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30/05/2017

Buber e Sloterdijk: a filosofia do entre


Relações entre Peter Sloterdijk e Martin Bubber quanto à construção de uma filosofia do “entre”. 

Há uma filosofia de pontos e há uma filosofia do entre. A primeira tem a ver com as façanhas do pensamento substancialista de Aristóteles e, modernamente, com a filosofia do sujeito, cujo expoente inicial, na conta dos manuais, está em Descartes. As filosofias da intersubjetividade, como o caso da teoria de Habermas, podem muito bem ser colocadas também nesse campo. A segunda é relacionista e, nesse sentido, deve ser qualificada. Uma filosofia do entre, para ser autêntica e não redutível ao substancialismo, tem de apostar que o “entre” não é um apêndice de feitos de dois polos que se mantém como dois polos autônomos, mas um meio que é simbiose e ressonância – para usar termos caros a Peter Sloterdijk. É assim que é a filosofia de Martin Buber.

Sua descoberta fantástica: “não é verdade que a criança percebe primeiramente um objeto, e, só então entra em relação com ele. Ao contrário, o instinto de relação é primordial, com a mão côncava na qual o seu oponente possa se adaptar”.[1]

Herdeiros de um dicionário aristotélico que nos mostra um mundo substancial como essencial, ou seja, o mundo importante, e ao lado o que é desimportante por não ser essencial, não ser substancial, temos entãok imensa dificuldade de compreender qualquer narrativa ontológica com descrições que privilegiem o entre. Ficamos estupefatos diante de um filósofo que diz que a criança tem um “instinto de relação”. Não importa aí o que se quer dizer com instinto, a não ser o que o mais fácil dessa palavra: não se trata de alguma coisa que é preciso ser acoplada à criança, mas que vem dela mesma, que lhe é imanente. Em outras palavras: uma criança é antes de tudo o que, sendo criança, traz consigo a relação.

Buber deixa bem claro o que pensa sobre isso, em outro trecho:

“A vida pré-natal das crianças é um puro vínculo natural, um afluxo de um para outro, uma inter-ação na qual o horizonte vital do ente em devir parece estar inscrito de um modo singular no horizonte que o carrega, e entretanto, parece também não estar aí inscrito, pois não é somente no seio de sua mãe humana que ele repousa. Este vínculo é tão cósmico (…)”[2]

Essa filosofia de Buber é de difícil compreensão para olhos treinados no substancialismo aristotélico, que são os olhos de todos nós. Não conseguimos saber do que ele fala. Vida pré-natal? Onde? Sim, no útero – entendemos! Mas não só, no cosmos! Bem, podemos entender. Mas o que é difícil de entender é essa “inscrição” e “não inscrição”. Mas isso nada é senão o entre, o que se faz com “um afluxo de um para outro”. Tudo fica mais claro se podemos chamar Peter Sloterdijk em nossa ajuda, para que ele diga: placenta e feto não são dois senão se pensamos que formam uma esfera, uma vez que a placenta se liga ao cordão umbilical formando parte da criança e parte da membrana placentária que circunda o bebê. Ou seja: o bebê circunda-se. Ou seja: a placenta abraça a si mesma e também forma o bebê. Em determinados momentos a placenta é uma espécie de exo-corpo (não um exoesqueleto). Se dois corpos não ocupam o mesmo espaço isso é uma verdade newtoniana, mas não algo do surrealismo da esfera, tomando aqui esfera como conceito de Slotedijk. Sem esse surrealismo não há uma autêntica filosofia do entre. E sem isso não podemos então compreender o que é o “instinto de relação”.

Contra toda a sociologia ou psicologia social, por essa filosofia a criança não se socializa, ela está praticamente pronta para qualquer socialização que, enfim, é apenas um produto de seu instinto, digamos assim. Estamos sempre vivendo no entre, e não em um polo chamado eu ou em outro polo chamado tu. O eu-tu de Buber é isso: a vida está entre eu e tu, de modo que o eu só se coloca se há o tu. Sloterdijk pode dizer: se há um adeus à placenta na hora do parto, tudo que o bebê precisa fazer é ter se preparado para substituir esse companheiro que vai embora repondo algum outro parceiro na esfera, de modo a não fazer a bolha explodir ou implodir. Que seja então o anjo da guarda, isto é, alguma entidade que se embrenha em uma proto-psique, gerada ainda no útero pela sinestesia da vida sonora, e logo competidora de mais sons e imagens, agora da própria mãe adentrando como um terceiro elemento na esfera.

O instinto de relação nada é senão o produto da condição humana: nós todos somos gêmeos – diz Sloterdijk. A companheira placenta não era um “isso”, mas um “tu”. O eu-tu de Buber pode, na versão de Sloterdijk, se apresentar de um modo inteiramente mais descritivo.

