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24/06/2017

A filosofia do “bum!” contra São Paulo Apóstolo


“O senhor entende que a pessoa que tenta colocar em prática a indiferença de Cioran pode acabar se tornando Meursault, o personagem de Camus em O Estrangeiro?” [1]

Meursault é um personagem amoral. Ele não opta pelo bem ou pelo mal. Não tem para si tais diferenças. Não é dominado por uma força intelectual que o faz assim, amoral. Simplesmente é assim. Pondo-se em honestidade para com todos, não consegue fingir estar sentindo o que não sente. Não pode apiedar-se e verter lágrimas diante da morte de sua mãe se as lágrimas não são espontâneas.

Seria esse tipo de comportamento o resultado de alguém que, por outras vias, exercesse a “faculdade de indiferença”, que Cioran cita para lembrar que os fanáticos não a possuem?

Cioran não aconselha o amoralismo. Ele diz do seu temor próprio: antes estar com Pirro que com São Paulo. Há uma legião de pessoas querendo desentortar o mundo, tornar todos felizes, preocupadíssimos com os erros e injustiças do mundo, e quando essa legião encontra alguém com verdades indubitáveis, eis aí o líder que deverá redimir o mundo. Pessoas com essa incapacidade para o uso da “faculdade da indiferença” são as que Cioran aponta como lhe metendo medo.

Vamos nos abster de comentar o óbvio: Cioran fala de feitos grandiosos, de adeptos de grandes ideias e doutrinas, enquanto que Camus, com Meursault fala de alguém que pode ser tomado como um indiferente em relação a situações familiares – e, claro, pode também levar isso para a opção diante de grandes ideais políticos. Há uma diferença entre eles, mas a pergunta do início do texto parece não estar querendo ir por aí, parece reconhecer isso. A questão que ela coloca, se a entendo bem, diz respeito a uma preocupação válida: a insensibilidade não seria aquilo que espreita o uso da “faculdade de indiferença”? Não estaríamos aí, então, na soleira da porta de um monstro tão perigoso quanto o da total não-indiferença, o fanatismo dos adeptos?[2]

Nos escritos de Cioran é possível encontrar um aforismo instrutivo: “um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão”.[3]

Nietzsche fala daqueles que, diante de sua frase “tudo é interpretação”, afirmam que essa frase é também uma interpretação e, assim, não poderia ser seguida como verdade definitiva. Ele responde a esses seus objetores: tanto melhor![4] Claro, pois se fosse para terminar o jogo de espelhos da possível contínua atividade interpretativa, de que valeria dizer o que se disse? Uma frase que, se posta no jogo de verdadeiro e falso, se desmente, valeria ser usada se não fosse para criar a sensação de desconforto? Não é esse tipo de desconforto que possibilita arrancar alguns da vida de Maria-vai-com-as-outras?

“Tudo é interpretação” faz parte daquele grupo de enunciados que não funcionam sob o crivo da verdade e da falsidade, que é o que à primeira vista se espera se levarmos em conta a sua forma. Funciona no registro do antídoto. Que tal não ter de assumir a ferro e fogo as coisas? Essa é a sugestão embutida aí.

Quando Cioran clama pela “faculdade da indiferença”, tudo indica que ele jamais pensou ser possível tirar daí um militante, um fanático pela indiferença, um amoralista profissional. Longe de sua intenção criar um São Paulo da indiferença. Do mesmo modo Nietzsche nunca pensou em encontrar um fanático pela verdade que não é verdade, simplesmente porque sua frase não está sob esse jogo do verdadeiro e do falso. Assumir a defesa do “tudo é interpretação” com a boa nova é descabido.

Quanto deveria durar o discurso de São Paulo diante de romanos, gregos etc., se ele começasse assim: “Povo de Atenas, quero que saibam que tudo que aqui falo é mentiroso ou no mínimo duvidoso, e não quero que se instruam nisso, portanto, vão embora antes mesmo que eu comece”. E então, com esse discurso, São Paulo iria arregimentando adeptos e mais adeptos? Ora, se ainda assim ele tivesse adeptos, eles seriam mais néscios que aqueles que ele efetivamente arregimentou, incapazes da atividade básica de construir igrejas. Há um limite para a bestialidade de um adepto.

Essas formulações que parecem fugir da lógica, mas, ainda assim, capazes de algum sentido, estão no caminho do que é o mais interessante na filosofia, sua negatividade, sua capacidade de produzir livros de leitura única, aqueles livros que possuem uma mensagem no final: “esse livro irá se autodestruir em …” E bum!

Adorno quis escrever aforismos da qualidade desse livro apontado por Cioran. Os aforismos de Adorno buscaram não deixar qualquer resíduo para alimentar militante, copistas, seguidores e outros néscios. Adorno foi traído pelo marxismo positivo que sempre teve muita força entre os leitores de Marx. Tanto é que a Escola de Frankfurt virou … escola! Não era para ser assim. Certas análises sociológicas dos frankfurtianos foram dogmatizas e os aforismos de Adorno, principalmente os de Minima moralia, foram desconsiderados. Eles sim traziam, não raro, um “bum!” no final.

Há uma quantidade boa de filósofos (Richard Rorty à frente) que nunca abandonaram Sócrates, na sua atividade de perguntar pelo significado sem, no entanto, ser mesmo capaz de encontra-lo. Filósofos assim são filósofos do “bum!”. Escrevem ou agem de um modo que fica difícil retirar deles uma doutrina de condução positiva. São filósofos que não nos deixam nem mesmo uma metodologia para produzirmos o “bum!”.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

[1] Pergunta de Richard Figueiredo, da Universidade Católica de Brasilia

[2] Cioran, E. Genealogia do fanatismo. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro, Rocco, 2011.

[3] Cioran, E. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 16.

[4] Aforismo 22 de Para além de Bem e Mal.

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5 Responses “A filosofia do “bum!” contra São Paulo Apóstolo”

  1. Aílton Nunes
    26/06/2014 at 00:00

    Hoje completam 3 décadas da morte de Foucault.
    …Nem um textozinho…

    • 26/06/2014 at 08:28

      Aíton. Vai ter, estou com muito serviço. Mas veja, há um que você não conhece, no A filosofia como medicina da alma (Manole). Ou conhece?

  2. Mario Luis
    25/06/2014 at 01:11

    Hoje é noite de São João. Noite de fogueira acesa. Para alguns, é o simbolismo afeto à comunicação do nascimento de João Batista à Maria mãe de Jesus. Mas também é o símbolo do solstício de inverno, onde as forças da natureza se recolhem, dando início ao um novo ciclo, cujas origens se perdem no tempo.
    Enquanto isso, a multidão percorre, de um lado a outro, em busca de um significado para si mesma diante do crepitar das chamas. Entre um estalar e outro da madeira incandescente se revela o olhar absorto pelo thauma e, no arrojo do vento gelado ficamos na certeza de não saber quem somos quando pensamos que somos. Pula a fogueira iáiá ! pula a fogueira iô,iô ! pois para dentro dos mesmos rios – como em Heráclito – descemos e não descemos… pulamos e não pulamos!

  3. 24/06/2014 at 10:01

    Alguns valores dão algum sentido, mesmo sendo moralista, religioso, um apóstolo Paulo da vida, traz algo que move à existência, agora já o Nietzsche, foi solitário praticamente a vida inteira- não que isso seja ruim pois ele tinha seus motivos filosóficos- morreu sabendo que ele era um homem à frente do seu tempo. Ou seja, não existe um padrão de vida para seguir, independente de ser ou não indiferente, causar reboliços no pensar e não deixar a chave ou uma dica, esses filósofos deixaram apenas o bum, em outras palavras se vira você agora. A certeza apenas que podemos dizer que temos é virar pó. Podem mudar valores judaico-cristão, ou qualquer outro, avanço da tecnologia, a vida permanece chata e monótona, e apenas com alguns momentos raros de felicidade. Ou seria a consciência um erro evolutivo como firma o personagem pessimista ” Rust” da série america True Detective, que faz pulsar a vida?

    • 24/06/2014 at 10:44

      Enoque, não sei se o perguntador, do artigo, estava querendo um “padrão para viver”. Talvez.

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