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21/08/2017

Quem é burro? Há remédio contra a burrice?


A burrice existe. As psicólogas e alguns magoados, que foram tomados como burros, podem tentar nos dizer que a palavra “burro” não pode ser usada. Ninguém acredita nisso. Usamos! Pois encontramos o burro no cotidiano, mais do que deveríamos. E todos nós, mesmo inteligentes, temos nosso momento ou fase de burrice. Ou assuntos nos quais nos tornamos não desinformados, mas burros. 

O que é a burrice? Como ela se estabelece?

É clássico entre nós, filósofos, lembrar de Adorno e Horkheimer dizendo que “a burrice é uma cicatriz”. Ou seja, é algo que marca uma superfície de uma maneira que sempre nos conduz para o mesmo lugar. Olhamos um rosto com cicatriz e nosso olhar não vê o rosto, só a cicatriz. Ela tem a capacidade se sugar o nosso olhar, chamando-o para um só canto, um só sulco, ou seja, seu traçado. A cicatriz é reiterativa. Nisso ela é a burrice. O burro é famoso por empacar. A cicatriz também, ela nos faz empacar na visão. Chama-nos a atenção de modo a não nos deixar ver os belos olhos ou a bela boca da mulher linda, que porventura tenha a marca na face. De modo mais amplo, trata-se daquela conversa de Hegel, de quem enxerga a árvore e não pode então ver a floresta. Ou ainda: não entendemos conceitos, só particularidades aqui e ali, ou pior, elegemos idiossincrasias como regra.

Podemos explicar a burrice de uma maneira ainda mais clara, ao gosto do momento, que é fazendo a comparação entre o nosso comportamento pensante e o modo de “pensar” da máquina, do computador. A burrice é em nós o que é a função de autocompletar do computador. Somos burros quando agimos sem que o cache esteja limpo, pois começamos a pensar e … zupt! eis que a frase se completa em uma direção que já havia sido tomada. Isso é a nossa burrice. Tentamos pensar diferente, mas tão logo uma sílaba já usada aparece e eis que ela chama a palavra da “memória” do “autocompletar” e o curso do pensamento, mesmo sendo para um novo objeto, repete o já executado. Lei do menor esforço. Economia de energia psíquica. Eis aí o modo do burro funcionar. Ele funciona sempre assim. A burrice esporádica, de inteligentes, também age assim: descansa-se o cérebro pelo meio do autocompletar que dá o caminho já desenvolvido. Nesse caso, parecemos inteligentes, parecemos estar refletindo, tudo indica que estamos vivazes por conta da velocidade, mas não, estamos só cansados e pegando o caminho quase automático do autocompletar. O computador é sabido quando assim age, nós estamos emburrecidos quando assim fazemos.

A diferença entre o burro de sempre e o inteligente cansado que faz burrice é que o primeiro nunca percebe que está sempre pegando a mesma via, enquanto que o segundo, uma vez descansado, logo encontra diversos caminhos. O mais inteligente ainda faz o que Nietzsche sugeriu: pega vários caminhos igualmente, produz várias narrativas díspares, deixa o pensamento se experimentar. Faz experiências com o pensamento. É nesse sentido que o perspectivismo de Nietzsche tinha um caráter profundamente experimental. Aliás, uma tal maneira de trabalhar irrita o burro.

O pensamento do autocompletar-se, então, se torna burro porque se torna dogmático. Há certos elementos que sempre se repetem. Há causas que são causas para tudo. Há alvos que são alvos para tudo. Em política essa burrice aparece muito. A Guerra Fria acabou, ninguém mais é comunista, mas o comunismo continua sendo a causa de todos os problemas. É o burro. O burro pensa assim. O capitalismo é algo amplo demais, tem mil facetas, mas ele aparece como o demônio da época medieval: se Joãozinho quebra o dedo em sua casa, não é por responsabilidade dele e de seu descuido, mas a culpa é do capitalismo que, afinal, está em todos os lugares e rege todas as nossas relações. É o burro. O burro pensa assim.

A cicatriz ou o autocompletar mostram bem a burrice. Contra isso, o experimentalismo pode ser uma saída, um treinamento, uma formação. Mas o burro não consegue ver isso. Ele vai ler todo esse artigo discordando, não por dar opinião diferente, mas por dar a opinião que dá para tudo. Quer ver?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Ah, o burro também tem uma capacidade enorme de não gostar disso abaixo. Mas isso é outra história.

kati3kat

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25 Responses “Quem é burro? Há remédio contra a burrice?”

  1. Puer Aeternus
    02/04/2016 at 15:40

    Paulo, sei que não é novidade, mas há realmente muitas pessoas burras e desde quando eu era criança lembro-me de “discutir” com pessoas que se encaixam perfeitamente com sua descrição do burro. Fico me perguntando, porque não sou assim, o que diabos aconteceu comigo? Não quero me mostrar prepotente, apenas sinto um desconforto, pois convivo e cresci no meio de muitos assim, eu identifico perfeitamente sua descrição de burrice com varias pessoas do meu ciclo social, com exceção dos meus amigos (separo amigos de conhecidos e colegas). Tenho quase certeza de que este medo não é saudável, devo ter algum tipo de fobia ou trauma, eu começo a me observar demais, a ponto de não conseguir estudar direito, é como se o burro tivesse se tornado minha sombra, como se tivesse aversão a burrice, não consigo suportar ver gente assim, sinto como se me pusesse no lugar deles. Sei que você não é psicólogo nem autor de auto-ajuda, só queria mesmo ouvir o que tem a dizer sobre isso e se pode me dar alguma sugestão, se for muito incomodo não precisa responder.

    Obs: Não pus meu nome verdadeiro pois estou me expondo demais.

  2. João Bosco Renna Júnior
    05/10/2015 at 23:24

    Eu consigo visualizar bem o autocompletar, quando converso com ambos os lados, comunistas e liberais, coxinhas e empadinhas, direitistas e esquerdistas, ou ateus e religiosos, só para dar os exemplos clássicos.

    É como você disse, eles dão a mesma resposta para tudo, e não apenas fazem o autocompletar, MAS FAZEM O CONTROL C, CONTROL V, ou seja, COPIAR E COLAR, não conseguem sair de sua zona de conforto, de sua panacéia milagrosa para todos os males, do seu elixir mágico feito por um bom alquimista de vermelho ou abençoado. São imunes a novas idéias, novas perspectivas, parece uma síndrome, é lastimável e preocupante a burrice generalizada e mediocridade que vivemos, eu conheço pais de família, escolarizados, médicos, teólogos (faculdade com uma boa base filosófica), advogados, que domingo assistem faustão com a família.

    Quanto dizer que a culpa de qualquer mal é o capitalismo, chega a ser deprimente, como não conseguem entender que nós temos uma grande mobilidade social, desde as primeiras revoluções liberais. Esquecem que podemos ascender na escala de classes sociais, isso muito comum, e não é tão difícil como se pensa, basta se organizar e buscar as ferramentas necessárias, para citar exemplos, temos abrigos diversos para mendigos, temos cursos gratuitos que igrejas financiam para pessoas carentes, além do bolsa família, igrejas dão roupa, cesta básica, etc…Hoje com toda certeza, depois de todos esquerdismo alienado que aprendi com meu pai, que um mendigo está na rua sem dignidade por que quer, e eu sempre pensei o contrário, trabalhando com o exemplo mais extremo, o resto das situações a coisa é mais fácil.

    • 06/10/2015 at 00:24

      João, o Control C/V é mais para a informação, o autocompletar é o mecanismo de pensamento. E isto caracteriza a burrice, ou seja, não há possibilidade de ir pela via da novidade. Ou seja, não consegue ir pela novidade pensada por si mesmo, embora o autocompletar dê a sensação de que se foi por si mesmo.

    • João Bosco Renna Júnior
      06/10/2015 at 00:54

      Entendo, o control C/V é fazer a parte manual, e o autocompletar é a parte automática anterior, que limita o raciocínio, control C/V é o trabalho braçal, o de preencher com brilhantes idéias esse autocompletar.

    • João Bosco Renna Júnior
      06/10/2015 at 00:57

      O control C/V que falo, também aparece para legitimar o auto completar, é o quando o burro leva alguns minutos para ter a sua brilhante conclusão, que na verdade é a mesma de sempre, ele só usa esse tempo para dar um ar de originalidade. Não sei se estou sendo desconexo, mas acho que é isso.

    • 06/10/2015 at 09:01

      Sim, é como informação copiada, agora, o completar é aquele momento que o burro não pensa nem para escolher, ele já autocompleta. Acho que essa analogia é boa porque faz o burro achar que é inteligente, uma vez que ele tem o “pensar rápido”

    • João Bosco Renna Júnior
      06/10/2015 at 15:55

      Muito boa essa do autocompletar, essa função no word comete vários erros, o programa é burro, fiquei com inveja da sua brilhante analogia e criei o control C/V kkkk

    • 06/10/2015 at 16:41

      Devo isso, Bosco, a um psicanalista que me atende, e ele estava mostrando como que as pessoas querem “pensar” sem esforço e, então, não pensam.