Buber diz tudo que Sloterdijk também diz, ainda que no segundo caso a narrativa inclua uma visão histórica, cultural e antropológica mais descritiva. Ele diz: “o desenvolvimento da alma na criança é indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da nostalgia do tu, às realizações e decepções deste anseio, ao jogo de suas experiências e à seriedade trágica de sua perplexidade”.[3] Ora, para Sloterdijk, o homem gera uma psique que se põe como psique, isto é, como uma intimidade nascente, por conta de seu insistente esforço de reposição do companheirismo do aumentador inicial, a placenta. Esse esforço faz do homem, desde sua vida primitiva até hoje, um eterno “designer de interior” (Innenarchitekten).[4] É preciso sempre construir um “dentro”, no qual o que se impõe é o meio, o entre, a vida que se estabelece no eu-tu, para usar a terminologia de Buber. A vida está no hífen. E o hífen não tem nenhuma conotação substancialista. Ele é o entre, a simbiose, a ressonância.

Com Bubber e Sloterdijk perde sentido a pergunta sobre se as condições simbólicas que, depois, propiciam a linguagem, é algo inato ou se é fruto da socialização. Ainda que Chomsky (inatismo) e o II Wittgenstein (não inatismo) tenham estado preocupados com a linguagem e não com a capacidade simbólica, ficamos até menos carregados de seus pesos, em certo sentido. Podemos franzir menos as sobrancelhas diante de problemas típicos da filosofia analítica, ou seja, de realismo versus anti-realismo, e até, de um certo modo, também em relação a como que a linguagem se engancha no mundo. Pensar no entre, fazer uma filosofia do entre, nos põe em uma versão cosmológica do entre pragmatista, que localiza o que é relacional segundo as palavras pragma e práxis, na experience de James e Dewey, ainda que este tenha, em alguns momentos, indicado antes uma cosmologia relacional que uma metafísica da práxis. Podemos pensar o entre como quem desafia os saberes psicanalíticos que postularam coisas como o “narcisismo primário” e, depois, a chamada fase do espelho (Lacan). O “instinto de relação” deve estar no horizonte a todo o momento, para não cedermos de novo a tais problemas que podem ser mais relativizados, postos como menos decisivos, digamos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] Buber, M. Eu e tu. São Paulo: Centauro Editora, 2013, p. 67.

[2] Idem, ibidem, p. 66.

[3] Idem, ibidem, p. 68.

[4] Sloterdijk, P. Spharen I. Blasen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998, p. 84.

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6 Responses “Buber e Sloterdijk: a filosofia do entre”

  1. Erik Kierski
    26/07/2016 at 12:47

    A esfera do “entre” em Buber é meu tema de monografia, então deve imaginar o quanto gostei desse texto. Quase não se ouve falar em Buber dentro da academia, tanto é que foi difícil encontrar orientador, e mesmo o que escolhi não é especialista. Além disso, quando alguém diz que conhece, ou é da área de psicologia, ou teologia, ou confundiu com algum outro autor. Assim, me conforta ler um texto seu sobre ele pois, além de fazer com que não me sinta tão “alienígena”, acaba suscitando maiores reflexões, e mais ainda relacionando-o com Peter Sloterdijk, que também me interessa e pretendo ler em breve.

    Obrigado!

    • 26/07/2016 at 13:21

      Meu amigo filósofo Elie Cohen Gewerk de Israel é especialista nele. Entre em contato comigo e passo o e-mail.

  2. Estevan Pratz
    09/02/2015 at 23:40

    Professor, na perspectiva de Bubber, como se dá a relação do eu com o não-eu, ou seja, com a visão que nós temos de nós como sendo um ” outro ” ? Como isso se encaixa no esquema de esfera proposto por Sloterdijk ? Seria o ego criação desse ” instinto de relação ” posto em xeque quando a criança toma consciência dela como ” ser ” que difere do mundo que a circunda ?

    • 10/02/2015 at 00:37

      Há duas relações, o Eu-tu e o Eu-isso, a segunda é a relação objetificante. Sloterdijk fala do sujeito no interior de algo que é a intimidade, e essa intimidade, como em Bubber, é um campo relacional, um campo de ressonância de dois polos, um campo de simbiose, em que os polos não se batem, mas se interpenetram, como na esfera inicial, o utero com sua placenta e com o feto.

  3. Eduardo Rosa
    08/02/2015 at 05:01

    Bom dia,

    Fiquei curioso, esse “instinto de relação” é muito diferente do Desejo Deleuziano?

    • 08/02/2015 at 08:33

      Eduardo o texto se explica. Tá explicado no texto o que é.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo