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28/02/2020

Bruna Surfistinha demasiadamente humana


Bruna Surfistinha demasiadamente humana

Bruna Surfistinha lançou sua ponte vital, num sábado à noite na TV: “eu era mais psicóloga que garota de programa”. Bobagem, ela era só garota de programa e, se fosse analfabeta – como boa parte das garotas de programa – estaria no lugar da maioria das profissionais do sexo: bem longe da TV e mais distante ainda de glamour e até de orgasmo.

Bruna deu sorte. É aquele tipo de coisa pronta que o destino oferece de modo a termos algo como o Globo Repórter: “empregada doméstica ganha mais de cinco mil reais e vejam também a empregada doméstica que virou confeiteira em Paris”. A desgraça universal é anulada pelo falso sucesso particular. Manuais de sociologia chamam isso de ideologia. Ora, Bruna poderia embarcar nessa retórica estilo Sérgio Champelin, que é exatamente aquela pela qual e na qual ela sobreviveu até aqui. Todavia, ela está começando a ceder ao mundo que um dia quis rejeitar.

O mundo humano é moral. Ninguém está além de Zarathustra. E no mundo moral, ou seja, onde há mores, isto é, hábitos e costumes que são coletivos, mas cuja legitimidade de prática é a vida particular (não raro, privada), ninguém pode permanecer ainda humano e não moral. Alguma moral aparece. Quando se está no mundo da moralidade comum, cedo ou tarde encontrará o dito “deves ceder ou perecerá”. Bruna cedeu. Virou “psicóloga”.

Enquanto garota de programa ela nunca foi psicóloga, com ou sem aspas. E até pouco tempo, isso não lhe passava pela cabeça. Mas agora, o mundo de garota de programa acabou. Bruna foi absorvida pela sociedade que ela quis rejeitar por conta de hormônios adolescentes. Ela é um personagem. Um personagem vivo. Dela se tem livro e até filme. Ora, isso é muito forte para quem nunca esperou do mundo senão viver a partir de chutes e pontapés. Pelé lidou com isso falando na terceira pessoa, “eu, Edson”, “ele, Pelé”. Outros não precisam lidar com isso porque foram entrando para mundos diferentes vagarosamente. Mas Bruna não. Já faz tempo que ela é um tipo de celebridade – repentinamente celebridade. Mas faz pouco tempo que ela se deu conta de que isso envolve mudar não só de vida, mas de imagem. A idade ajuda a se dar conta de muita coisa.

A imagem de Bruna só pode mudar se ela puder reconstruir uma imagem para ela mesma que se harmonize com o novo mundo no qual, agora, ela quer viver. Apresentar-se como puta foi uma aventura. Agora, seria um fardo. Uma coisa é ser uma celebridade com vida de puta, outra coisa bem diferente é ser uma puta que quer e precisa, agora, ter vida de celebridade. Há aí uma dupla tarefa: a imagem para outros precisa ganhar novo contorno, mas isso só ocorrerá se a imagem para si mesma for aceita. Bruna precisa reconstruir seu passado de modo que ele se torne, agora e não antes, palatável. Bruna mudou de gosto, voltou a compactuar com a nossa moral, e precisa então amenizar a vida que passou, e isso de modo a não se trair, não se pegar de novo em crise, em fuga. A fuga acabou.

Bruna Surfistinha nunca imaginou que precisaria, um dia, de pensar no seu passado como sendo “psicóloga”. Agora isso é mais que necessário. Ou faz isso, ou não pode mais se apresentar como quer se apresentar. Ninguém vai cantá-la como puta. Mas ela pensa que isso pode ocorrer. Ela pensa que, agora, isso pode ocorrer de uma maneira que a destruiria, pois agora e só agora ela viu o que é o amor-próprio. O êxito traz aos humanos um incrível amor-próprio e eles, então, se sentem deuses. Ao invés de ultrapassarem, como deuses, qualquer moral, exatamente como deuses regridem à condição “demasiado humana”. Forjam um passado que possa abrir espaço para que no presente exista alguma coisa que lhes permita sentar na poltrona da moralidade mínima. Bruna apresentou-se no programa Altas Horas antes como a tal “psicóloga” que como puta. Claro, claro, não houve qualquer criatividade nisso. Não é a primeira vez que uma mulher-personagem diz isso. Mas a situação verdadeira é que ninguém resiste à moral burguesa no mundo da moral burguesa, a moral construída modernamente com uma força jamais vista antes com qualquer outra moral.

Zarathustra vai ficar anunciado o Além do Homem. Pode anunciar. Anuncie à vontade.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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31 Responses “Bruna Surfistinha demasiadamente humana”

  1. Marcelo Ribas
    29/07/2013 at 10:56

    Você tem inveja do sucesso dela, Paulo?

    • 29/07/2013 at 11:57

      Dela quem? Da Bruna? Ué, mas que estranho! Por que? Nunca me imaginei nessa profissão, deve ser um saco! Você bebeu algo meio maluco? Você perguntou a respeito da Bruna mesmo?

  2. Thiago Soares
    24/07/2013 at 16:27

    Por tudo isso, admiro Gabriela Leite e sua postura diante de um passado que ela aprendeu a encarar menos com cinismo e mais com lucidez. Já leu “Filha, mãe, avó e puta”?

  3. Pedro Caldas
    16/07/2013 at 04:23

    Ela é cristã? Por que esse papo de “eu era puta” me deixa ensimesmado. É bem o que você escreveu. É como se ela estivesse querendo limpar um espelho que não para de embaçar.

    fintasparaogol

    • 16/07/2013 at 05:55

      Ela não tem que limpar nada, mas infelizmente, não sabe disso.

  4. Lenir
    15/07/2013 at 16:37

    Sou sua admiradora professor. Muito boa analise!
    Obrigada.

  5. Mauricio Bonetti
    15/07/2013 at 11:28

    Aquilo que eu achei mais interessante no programa, foi logo após a fala da Bruna, entrar a sexóloga para tirar dúvidas da platéia. Em determinado momento o apresentador do programa disse: “Bom, entre você e a Bruna, para falar desse assunto, poderia até trocar vocês duas de lugar”. Imediatamente, ele tratou de se desculpar para a sexóloga, disse: “Desculpa, foi só uma brincadeira!” A moral é implacável mesmo!

  6. Carlos Rafael Schneider
    15/07/2013 at 10:59

    Texto muito bom! Paulo.

  7. Lucio
    14/07/2013 at 15:53

    “O homem é corda distendida entre o animal e o super-homem: uma corda sobre um abismo; travessia perigosa, temerário caminhar, perigosos olhar para trás, perigoso tremer e parar.” Surfistinha só está tentando se equilibrar pra não cair no abismo.

    • 14/07/2013 at 16:11

      Nope, de modo algum. Ela não está na corda. Ela está aquém.

    • Lucio
      14/07/2013 at 16:21

      Aquém? Explique melhor, por favor.

    • 14/07/2013 at 17:04

      Lúcio, sua imagem é imagem do último homem. Bruna seria aquém do penúltimo homem, ou seja, antes de Nietzsche e antes de Zarathustra. Ela seria o que somos todos, os decadentes.

  8. Bruno
    14/07/2013 at 14:38

    Ao que me parece você está criticando a postura dela, colocando-a em um sentido negativo. “Erro” neste sentido! Não erro ou acerto no sentido moralista. Com base no que o senhor escreveu sobre não existirem fatos concretos: Bruna tem o direito de pensar assim, poque ela pode criar seu passado de psicóloga, criar um presente imaginário também, onde isso não seja moralismo. Que tal inventarmos que o senhor deu aula de filosofia em Marte ou na Lua? Já que nada é concreto, Platão foi seu aluno!

    • 14/07/2013 at 16:14

      Bruno, você está em uma confusão mental total. É melhor tentar uma introdução à filosofia. Por exemplo, os dois volumes de A aventura da filosofia. Mas caso não queira, queira só ir adiante pra ler jornal, pode resolver seu problema assim: pense em como você reconstrói na sua memória as coisas a ponto de você fazer outros terem também a sua memória atual, e não a memória que tinha, por exemplo, ontem. Será que agora deu? Duvido, mas … Talvez dê. Que nós reconstruímos nossa memória, que nossa memória é seletiva, tudo isso é trivial Bruno, não é possível que isso você não entenda. E isso nada tem a ver com eu saber ou não se dei aula em Plutão, meu caro. Isso tem a ver com eu saber COMO dei aula em Plutão se um dia dei aula em Plutão.

    • Bruno
      14/07/2013 at 16:55

      Leia com urgência, Paulo:
      Física e Realidade -Carlos A. Casanova
      Confissões de santo Agostinho
      A Existência do “Eu” de Olavo de Cravalho

    • 14/07/2013 at 17:03

      Ah tá, de idiota passou a professor e recomendou o Olavo de Carvalho, o cara que não passou no vestibular da filosofia e do jornalismo. Tá certo Bruno. E eu levando você a sério! Putz.

  9. Bruno
    14/07/2013 at 14:11

    Então o erro da Bruna seria uma reconstrução moralista?

  10. Bruno
    14/07/2013 at 14:00

    Um cara que passou sua infância em São Paulo não pode criar em sua mente que tal infância foi no Rio de Janeiro. Existem fatos concretos…

    • 14/07/2013 at 14:06

      Procure os fatos concretos Bruno. Aliás, tente achar fatos… concretos. Você encontrará algo estranho em relação ao passado, ou seja, que ele depende do presente mais do que imaginamos à primeira vista. Nossa memória é completamente reconstrução. A de outros também. E tudo que os documentos nos mostram de objetivo, sob outra leitura, podem se adaptar ao presente. Por isso Bruna pode redescrever e, com isso, reconstruir. Uma descoberta antiga essa, mais antiga do que quando John Dewey a anunciou.

  11. Bruno
    14/07/2013 at 13:43

    O passado não pode ser re-criado, sim re-interpretado.

    • 14/07/2013 at 13:49

      Bruno, então pode ser recriado! Onde existe o passado senão na memória?

  12. Bruno
    14/07/2013 at 12:26

    Texto bem escrito, Paulo! Sem dúvida ela está querendo re-criar seu passado, o que não é possível, e, em certo sentido nocivo. Uma “narrativa pessoal” para ter significado verdadeiro (principalmente para o narrador ou “auto-narrador”), precisa do elemento “sinceridade”. Como psicanalista posso dizer que negar questões do nosso passado acaba gerando angustia, ainda que não se saiba das razões conscientemente. A mídia é especialista em inventar passados inexistentes tanto quanto seus componentes que se tornam vítimas de sua própria mentira. Qual o problema de termos aspectos imorais na nossa história passada, ou até mesmo termos errado, ou feito algo que nos desagrada no presente? Afinal, não estamos todos nos transformando? Em nossa sociedade todos querem ser heróis sem obscuridades, cristos sem pecado. Depois não sabem pq ficam em depressão.

    • 14/07/2013 at 13:17

      Bruno, é possível e todos nós fazemos isso. Por isso sobrevivemos.

  13. Red lights
    14/07/2013 at 12:15

    Paulão, lembro que quando ela virou uma celebridade logo de imediato casou. Ela ia aos programas de Tv e apresentava esse marido. Acho que o fato de casar, propositado ou não, também tira um pouco o tal fardo que fala da vida anterior. O casamento e a constituição da família é muito importante para os conservadores. O homem que não é casado é visto como malandro na sociedade. Ela se apresenta como alguém com essa bagagem de erotismo, mas agora teria esse lado mais degradante da profissão redimido pelo casamento burguês. Interessente notar que a ex-mulher do marido dela, escreveu o livro “depois do escorpião”, foi em muitos programas e vendeu bem também.

    • 14/07/2013 at 13:18

      Pode parecer jogada de marketing, e até é, mas também é o que você disse e eu disse: redescrição para sobreviver.

  14. 14/07/2013 at 09:36

    Não assisti ao programa, só vi as chamadas.
    Gostei muito de sua análise, nela consigo perceber nuances que sozinha talvez fosse mais difícil localizar. E realmente a constatação de que a moral e os bons costumes da sociedade burguesa é bem mais forte que a nossa vã filosofia.

    • 14/07/2013 at 11:24

      Jacqueline, tá vendo, não é que a filosofia tem lá sua … utilidade!

  15. Azul
    14/07/2013 at 02:49

    Bom, claro que ela pode ter falado que era tipo uma psicóloga para se “limpar” um pouco diante da opinião pública, que costuma ver a prostituição de forma muito negativa. Ela quis passar a idéia de que a profissão dela pode tb ter outros lados, digamos mais legítimos ou humanos. Se é verdade ou não, não sei. Acho que só mesmo uma psicóloga que também é prostituita poderia fazer do puteiro algo mais terapeutico. Falando nisso, já encontrei uma filósofa nessa profissão da Surfistinha.

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