em comum. O que se emite é sobretudo informação que não requer discussão e que só serve para que o remetente se promova. Daí que não nos ocorra pensar que o outro possa ter preocupações, e nem  dor. Na comunidade do “eu gosto” alguém se encontra a si mesmo e encontra quem são como ele. Daí tampouco resulta possível algum discurso. O espaço político é um espaço em que eu me encontro com outros, falo com outros e os escuto (…) A vontade política de configurar um espaço público, uma comunidade da escuta, o conjunto político dos ouvintes, está minguando radicalmente. A interconexão digital favorece esse processo.  A internet não se manifesta hoje como um espaço de ação comum e comunicativa. Desintegra-se em espaços positivos do eu, em que se faz publicidade sobretudo de si mesmo. Hoje a internet não é outra coisa que uma caixa de ressonância do eu isolado. Nenhum anúncio é escutado.” (Han, Byung-Chul. Die Austreibung des Anderen. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag GmbH, 2016, cap. 12. ).

É claro que ao descrever a Internet atual, Byung-Chul Han está falando em termos gerais e, portanto, em tendências. Nesse plano, não há como não concordar com o que ele diz. Quando do surgimento das primeiras redes sociais na Internet, escrevi sobre o assunto. Lembrava então como que os jovens não conseguiam ampliar suas experiências. Saíam todos de uma aula ou de uma balada e logo estavam todos juntos no ambiente virtual, demonstrando uma grande dificuldade de ampliação do círculo de digitadores amigos.

Os chamados grupos de discussão chegam até a ser hilariantes, pois o que mais fazem é eliminar o diferente. A maior parte dos grupos de discussão não quer discutir. E se conversam, só o fazem se o terreno de concordância é muito alto. O “I like it” é hiperpotencializado e o que resulta disso é um si-mesmo que promove o reino do igual. Nesse sentido, de fato o si-mesmo se transforma rapidinho no mais-do-mesmo – e só por isso, então, o grupo se faz abrigo para os que se auto-promovem como os que ficaram mais tempo ali na condição de exporem o que pensam de modo sincero, sendo autênticos. A transparência enquanto virtude pública cede espaço para o reino da exposição da intimidade em um nível que, até bem pouco tempo, chamaríamos de degradação.

Byung-Chul Han utiliza então dois nomes para essa situação: “sociedade da transparência” e “sociedade do cansaço”. Nesse último caso, o esgotamento não tem a ver unicamente com a positivização de uma sociedade “neoliberal” voltada para o desempenho, mas também para uma mesmidade que se faz sem alteridade, mas efetivamente como o igual. Aqui, o importante é separar bem a mesmidade da igualdade.

Também nesse caso o melhor exemplo vem da Internet. Nas redes sociais vamos a todos os lugares e temos mil estímulos, mas não adquirimos experiência ou conhecimento. Acumulamos seguidores e amigos, mas sem experimentar o encontro com alguém distinto. A mesmidade guarda um interior, mas a igualdade não, ela é amorfa. A mesmidade aparece emparelhada com o distinto, em uma tensão dialética, ao passo que a igualdade faz desaparecer qualquer tensão que possa permitir alguma alteridade. No reforço disso e também como seu subproduto, Han tem em mãos a chamada “perda de respeito”.

O respeito é dado pelo pathos da distância. Nesse caso, sujeito e objeto se mantém apartados. A alteridade é garantida por causa dessa separação, de modo que o si mesmo, a mesmidade, se faz a partir do objeto, ou seja, do outro. Já a igualdade vem na contramão dessa alteridade. Entra pela presença do dinheiro, o equivalente universal, e que torna de fato tudo numérico, calculável e, portanto, igualável. Sujeito e objeto se tornam da mesma ordem. Os sujeitos todos, os si mesmos, se tornam igualáveis e de fato iguais, e inauguram uma completa promiscuidade. O si mesmo se torna  igual e isso, no âmbito do que envolve a pessoa, abre-se uma situação de derrota do amor diante não do sexo, mas da pornografia.

Essa igualação rasa de tudo tem como subproduto os que buscam se preservar ou se diferenciar enaltecendo o que seria a autenticidade. Todos querem se autênticos. Fala-se em transparência e autenticidade. Byung-Chul Han coloca nesses termos:

“O imperativo da autenticidade engendra uma coerção narcisista. Não é o mesmo que o narcisismo que é sadio amor-próprio, que nada tem de patológico. Não exclui o amor ao outro. O narcisista, ao contrário, é cego na hora de ver o outro. Ao outro se retorce até que o ego se reconhece nele. O sujeito narcisista só percebe o mundo em matizações de si mesmo. A consequência fatal disso é que o outro desaparece. A fronteira entre o eu e o outro fica borrada. Borrando-se  o eu, volta-se difuso. O eu submerge em si mesmo. Um eu estável, ao contrário, só surge em presença do outro. A autorreferência excessiva e narcisista, ao contrário, gera uma sensação da vazio. Hoje as energias libidinosas se invertem sobretudo no eu. A acumulação narcisista de libido até o eu conduz a uma eliminação da libido dirigida ao objeto, isto é, da libido que contém o objeto. A libido dirigida ao objeto cria um vínculo com ele que, como contrapartida, dá estabilidade ao eu. A acumulação narcisista da libido até  o eu o põe enfermo.” (Han, Byung-Chul. Im Schwarm. Berlin:  MSB Matthes & Seitz, 2013, cap. 3).

Lendo o filósofo coreano por esses tópicos, percebe-se claramente, por um lado, sua filiação ao marxismo frankfurtiano quanto à tese da igualação de elementos a partir da isonomia causada pelo mercado, e por outro, sua simpatia para com a tese de Richard Sennett a respeito das “tiranias da intimidade”, pois é uma subjetividade narcísica que se põe como regra geral, destruir o âmbito público. Conhecendo a mídia digital de uma maneira não sonhada por Sennett e por Adorno ou Horkheimer ou Benjamin, Byung-Chul Han conseguiu, sem dúvida, ver as consequências radicais de nossa época quanto à perda do pathos da distância, vislumbrado por Nietzsche, e o consequente esvaziamento das liturgias capazes de sustentarem a autonomização do eu por meio da garantia da alteridade, do natural desenvolvimento do si mesmo a partir da negatividade do outro.

Mas esse tipo de tese, igual a dos autores de suas referências, parece forçar um pouco a barra, e que desemboca em uma estranha e improvável via de mão única. É difícil acreditar no esmagamento do sujeito como ele é posto por esse tipo de teoria, ou seja, no grau totalizador que uma tal formulação desemboca. O império da positivização, que conduz a sociedade vista nesses moldes, ao cansaço, ao esgotamento por conta desta ser uma sociedade do desempenho, parece entrar pelo esquema análogo daquele de Adorno e Horkheimer, no qual a “sociedade administrada”  se vê única e exclusivamente sob o império da razão instrumental. Aceitando esse caminho de Han, ficamos encalacrados e, pior, temos de fechar os olhos para os elementos fortes de solidariedade dos quais somos testemunhas.

E possível escapar de uma teoria que cria essa visão na qual há o esmagamento de forças diferenciadoras. Um dos pontos centrais de divergência, nesse caso, diz respeito ao entendimento da noção de intimidade. A noção de intimidade em Byung-Chul Han, se é que existe alguma, é incrivelmente pobre. A própria noção de subjetividade se reduz a um mero nome. Fica fácil jogar o sujeito no interior de forças esmagadoras e avaliá-lo esmagado se, de antemão, ele foi lá colocado já sem qualquer função de atuar em algum nível segundo o seu conceito. Penso que é um tanto forçado encontrar a subjetividade e a intimidade nessa situação de carência, gerada por conta de que desde o primeiro momento não se vê em ambas nenhuma das prerrogativas que toda e qualquer teoria da subjetividade possui.

Desse modo, qualquer tese contrária, capaz de historiar a subjetividade segundo uma formação antropológica – Sloterdijk à frente – pode se sair melhor. Basta ter em mãos uma intimidade desenvolvida por um roteiro dado por antropotécnicas, na consideração de um “pensamento do interior”, e então pode-se notar os percalços da má-formação como responsáveis por desvios que levam o humano aos fenômenos de uma biunidade capaz de funcionar por mecanismos internos de simbiose.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 01/03/2017

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Filósofo