    • João Bosco Renna Júnior
      06/10/2015 at 18:02

      Deve ser interessante fazer psicanálise, eu fui a um psicólogo, mas não voltei mais lá, ele foi grosseiro comigo, talvez eu tenha sido burro com ele rsrs. Mas quanto a você, pensei que você fosse não precisasse de tal coisa, já que é bem sucedido, grande intelectual e pega mulher bonita. Me surpreendeu com essa estória de psicanalista. Acho que sou eu que ando no autocompletar.

  3. Marcio
    02/10/2015 at 15:25

    Esse texto me lembrou alguns colunistas de jornais de nome que agem exatamente no caminho do burro… Uma pergunta bem simples e direta: existe algum jeito polido e que não seja agressivo de dar toques para pessoas que estão a todo momento agindo como burros? Obrigado a atenção.

    • 02/10/2015 at 15:33

      Márcio os colunistas em geral são burros neste exato sentido: todo dia fazem o mesmo artigo. Pode reparar. Olha, há coisas que se você opta pela polidez, não adianta, dado que o burro é muito burro.

  4. Tarcísio
    02/10/2015 at 11:39

    Professor, como gosta de ser chamado, digo-lhe que aspiro sempre ao entendimento do que me circunda, mas tão logo vislumbro a aura de inépcia do povão, termino inevitavelmente me contagiando com essa perspectiva , apesar de estar um pouco tácito nas entrelinhas ao que exatamente você atribui o berço da ignorância da Pátria, o gêneses de tudo isso. Confesso que me sentiria envaidecido se você pudesse nos dar o ar da graça de exprimir o conteùdo de seus pensamentos, nos confiar a destreza da arte que dar a entender que possui dentro de si; dizer um pouco, a nós, prescindíveis néscios, como podemos empafiosamente atingir à Sabedoria. O Entedimento do Tudo!

    • 02/10/2015 at 12:27

      Tá no texto, Tarcísio: não deixe funcionar o “autocompletar”.

  5. joão paulo
    02/10/2015 at 11:27

    Professor, alguns dizem que a burrice é relativa ou não existe por causa da história das “inteligências múltiplas”, de que cada um é inteligente num assunto.
    A ideia de burro pode conviver com a ideia de inteligências múltiplas?

    • 02/10/2015 at 12:27

      João Paulo meu artigo é simples: é isso que está ali.

    • Silvia
      02/10/2015 at 17:31

      É isso que eu estava pensando. Não dá pra dizer que alguém seja burro, pois todos nós somos inteligentes em algum contexto.
      Sobre a ideia de inteligências múltiplas existe esse artigo aqui:
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Intelig%C3%AAncias_m%C3%BAltiplas

    • 02/10/2015 at 19:50

      Sívia só de você usar a wikipédia, a coisa já está ruim para o seu lado. Agora, o problema mesmo é que você NÃO entendeu o meu texto. Talvez nem tenha lido.

  6. henrique
    02/10/2015 at 10:15

    O pior de tudo é quando institucionalizamos a burrice. E ela está institucionalizada por aí.

  7. Fernanda Melo
    02/10/2015 at 01:36

    Professor Paulo, e o e-idiot? Ele quer se ‘autocompletar’?

    O’Connor, Z (2015) Extreme plagiarism: The rise of the e-Idiot?, International Journal of Learning in Higher Education, 20 (1), pp1-11.

    https://www.academia.edu/9975666/Extreme_plagiarism_The_rise_of_the_e-Idiot_2015_

  8. Paulo
    01/10/2015 at 23:32

    Paulo, seria simplista pensar que o ” Burro ” é aquele que insiste no erro?

  9. Marco Vargas
    01/10/2015 at 21:45

    Interessante à analogia do autocompletar com burrice. Dá para concordar que o “autocompletar” interrompe alguma coisa…

  10. henrique
    01/10/2015 at 21:39

    Como curar a cicatriz da burrice?

  11. Julio
    01/10/2015 at 21:17

    Burro é aquele que enxerga de forma binária o mundo, mas e quanto ao agir? Agir de forma burra, seria a recusa da ética prática?

    • 01/10/2015 at 21:32

      Nem sempre Júlio. Há excelentes maneiras de pensar binariamente. Acho que você realmente não entendeu o texto. E pior, fez o “autocompletar”.

    • Julio
      01/10/2015 at 23:51

      Perdão pelo meu deslize. Qual a solução para a burrice?

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