Go to ...

on YouTubeRSS Feed

11/12/2018

Bolsonaro é o presidente pornográfico (1)


[Artigo para o público acadêmico]

Bolsonaro tem horror ao sexo e, no quadro do moralismo conservador em que vive, mostra pavor da pornografia. Todavia, Bolsonaro não sabe, mas ele é o primeiro candidato à presidência da República que é totalmente pornográfico. Ele é o fruto do nosso pedido ético por transparência. Ele é a exposição máxima. Trata-se da figura que, de tão exposta e auto-exposta que é, carece de erotismo e, portanto, de vergonha.

Pedimos uma ética da transparência. Solicitamos luzes. Fizemos questão que tudo nos fosse mostrado. Eis aí o ideal da política liberal democrática. Por causa desse pedido, por obra de um anjo torto, capaz de levar tudo ao pé da letra, ganhamos de presente a figura de Bolsonaro. Até o fascismo tinha o que esconder. Hitler censurou a “solução final”. A Alemanha não podia saber da morte nos Campos de Concentração. Bolsonaro jamais se adaptaria a um jogo de luz e sombra. Ele se expõe e expõe. Ele não tem ideia do que é privacidade. Porque ele próprio é vazio, tudo que tem já está na superfície. Não é capaz, portanto, de demonstrar vergonha. Essa falta de vergonha, que se transforma na capacidade de falar o que nenhum político falaria, o torna obsceno, pornográfico – perigoso.

Bolsonaro pode dizer que vai nomear gente “sem viés ideológico” e, logo em seguida, dizer que vai extirpar o marxismo do MEC, e prol de gente nitidamente de direita. Ele se diz homofóbico. Desmente, mas logo se diz de novo. Ele grita em bom som, em meio à campanha, com orgulho, que foi o único a votar contra o direito de empregadas domésticas. Ele não tem nenhum prurido. Ele não é autêntico ou sincero, ele simplesmente é um elemento do mundo que perdeu sua nuances, um mundo da pura exposição, do espetáculo. No capitalismo atual, chegaríamos a isso. E chegamos. Em uma época da depilação à brasileira como moda no mundo todo, não poderia ser senão aqui, no Brasil, o local da emergência do candidato capaz de fazer às vezes da casa ao império da exposição.

Bolsonaro coloca a câmera na sua casa. Pode andar de bermuda fazendo uma live. Se descuidarmos mais um pouco, deixará seus filhos o pegarem no banheiro na tal live. Na entrevista da Globo, queria enfiar o dedo no buraco do livro mostrado, para simular um pênis – o que apavorou o Bonner. Tolos os que pensam que ele faz isso para “ser popular”. Não, ele faz isso porque é de fato simples, simplório, vazio. Bolsonaro trouxe para a política as regras contemporâneas da sociedade do espetáculo. Nenhum político têm as fotos degradantes que Bolsonaro tem de si mesmo. Em todas as posições. Fazendo caretas, com cartazes dizendo obscenidades, chutando uns e outros. Ninguém tem os filmes que ele tem, agredindo mulheres. Bolsonaro é o presidente cujas fezes ficam para fora do corpo, em  uma bolsa.

Por isso mesmo, Bolsonaro pode ser visto como muito mais contemporâneo e terminal que Trump. Este, ainda é um político da velha guarda. Bolsonaro é um ícone do contemporâneo. E, nesse sentido, muito mais violento e perigoso que Trump. Não tendo noção do que é se esconder, ele se vê normal ao avançar barreiras, inclusive encostrando a mão em mulheres, de forma agressiva. Nada para ele é negativo, encoberto, secreto ou proibido. Nesse sentido, há certo comprometimento com o fascismo. Pois a política liberal implica em saber jogar, ter segredos, esconder estratégias. Ora, o fascista toma o poder de estado e desfaz o jogo. Não há jogo, só ordens claras. Bolsonaro é o homem das ordens. Diz o que diz. Não sofistica pois, enfim, não é mesmo sofisticado. Seria ridículo atribuir a ele algo como “vida interior”.

Na época da mercadorização do mundo, em que reina o valor de troca e não o valor de uso e, portanto, tudo pode se igualar por horas de trabalho e, desse modo, a dinheiro, é claro que, então, abre-se um mundo de expectadores. Ninguém usa das coisas. Todos apenas consomem ou assistem o que se mostra para consumir. A exposição é o que há. O espetáculo é a regra. A total visibilidade é o que há de regrar o mundo. É nesse mundo pornográfico que cabe um presidente assim, que é ele próprio uma peça para ser vista, pois não tem nada de misterioso. É mero objeto. É mera peça sem cenário. É o centro da teatralização de tudo. Nesse teatro não há limites. Pois ele é a céu aberto.

