Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/06/2017

Boyhood é a história de um fruto de nossa época


Boyhood merece a fama de bom filme, ainda que em um primeiro momento, para alguns, possa ter uma história simples demais.

Por que Boyhood (Richard Linklater, Estados Unidos, 2014) é um bom filme? Fácil de acertar: não é só pela quase novidade de fazer um filme em doze anos, com os atores todos envelhecendo, mas antes de tudo porque sua história é uma história de heroísmo. Um heroísmo não dos super-heróis, mas das pessoas comuns da classe média americana – as pessoas comuns do mundo. As pessoas que fazem o mundo caminhar pulando de casa em casa, de emprego em emprego, de filhos em filhos e convivendo numa grande nação que após duzentos anos de democracia ainda se mostra verde ao dar alguns frutos maduros. Boyhood é a história desse fruto, nas mãos da bela e eternamente minha preferida Patrícia Arquette (os dentes tortos mais charmosos do Universo).

Pular de edifícios em edifícios lançando teias é fácil. Mais fácil ainda é viver uma história real. O difícil é viver uma história comum. A vida comum não é para os fracos.

É claro que o filme me toca porque ele é exatamente o período de nascimento e chegada à Universidade do meu filho mais novo, o Paulo Francisco. Tudo que há no filme nós todos passamos aqui no Brasil, um pouco diferente, claro, porque enquanto eles olham para o umbigo nós temos que olhar o umbigo nosso e ao mesmo tempo o deles. Assim, vivemos aquela história do filme duas ou mais vezes. De um mundo sem a Internet para um mundo com a Internet. De um mundo em que os últimos carrões dos anos setenta estavam ainda circulando para um mundo de mini-vans, de uma sociedade com Bush para uma sociedade com Obama, de uma caverna em que a mulher está  sozinha para o espaço sideral e cibernético em que ela está ainda mais sozinha.

A mulher do passado tinha sua vida cerceada quando o ninho secava, os filhos iam embora. Era o fim! A mulher do século XXI ainda está assim, mesmo que agora possa ser uma professora universitária, após retomar os estudos. Também aqui é assim. As mulheres continuam a saga que aos homens agora parece uma decrepitude e uma vida sem esperança. Elas ainda não são tão dependentes do álcool como os homens, nem seus filhos são maconhados inveterados. Todos se ajeitam, afinal. Mas esse crescimento de uma grande democracia associado ao crescimento da geração de pais pós-guerra fria não é uma pequena história. Principalmente se ao final há a surpresa estonteante que, de certo modo, era até esperada. Segredo de Polichinelo, mas segredo.

Ao final o pai revela ao filho, agora já crescido, tudo aquilo que eu não pude revelar, mas meus filhos sabiam de mim; tudo aquilo que meu pai não pode revelar, e que eu não sabia dele. Ao ser perguntado sobre o significado “de tudo”, “da vida” enfim, o pai responde ao jovem que terminou o ensino médio e está curtindo uma fossa por um fim de namoro: “não sei o significado, nós apenas improvisamos”. Essa cena é fantástica, porque ela se passa acima de um bar, tendo embaixo no palco o amigo do pai que criou uma banda de garagem quando jovem, e que ainda está nisso após tantos anos – improvisando.

Nós apenas improvisamos. Essa verdade não podia ser dita pelas gerações anteriores, como pais. Os pais sabiam tudo. Essa verdade não foi dita por mim, como pai. Mas meus filhos ficaram sabendo. Nos Estados Unidos, um pai um pouco mais jovem que eu, agora pode fazer dizer isso, afinal: “nós improvisamos”.

Talvez a democracia americana tenha encontrado seu ponto ideal exatamente nesse momento. Não há mais que se ter certeza ou fingir tê-la. É possível dizer para os filhos, sem que eles se desesperem: “nós improvisamos”. Isso é dizer: que o fundamentalismo e que os que têm certeza continuem gemendo, nós não, nós vamos viver sem fanatismos, pois por não termos certezas, vamos improvisando. Essa lição da América nos cabe. Esse é o fruto do filme. O filme é a história de seu aparecimento no galho da melhor árvore.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , , , ,

10 Responses “Boyhood é a história de um fruto de nossa época”

  1. Robson de Moura
    24/11/2014 at 13:32

    Coincidência incrível. Falava disso com um amigo na sexta, sobre como somos pais mais leves que nossos pais. A conversa partiu de uma frase de meu pai sobre meu cunhado, “é, ele ri demais quando tá com criança. É meio crianção também, mas é gente boa”. Para meu pai, o desagrada que meu cunhado não seja ostensivamente ‘adulto’. Conheço meu pai: recebi sua mensagem cifrada… e aceitei. (Sim sim, amadurecemos mal). Mas eu e meu amigo comentávamos o quanto, sendo pais jovens, não sentíamos a necessidade de sermos pesados como nossos pais eram (meu pai é, e sabe que é, um homem hoje muuuito deslocado). Meu amigo e eu vivemos nessa sua descrição, Paulo “o fundamentalismo e que os que têm certeza continuem gemendo, nós não, nós vamos viver sem fanatismos, pois por não termos certezas, vamos improvisando” … Não vi o filme. E não vejo a hora de vê-lo!

    • 24/11/2014 at 14:37

      Pelo menos o seu pai não é afrescalhado como os hipsters patéticos de hj.

    • 24/11/2014 at 16:13

      O pai do garoto do filme não é um patético, ele apenas ganhou autorização para não usar capa e espada.

    • 24/11/2014 at 22:11

      Eu não falei do pai no filme. O que quis dizer é que hj em dia circulam uns tipos da moda hipster que me parecem patéticos, e não que o anti-hipster seja o único modelo de masculinidade e paternidade.

    • 25/11/2014 at 02:59

      Fonseca, eu sempre interpreto (talvez erradamente) que as pessoas comentam o que comentam de modo mais diretamente ligado ao texto. Se eu fizer diferente, aí eu estarei sendo um péssimo leitor das respostas.

  2. 22/11/2014 at 16:02

    Pelo fato de já dispor de solução para tudo, os animais não precisam inventar nada. Nem improvisar. Nem criar. Devem agradecer a Epimeteu, que tão diligentemente lhes proveu de tudo que precisam, poupando-os de toda incerteza sobre a vida. Ou talvez, amaldiçoá-lo, quem sabe pelas mesmas razões! Por não terem que decidir sobre nada, nem terem nas mãos as rédeas da própria existência. Por não serem humanos, em suma.

    • 22/11/2014 at 17:38

      Fonseca, boa reflexão. Mas, pensando bem, felizmente não de toda verdadeira.

    • 22/11/2014 at 22:26

      Correto. Na verdade, muitos animais improvisam. Eu parti de uma visão rousseauniana com a qual não me identifico muito. Rousseau frisava que o animal, seja ele qual for, já nasce com seu instinto. E esse instinto é tudo de que precisa. Por isso, qualquer animal disporá, ao longo da vida, dos mesmos recursos dos quais já dispunha ao nascer. Um animal não aprende a viver. Porque não precisa. Já nasce sabendo. Acho que na época de Rousseau se sabia muito pouco sobre os animais e existia certa resistência a ver o Homem como mais um animal.

    • 23/11/2014 at 05:59

      Que tal um pouco de Darwin nisso, para ficarmos como animais normais, nós também, sem pompa?

    • 23/11/2014 at 13:00

      Sim, sou entusiasta dessa visão. Somos gorilões megalomaníacos …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *