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22/06/2017

Bolsonaro explica o que é ética filosófica


QUANDO UM DEPUTADO (Bolsonaro), mesmo sendo ex-militar formado no tempo da Ditadura e adepto de comportamentos de extrema direita, diz que a polícia deveria “matar mais” (aproximadamente 3.000 no Brasil versus 400 nos Estados Unidos só em 2014), aí sim temos um caso a ser analisado na Comissão de Ética. Por quê? Ética não é “ética parlamentar”, ética de corporação. Ética é ética, é seguir um ethos, e se Bolsonaro, como deputado, pode afirmar algo assim e receber a anuência de um órgão importante como o Legislativo, sem qualquer observação, então estamos dizendo que o ethos do brasileiro inclui o cultivo da morte. Podemos dizer isso? Podemos querer isso?

O que a fala de Bolsonaro ensina para todo jovem, pela negativa, em especial para o estudante do ensino médio e do início do ensino universitário, é que a ética de Durkheim deveria ser questionada enquanto parâmetro para a ética moderna. Foi Durkheim que colocou a ética como algo para fora da filosofia, trazida para o âmbito da ciência que ele ajudou a criar, a sociologia, e foi ele que delineou uma sociedade ideal moderna capaz de fazer da ética a ética corporativa. Por essa via, é ética é aquilo que chamamos de “ética do trabalho” ou “ética profissional”. No fundo, nada além de seguir manuais de boas maneiras, azeitados conforme o que se pede de produtividade no “mundo do trabalho”. Uma ética assim dá margem até para “petrolão”. Pois, afinal, é uma ética que privilegia um mundo pequeno em que a figura da hierarquia é mais mais forte que a do raciocínio livre.

Durkheim era um liberal com certas simpatias pelo socialismo democrático. Mas, seu sistema de configuração da ética serviu muito bem a Constituições proto-fascistas ou cripto-fascistas. Sindicados e corporações atreladas ao estado, todas organizadas como câmeras, e regidas por uma ética que deveria ser não o ethos da nação, mas as diretrizes de uma nação idealizada pela direta política e com regras básicas de funcionamento da hierarquia típica de cada ramo profissional. A Ética Profissional é uma disciplina e um código que veio disso. Se há algo que tem pouco a ver com a ética como a filosofia a entende, é a ética profissional. Aliás, as escolas de administração a louvam!

No Brasil, sabemos bem, a Constituição de 1934 anunciava já alguns pressupostos desse estilo postos como camisa de força na Constituição de 1937. Até hoje, culturalmente, não nos livramos desse espírito. Recentemente a universidade brasileira fez quase todos os cursos possuírem a disciplina Ética, e até professores de filosofia caem na besteira de  lidar antes com ética corporativa que se preocupar com a discussão do ethos que deve ser o objeto da ética, filosoficamente falando. O que é ética cai por terra e aparecem então as bobagens inerentes ao “aplicado”: o que é ser um bibliotecário ético ou um engenheiro ético ou uma prostituta ética ou um médico ético etc. No geral ser ético, nesse caso, é fazer vista grossa para o erro do colega. Só isso. Ou um pouco mais: deixar o chefe contente. Ou seja, puxar o saco. Isso quando a ética não certa o supra sumo da prática de “boas relações do trabalho”! Quem sobrevive a isso, então, vai ser o “funcionário do mês”. Deus me salvou disso! Sou grato!

Bolsonaro pode cultivar a simbologia da morte. A liberdade de expressão deve lhe ser garantida como cidadão e como parlamentar. Mas Bolsonaro como deputado precisa mensurar até onde ele é parlamentar brasileiro ou não. Como uma expressão do Legislativo, Bolsonaro não deve seu mandato somente aos seus eleitores, que ele supõe que sejam todos fascistas iguais a ele (e até pode acertar nisso, em algum grau). Ele deve também seguir uma ética. Se essa ética é a ética profissional, a do “decoro do parlamentar”, ele cai para o interior da sociedade durkheimiana pouco alvissareira. Mas se a ética parlamentar não for um código exclusivamente corporativo, se for uma ética que tem a ver com o ethos da nação, é difícil acreditar que, do pondo de vista de quem faz leis, seja possível decretar o Brasil como um país que louva a guerra interna, que possa aplaudir que o estado mate em um só ano mais de duas mil pessoas.

A morte de pessoas pela polícia no volume em que está não indica uma simples ação do estado contra eventuais bandidos. O número ultrapassa em muito o dos Estados Unidos e de outros países. É muita gente que perde a vida em uma situação normal, ou seja, em um país que não está em conflito e que tem sua economia razoavelmente estável. Tudo leva a crer que três crimes estão sendo cometidos: primeiro, a morte do que pode ser um bandido, mas em forma de execução sumária, sem que este tenha o direito de julgamento; segundo, a morte de inúmeros inocentes, pegos erradamente por ação intencional ou não; terceiro, a morte por violência indiscriminada, sem qualquer cuidado vindo de uma formação policial eficaz que, se realmente eficaz, consegue prender sem matar – os outros países mostram que isso não é um sonho.

Sabemos que na polícia “está tudo errado”. Caso houvesse algo de certo na polícia, Luiz Eduardo Soares estaria escrevendo sobre outra coisa. A quantidade de coisas que ele já escreveu sobre o assunto e a maneira como há por aí gente preocupada com a militarização da polícia, nos mostra que há erros demais. Mas o que estou dizendo aqui não diz respeito à segurança pública. É algo mais do filósofo, do professor de filosofia.

Mostro aqui que o conceito de ética corporativa deveria deixar lugar para o conceito de ética, da ética vinda da discussão filosófica. Nesse caso, a preocupação tem de ser pela atenção que possamos dar ao ethos da nação, ou seja, aos costumes e hábitos que acreditamos ser os do brasileiro e que, se avaliamos como bons, temos que preservá-los. O Brasil tem na sua Carta Constitucional ser um país que louva a paz. E não é à toa que pedimos guarda de Deus na própria Constituição, o Deus judaico-cristão que entendemos ser um deus do amor. A paz, então, não é paz dos cemitérios. Por essa ótica, os parlamentares deveriam ter mais cuidado com seus discursos, inflamar menos ódio e guerra e louvar mais raciocínios de solução de problemas, não de agravamento.

A fala de Bolsonaro é útil, já ensina que está errado e que a partir de seu erro pode levantar a discussão sobre ética no contexto da universidade brasileira, nas salas de aula.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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33 Responses “Bolsonaro explica o que é ética filosófica”

  1. Joao Neto Pitta
    14/02/2016 at 05:40

    Bolsonaro é a caricatura de uma direita acéfala e vulgar. O maior inimigo da filosofia é quem fala sem pensar; Bolsonaro se enquadra bem.

  2. Joyce
    08/10/2015 at 11:55

    Tiririca .

  3. Felipe Almeida
    08/10/2015 at 10:58

    Outra coisa, querer comparar o número de mortos por policiais no Brasil com o Estados Unidos é de um mau-caratismo gigante. Quantos homicídios acontecem no Estados Unidos por ano? E olhe que a população lá é bem maior. Quantos policias são mortos nos EUA? Bandido lá tem armamento pesado como aqui? Então não fala asneira se utilizando de dados que te interessam e omitindo dados que não te interessam postar

    • 08/10/2015 at 11:54

      Felipe Almeida seu problema é grave, mas não creio que remédios orais adiantem. Só supositório. (veja que lhe dei atenção, para que você não se mate, oK? Mas foi só isso, não posso mais, tenho de trabalhar, beijocas!)

    • Marcos
      28/10/2015 at 19:53

      Olá Paulo. Mesmo não sendo o meio adequado para desfazer essa dúvida, mas vou tentear.
      Durante uma aula de discussão sobre ética e moral, lancei a seguinte pergunta:
      Se a ética questiona a moral, então quem questiona a ética? Poderia por gentileza desfazer essa dúvida.
      Desde já agradeço.

    • 28/10/2015 at 19:55

      Como pode ver pelo texto, sua pergunta não tem muito a ver né? Pois ética é um coisa e moral outra. A função dela não é de questionamento mútuo.

  4. Felipe Almeida
    08/10/2015 at 10:53

    Esse Paulo, sempre covarde e arrogante. E ai, vai abriu na estória da Sherazade, não é seu covarde

    • Felipe Almeida
      08/10/2015 at 10:54

      #você abriu mesmo

    • 08/10/2015 at 11:57

      Felipe sua tara por mim não poderá ser satisfeita neném.

    • 08/10/2015 at 11:55

      Felipe agora você mostrou quem é. Olha, o Ministério Público pegou a Shera em 500 mil. Está feliz?

    • 02/02/2016 at 21:04

      O que acha da acusação de,estupro,de Maria do Rosário, contra o Bolsonaro? Às vezes uso essas figuras para dar exemplos de questões que alunos me pedem. Mas, sinceramente, esses bate bocas causados por gente da direita e da esquerda, não é meu objeto.

    • 03/02/2016 at 01:31

      Vitor! Não acho nada, política partidária de gente assim não me interessa. Meu tempo é precioso de mais para gastar com isso.

  5. Wagner
    08/10/2015 at 05:46

    Além da boçalidade costumaz, está se revelando um populista no mais alto grau de imundice que a direita casca grossa poderia nos fornecer.
    Bastou sair uma pesquisa em que praticamente a metade da população apoia o que provavelmente será um de seus gritos de campanha: “bandido bom é bandido morto”, para ele, junto ao filho, aproveitar o discurso e acalentar a almejada parcela da população. Não é pouca gente não…
    Esse cara é perigoso!

    • 08/10/2015 at 11:56

      Wagner! Bolsonaro existe no mundo todo. Veja aí nas respostas como tem gente que ficou furiosa pelo meu artigo. Percebeu?

    • Wagner
      09/10/2015 at 06:10

      Sim…
      Admiro sua boa vontade e gentileza com os filhotinhos de Shera, do Olavo e do Boçal.

  6. carlos
    07/10/2015 at 21:46

    3 mil sao numeros oficiais né?
    Penso que deva morrer muito mais. E temos uma sociedade inculta e futil que apoia esse estado de coisas. Acho que o Brasil eh um caso perdido, um pais piada de mal gosto no mundo todo, reconhecido pela matança, pelas arbitrariedades, pela sua enorme desigualdade social. Nao vai sair disso nunca, estava fadado a toda essa desgraça.

    • 08/10/2015 at 01:28

      O Brasil não é um caso perdido. Só para os que não estudam história ele não melhorou.

  7. Cesar
    07/10/2015 at 19:05

    Bom o texto, entretanto, para mim, não filósofo, acho que faltou explicitar mais as diferenças entre o ethos filosófico (que no meu entendimento junto ao texto, parece ser algo que transcende as esferas sociais – ou campos sociais -, mas ao mesmo tempo se refere aos limites dos Estados-Nações – ou podemos falar de um ethos mundial?) e o ethos específicos a cada campo social ou como você exemplificou: a ética de cada profissão. Desculpe qualquer eventual falha no meu entendimento.

    • 07/10/2015 at 19:16

      Cesar isso é blog, o resto, você vai para os livros, aliás eles estão ao lado, na capa do blog, oK? Obrigado.

    • Cesar
      07/10/2015 at 19:37

      Caro Ghiraldelli, a condição de blog não isenta o texto de uma eventual insufiência explicativa. MInha questão atenta para um objetivo proposto no texto que não é completamente alcançado no mesmo, portanto, não trata-se de falta de conteúdo (o qual, segundo você, eu deveria buscar nos livros, visto que o blog é um espaço insuficiente para maiores explanações, o que eu entendo, mas discordo), mas de, coerência argumentativa, se posso dizer assim… No mais, é uma discussão interessante. Cordialmente.

    • 07/10/2015 at 19:54

      Cesar você é um pouco cansativo e chato. O texto é feito para gente com alguma formação mínima, o leigo culto. Putz!

    • Cesar
      07/10/2015 at 22:58

      Ad hominen detected! Sem mais!

    • 08/10/2015 at 01:26

      Cesar toda vez que vejo um cripto olavete sei ele fala isso, mas ele não sabe o que é ad hominen, usa errado igual ao Olavo. É a falta do terceiro ano primário que pesa.

    • Cesar
      08/10/2015 at 09:41

      Que mané Olavete cara, você delira! Qualquer um escreve livro mesmo…

    • 08/10/2015 at 11:55

      Cesar como qualquer um escreve, iremos todos comprar os seus agora, mas ficarmos cultos. Aguarde.

  8. Valdério
    07/10/2015 at 18:56

    Prezado Paulo,

    Deu um pouco de tristeza. Percebi que o conceito de ética foi apresentado no meu curso universitário de modo muito tosco.

    Acho que ainda tenho que me aprimorar muito nesse tema ainda.

    Esse artigo acaba me lembrando de outra coisa, desculpe o desvio.

    Acredito que a grade curricular de cursos de humanas como Direito e Administração que apresentam introdução à sociologia, erram feio ao apresentar Durkheim, Webber e Marx antes de Hobbles, Locke, Rousseau e outros. Às vezes, sequer os apresentam.

    Tanto no caso do Ethos do seu artigo, como no contrato social, temos pessoas despreparadas para conversar e entender o que você colocou nesse artigo. É assunto muito sério, pois tem como consequencia direta, a morte de mais pessoas.

    • 07/10/2015 at 19:17

      Valdério o não burro é o cara que sabe que fez uma burrice. Corrija. Pegue os livros aí ao lado no meu blog.

  9. Thiago
    07/10/2015 at 16:27

    Texto inteligente e muito bem articulado, ótimo trabalho! Me lembrou seus vídeos do youtube que sempre me ensinaram bastante. Continue tocando o barco, a centelha do conhecimento e inspiração nunca pode se apagar. Analisando os problemas filosoficamente e buscando sempre o debate saudável e construtivo já ajudaria em muito não só ao perdido Bolsonaro, mas a casa do planalto.

  10. Ângelo Lima
    07/10/2015 at 15:11

    Quantos policiais morrem por ano nos EUA ? A vida aqui fora é diferente da vã filosofia debaixo de um ar condicionado !!!
    Suba o morro com a polícia , tem culhão ?

    • 07/10/2015 at 16:43

      Angelo você não leu nada meu, e não sabe portanto o que já fiz e faço. Aliás, escrevo sem ar condicionado. Você só leu este artigo, e apenas uma linha, porque falei do seu amado nazista Bolsonaro, que você curte por meio de homossexualidade enrustida. Sei disso por conta da sua estupidez, que não sabe que as mortes de policiais no Brasil também são crescentes exatamente pela mesma política que faz as mortes de não policiais sejam crescentes. Aliás, no cômputo dessas mortes aí, há mortes de policiais feitas por policiais. Ângelo, faz o ensino fundamental, faz.

  11. Nobel Junior
    07/10/2015 at 13:27

    Gostei da postagem. Parabéns pelo trabalho e pelo esforço de tirar a filosofia da academia e trazer para a sociedade. Essa postagem exemplifica esse esforço.

    • 07/10/2015 at 13:40

      Essa é a ideia de blog, Hora da Coruja, já o CEFA, é ele próprio lugar de pesquisa, venha conheceer.

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