Em uma sociedade assim, toda reflexão e pensamento não tem sentido e tende a desaparecer. Intuímos estar em tal sociedade e, por isso mesmo, a série de sucesso que temos atualmente é Walking dead. Uns zumbis vagando e outros os caçando em estilo de atiradores de jogos eletrônicos. Zumbis não se escondem, nem jogam, apenas vão andando vagarosamente e se deixando atingir. Bolsonaro é zumbi e atirador ao mesmo tempo. Aliás, na série, tanto faz um ou outro. As subjetividades não rasas para todos, o que vale é o show.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

(1) A base teórica desse texto está no artigo “A imagem e a cara de Bolsonaro

Tags:

18 Responses “Bolsonaro é o presidente pornográfico (1)”

  1. Rogério Braga
    11/12/2018 at 12:28

    Leio a partir de bastante ressentimento.

  2. ferochhas
    26/11/2018 at 01:48

    É no penúltimo parágrafo, que o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr, desmonta a peça como um protótipo de sociedade teatralizada, com similitudes desconcertantes, perante uma visão esclarecedora e ao mesmo tempo transparente, resumindo o existencialismo ( Søren Kierkegaard, 1813 – 1855) cunhando uma personagem vazia, todo um formato merchandising exposto num representante que lhe dá o título de presidente unknown.

    Wikipédia a ser adicionado – Posicionamento Político
    “Na época da mercadorização do mundo, em que reina o valor de troca e não o valor de uso e, portanto, tudo pode se igualar por horas de trabalho e, desse modo, a dinheiro, é claro que, então, abre-se um mundo de expectadores. Ninguém usa das coisas. Todos apenas consomem ou assistem o que se mostra para consumir. A exposição é o que há. O espetáculo é a regra. A total visibilidade é o que há de regrar o mundo. É nesse mundo pornográfico que cabe um presidente assim, que é ele próprio uma peça para ser vista, pois não tem nada de misterioso. É mero objeto. É mera peça sem cenário. É o centro da teatralização de tudo. Nesse teatro não há limites. Pois ele é a céu aberto.” – Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

    20/11/2018. Filosofia como crítica cultural
    pro.ferochhas
    Portugal

  3. Rick Luchesi
    25/11/2018 at 02:57

    Porque, em termos teóricos, há uma diferença entre o conservador e o reacionário.

  4. Rich Luchesi
    24/11/2018 at 19:37

    Professor, tomo a liberdade de vir aqui e tratar de um assunto que não tem o que haver com o tema do presente artigo. Pois bem, estou assistindo a todos os seus vídeos lá no seu canal do Yotube, inclusive o último, em que o senhor fala do Ricardo Velez Rodriguez, escolhido para ministro da Educação. Confesso que fiquei surpreso quando soube que se trata de um tremendo reacionário, pois até agora eu o tinha apenas como um liberal, nos mesmos moldes de Roberto Camós.Mas, nunca um “reacionário”!Ainda mais falando em “marxismio cultural”, “ideologia de gênero”, “globalismo”, tudo o que pensa Olavo de Crvalho e Bolsonaro!E DEPOIS, VEM COM AQUELA LOROTA DE “VALORES DA TRADIÇÃO E DA FAMÍLIA”! sÓ FALTOU ELE ACRESCENTAR O TERCEIRO ELEMENTO DA TRÍADE: tradição, Família e a Propriedade- a TFP!a REACIONÁRIA tfp!

  5. Tony Bocão
    23/11/2018 at 13:34

    Há um filósofo de que gosto muito, que se chama Gilles Deleuze, e ele disse uma coisa que adoro: não vivemos numa civilização da imagem – isso não é verdade –, vivemos numa civilização dos clichês. E nosso trabalho é olhar imagens ou criar imagens que desconstruam os clichês. Por isso, interessa-me colocar em relação as imagens entre si através de um recurso constante à ideia da montagem. O importante é colocar em relação as imagens, porque elas não falam de forma isolada.

  6. Carlos Simões
    22/11/2018 at 17:32

    Professor Ghiraldelli, li o texto “Imagem e cara de Bolsonaro”. Realmente, fiquei extasiado, pois o texto é de uma clareza ímpar. Grato pelo seu conhecimento.
    Tenho duas observações:
    1- No início do tópico 2, parágrafo 2º, o Senhor inicia uma problematização acerca da razão do Brasil ter se tornado o primeiro caso concreto da espetacularização na política, conforme o tema é analisado no texto. Achei este problema de pesquisa bem interessante, o qual, certamente, poderia ser trabalhado um pouco mais no texto ou, quem sabe, em um outro artigo de forma mais focalizada.
    Algumas ideias me surgiram ao pensar sobre esta problematização, quais sejam: 1- pesquisam mostram que os brasileiros são um dos povos mais atuantes em redes sociais no mundo; 2- existe um uso abusivo dos chamados “memes” pelos brasileiros, representando até mesmo, de forma jocosa, situações dramáticas vividas pelo povo, como desastres e enchentes; 3- carência no país de uma escolarização com qualidade, tanto de nível fundamental quanto de nível médio. Penso que as ideias 1 e 2 são muito mais consequências da “sociedade do espetáculo” e talvez a ideia 3 seja uma das causas. Ainda assim, é complexo afirmar sobre as reais causas de o Brasil ser o palco-mor e primeiro país a apresentar a imagem do espetáculo em sua forma mais crua. Tanto é, que pessoas ditas escolarizadas, pertencentes a classes abastadas, usam e abusam do universo da imagem sob a forma da “sociedade do espetáculo”.
    2- Uma questão também interessante, muito bem esclarecida no texto, diz respeito sobre a ausência de racionalidade na imagem formada pelo capitalismo tardio, resultando na imagem do espetáculo, que, conforme descrito no artigo, seria uma imagem sem legenda. Pra mim, este é um primeiro momento, o momento das eleições, mas, com a posse do candidato eleito, num segundo momento, penso que alguma racionalidade terá que ser apresentada (alguma legenda), pois estamos lidando com demandas muito concretas, reais e dramáticas da população, como necessidade de trabalho, de escola, de saúde, de sobrevivência mesmo. Assim, não vejo como uma resposta imagética crua conseguirá ter o mesmo impacto que obteve no período das eleições. Aí, poderíamos imaginar alguns cenários, pelo menos dois de pronto: 1- o governo, pelas suas próprias deficiências cognitivas e pela falta de destreza política na negociação, não conseguirá elaborar uma racionalidade satisfatória (configurada em projetos, políticas públicas etc.), o que desdobrará em um governo inepto e desastroso; 2- o governo continuará sua sana na reprodução imagética pornográfica das suas ações, como meio de responder às demandas da sociedade. Desta forma, penso que a derrocada do governo será ainda maior, pois, dada à concretude das necessidades da população e, talvez, devido ao exaurimento desta estratégia (cansaço da produção imagética perante à população), a sociedade tenderá, de certo modo, a perceber claramente que o governo corrente é um puro engodo.
    Assim, vejo muitas dificuldades imposta ao governo, e até mesmo sua morte prematura, caso ele não adquira alguma racionalidade de ação política no curto prazo.
    Obrigado pela atenção,
    Carlos Simões

    • 23/11/2018 at 13:36

      Vou ler e pensar nas suas ideias, tá? Obrigado

  7. João Gilberto Paiva
    22/11/2018 at 10:25

    Blz, Professor?

    Acabei de comprar o livro do senhor: Filosofia política para educadores. Há pouco tempo estou acompanhando o seu trabalho neste blog e no canal no YouTube. Estou gostando muito. Parabéns! Abraços e estamos na resistência!

  8. Paula Campos da Silva
    21/11/2018 at 16:42

    Paulo, Meus parabéns pelo artigo excelente! A mesma energia e o mesmo tempo que você gasta para atacar o B. você pode contribuir mais à sociedade brasileira se promover iniciativas não de ficar nesse ataque que não irá retirá-lo do poder, mas de construir uma grande realização que torne a sociedade mais humana, solidária, justa, honesta, livre, desenvolvida. Exemplo: promover no Youtube um curso de Educação Política, no qual respeite o público que irá assisti-lo e não o trate como um ignorante. Quem sabe, se fizer isso de forna profissional e honesta, poderá conscientizar até mesmo muita gente que hoje em dia ama o próprio opressor dela a querer se livrar dessa opressão. Continue na luta, porque a sua contribuição tem sido necessária! Abraços!

    • 23/11/2018 at 13:38

      Paula, eu tenho 61 anos. Eu já fiz muito por este país. E estes ataques aí, minha cara, podem me custar uma longa viagem para o exterior. Já não tá bom? Deixa a Tábata, o Ciro, fazerem o positivo.

  9. LMC
    21/11/2018 at 16:10

    Fosse da Folha de SP ou de O Globo,
    publicaria este brilhante artigo sem pestanejar.

  10. Cleiton
    20/11/2018 at 14:35

    Professor, li o artigo antes e três coisas me chamaram a atenção e foram três ótimas analogias e tudo isso fazendo sentido com a imagem da imagem: primeiro, o título “A imagem e a cara do Bolsonaro ou o império do pornográfico no capitalismo tardio”, simplesmente muito bom; a segunda e terceira analogias quando o senhor faz a comparação com o Coringa e a Outra Face (Face Off), do John Woo. Realmente me capturei pela imagem e não tinha feito essa analogia até então. E hoje é bem compreensível que as pessoas gostam muito mais do Coringa ao Batman e falam até hoje desse filme do John Travolta e do Nicolas Cage. Hoje em dia, ter conhecimento é apenas secundário, pois o que importa mesmo é a exposição em si, o BBB, a pornografia nos rostos em forma a satisfazer as suas necessidades de consumo. Obrigado pelo texto!

    • 20/11/2018 at 15:18

      Eu que agradeço sua leitura. Ele será publica em livro da USP, pela ECA, do nosso grupo lá de Comunicação Política, liderado pela professora Heloiza Matos

  11. Peruzinho Sgaz
    20/11/2018 at 11:49

    Ele não seria o indivíduo unidimensional de Marcuse? O “homem-massa”?

    • 20/11/2018 at 15:19

      Marcuse pensou as coisas como eu as expus aqui, a partir da noção de imagem?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *